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7 amigos, 1 jantar e todos os celulares na mesa

Paolo Genovese, 2016, 97 minutos: play às 20h30 e um jogo de jantar que virou o filme mais refilmado do mundo.

Sete amigos ao redor de uma mesa de jantar com celulares no centro.

O jantar de Eva e Rocco em Roma

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“Vamos pôr os celulares aqui no meio, e cada mensagem que chegar a gente lê pra mesa toda”, propõe Eva na sala de jantar do apartamento dela em Roma, enquanto o assado esfria na travessa.

Eva é psicanalista e recebe seis convidados naquela noite. O marido, Rocco, cirurgião plástico, acha a ideia uma bobagem. Os outros riem, desconfiam e aceitam, porque recusar soaria como confissão de culpa.

As regras cabem numa frase. Ligação entra no viva-voz. Mensagem é lida pros sete. Foto aparece na tela, e a tela gira de mão em mão.

Lá fora, a lua passa por um eclipse total. Os amigos foram até a varanda olhar, voltaram e sentaram. A noite parece leve: vinho, piada velha de colégio, provocação ao casamento recente de Cosimo e Bianca.

O primeiro toque é de um aplicativo de corrida. O segundo é a mãe de Carlotta, preocupada com o jantar das crianças. Nada grave. A mesa relaxa e serve mais vinho.

Peppe, professor de educação física recém-desempregado, chegou sozinho. A namorada nova, Lucilla, ficou em casa com febre, segundo ele. Os amigos cobram a apresentação faz meses e já desconfiam da desculpa.

Lele, marido de Carlotta, é o mais nervoso da mesa. Às dez da noite, ele espera uma mensagem que não pode aparecer na tela. Por baixo da toalha, troca de celular com Peppe: os dois aparelhos são do mesmo modelo, com o toque igual.

O plano parece seguro. Protege Lele e deixa Peppe, solteiro na prática, receber o que vier sem prejuízo pra ninguém.

O plano falha porque Peppe também guarda um segredo, e agora quem segura o telefone dele é Lele, diante da mulher e dos amigos.

O Programa de Hoje começa pelo diretor que filmou a noite inteira numa sala só e pelos sete atores que dividiram a mesa.

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I  O Programa de Hoje

Uma sala de jantar, 7 atores e um eclipse

O programa desta noite é Perfeitos Desconhecidos, título original Perfetti sconosciuti, comédia dramática italiana de 2016, 97 minutos, dirigida por Paolo Genovese, com Marco Giallini, Kasia Smutniak, Valerio Mastandrea, Anna Foglietta, Edoardo Leo, Alba Rohrwacher e Giuseppe Battiston. Play às 20h30 e ponto final às 22h07.

Paolo Genovese nasceu em Roma em 1966 e veio da publicidade. Antes do filme, era conhecido na Itália por comédias de bilheteria, como Immaturi (Imaturos), de 2011, sobre ex-colegas de escola obrigados a refazer o exame final duas décadas mais tarde.

O roteiro é de Genovese com Filippo Bologna, Paolo Costella, Paola Mammini e Rolando Ravello. O diretor contou em entrevistas que a ideia partiu de uma constatação simples: o celular virou a caixa-preta (o gravador de bordo que guarda tudo o que aconteceu no voo) da vida de cada um.

Quase o filme inteiro se passa numa sala de jantar montada em estúdio. A câmera circula pela mesa, entra na cozinha, sai pra varanda e volta. A tensão vem dos cortes rápidos entre rostos e telas acesas.

Marco Giallini faz Rocco, o anfitrião cirurgião. Kasia Smutniak faz Eva, a psicanalista que propõe o jogo. Os dois vivem às turras com a filha adolescente, Sofia, que vai passar a noite na casa do namorado.

Valerio Mastandrea e Anna Foglietta fazem Lele e Carlotta, casal com dois filhos pequenos e um casamento em ponto morto. Carlotta quer pôr a sogra num asilo; Lele resiste, e a briga atravessa o jantar.

Edoardo Leo e Alba Rohrwacher fazem Cosimo e Bianca, os recém-casados. Ele é taxista e sonha abrir um restaurante; ela é veterinária e quer filho logo.

Giuseppe Battiston faz Peppe, o amigo solteiro, grandalhão e calado, que chega com uma garrafa de vinho e sem a namorada prometida.

O eclipse lunar marca o relógio do filme: começa quando os convidados chegam e termina quando eles vão embora.

Lançado na Itália em fevereiro de 2016, o filme surpreendeu a própria produção na bilheteria e ficou semanas em cartaz em cidades pequenas, levado pelo boca a boca.

No mesmo ano, ganhou o David di Donatello (o principal prêmio do cinema italiano) de melhor filme e de melhor roteiro. Em Nova York, o Festival de Tribeca deu ao grupo de roteiristas o prêmio de roteiro de longa internacional.

A força do elenco está na escuta. Cada ator passa boa parte das cenas ouvindo, e o filme vive das reações: um garfo que para no ar, um gole longo de vinho, um sorriso que demora a sair.

 
 

II  Se a Noite Pedir Outra Coisa

Um remake em Paris e dois casais num sofá

As duas saídas desta noite ficam à mesa: a versão francesa do jogo dos celulares e um encontro de dois casais que desanda em 80 minutos.

Se a noite pedir o jogo com outro sotaque, o programa é O Jogo, título original Le Jeu, de Fred Cavayé, 2018, 90 minutos, disponível na Netflix quando o catálogo deixa. Play às 20h30 e ponto final às 22h.

Cavayé muda a cidade pra Paris e mantém o eclipse, os sete amigos e o celular na mesa. Bérénice Bejo faz Marie, a anfitriã, e Stéphane De Groodt faz Vincent, o marido. Vincent Elbaz, Suzanne Clément, Roschdy Zem, Doria Tillier e Grégory Gadebois completam o jantar.

A versão francesa é mais rápida e mais farsesca. Os atores falam por cima uns dos outros, e a cena do celular trocado ganha mais riso que dor.

Vale ver as duas em sequência pra notar onde cada país põe o peso: a italiana demora no silêncio, a francesa corre pra próxima piada.

O Guinness World Records registrou Perfeitos Desconhecidos em 2019 como o filme com mais refilmagens da história, com 18 versões naquela contagem.

Se a noite pedir briga sem segredo de celular, o programa é Deus da Carnificina, título original Carnage, de Roman Polanski, 2011, 80 minutos, disponível no aluguel digital. Play às 20h30 e ponto final às 21h50.

Dois casais de Nova York se encontram num apartamento pra resolver uma briga entre os filhos de 11 anos: um deles acertou o outro com um galho no parque. Jodie Foster e John C. Reilly recebem; Kate Winslet e Christoph Waltz visitam.

O roteiro vem da peça O Deus da Carnificina, da dramaturga francesa Yasmina Reza, estreada em 2006. Reza escreveu a adaptação com Polanski e manteve a ação inteira dentro da sala.

A conversa começa educada, com torta de maçã e pera, e degringola em uísque, enjoo em cima de um livro de arte e um celular jogado no vaso de tulipas. Waltz atende o telefone a cada poucos minutos, e a irritação da sala cresce a cada toque.

Regra de bolso: se a casa quer o mesmo jantar com outra cara, vá de O Jogo. Se quer ver dois casais perdendo a pose sem nenhum segredo no bolso, vá de Deus da Carnificina.

 

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III  Sai do Catálogo

O celular trocado e o jantar que não aconteceu

Perfeitos Desconhecidos entra e sai dos catálogos de streaming no Brasil, e o aluguel digital muda de mês a mês. Busque por Perfetti sconosciuti, o título original, e confira Paolo Genovese, 2016 e 97 minutos antes do play.

Cuidado com os homônimos: a versão espanhola de 2017 é de Álex de la Iglesia, e a mexicana de 2018 é de Manolo Caro. As duas aparecem na busca com o título em português.

Volte ao jantar. A mensagem das dez chega no celular que agora está diante de Lele. Não é a foto que ele temia. É Lucio, o namorado de Peppe, perguntando se o amigo já contou aos outros.

Lele, de repente, precisa passar por gay diante da mesa inteira, sem poder explicar a troca sem entregar o próprio caso. Carlotta reage com frieza, Cosimo faz piada pesada, e a mesa revela o preconceito que ninguém admitia.

Peppe assiste calado. Quando a pressão aperta, confirma que Lucio é o namorado dele e diz que nunca contou porque já sabia o que ouviria. Lucilla, a namorada da febre, nunca existiu.

O resto da mesa desaba em sequência. Carlotta troca mensagens com um homem que pediu que ela tirasse a calcinha antes do jantar. Bianca descobre que Cosimo tem uma amante, Marika, e que Marika está grávida.

Os brincos que Eva usa naquela noite foram presente de Cosimo: os dois também tinham um caso. Bianca sai da casa sem o marido.

O momento mais terno vem de Rocco. Sofia liga pedindo conselho, porque o namorado quer que ela durma lá. O pai, no viva-voz, diz que a decisão é dela e que, se quiser voltar, basta ligar. A mesa escuta calada.

O roteiro gira em torno de uma frase que circula há anos, dita pelo escritor colombiano ao biógrafo dele:

“Todos têm três vidas: uma pública, uma privada e uma secreta.” (Gabriel García Márquez a Gerald Martin, em Gabriel García Márquez: Uma Vida, 2008)

O desfecho desmonta a noite inteira. A câmera volta ao começo da noite: Eva propõe o jogo, Rocco recusa, e ninguém põe o celular na mesa. Tudo o que vimos foi o jantar que poderia ter acontecido.

Os casais descem a escada abraçados, sem saber de nada. Lele recebe a foto que esperava. Peppe vai pra casa sozinho, sem ter contado de Lucio. O eclipse termina, e os sete seguem perfeitos desconhecidos.

1. Confira direção, ano e duração antes do play: Paolo Genovese, 2016 e 97 minutos.

2. Na troca por baixo da toalha, repare quem fica com qual aparelho: a confusão das dez nasce ali.

3. No último plano, compare os casais com a chegada: ninguém mudou, e o filme quer que você note.

Play às 20h30, sete celulares no meio da mesa e um eclipse que dura o jantar inteiro.

“Na sua mesa, quem toparia deixar o celular virado pra cima?”

Na próxima edição: Relatos Selvagens, de Damián Szifron, 2014, e a noiva de Buenos Aires que descobre a traição na própria festa.

 
 
Quiz da edição

Segundo o Guinness World Records, quantas versões de Perfeitos Desconhecidos foram contadas em 2019, no título de filme com mais refilmagens da história?

A21 versões
B12 versões
C15 versões
D18 versões

Veja o ranking de quem mais acerta →

 
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