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A banda que entra no palco 1 música por vez
Jonathan Demme, 1984, 88 minutos: play às 20h30 e 9 músicos no palco no fim.
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David Byrne e o rádio de fita no Pantages
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Num palco sem cenário do Pantages Theatre, em Hollywood, em dezembro de 1983, um homem magro de terno cinza e tênis branco pousa um rádio de fita no chão e fala ao microfone: "Oi. Tenho uma fita que quero tocar." O homem é David Byrne, vocalista dos Talking Heads, banda de Nova York nascida em 1975. Ele aperta o play, e do rádio sai uma batida seca de bateria eletrônica. Byrne toca o violão por cima e canta Psycho Killer (assassino psicopata, a primeira música famosa do grupo). Não há banda atrás dele. Não há bateria, amplificador nem tapete. A parede do fundo é de tijolo nu, e as luzes do teatro ficam à vista. Durante a música, Byrne tropeça de propósito, como se a batida o empurrasse, e termina cambaleando até a beira do palco. O filme se chama Stop Making Sense, lançado em 1984, com 88 minutos e direção de Jonathan Demme, o americano que sete anos depois ganharia o Oscar de direção por O Silêncio dos Inocentes. A regra do show aparece na segunda música. A baixista Tina Weymouth entra e senta num banquinho para tocar Heaven (paraíso). Na terceira chega o baterista Chris Frantz, e enquanto ele toca, técnicos de preto empurram plataformas com rodinhas para o palco. Na quarta chega o guitarrista e tecladista Jerry Harrison. Cada canção traz mais gente e mais equipamento, montado diante da câmera, até o palco vazio do começo virar uma festa de nove músicos. Quem aperta o play às 20h30 chega aos créditos às 21h58, e quase não vê a plateia até os minutos finais: Demme deixou o público quase inteiro fora do quadro, para quem está no sofá ocupar a primeira fila. O Programa de Hoje acompanha o show música a música, até o terno gigante que Byrne veste perto do fim. Continue lendo ↓ |
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I O Programa de Hoje
I, Um palco que se monta diante da câmera
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O programa desta noite é Stop Making Sense, filme-concerto americano de 1984, 88 minutos, restaurado em 4K pela distribuidora A24 em 2023, com aluguel e compra nas lojas digitais de filmes. Play às 20h30 e ponto final às 21h58.
Depois de Jerry Harrison, o quarteto original está completo e toca Found a Job (achei um emprego). A partir da quinta música, a banda cresce para fora dos Talking Heads.
Chegam as cantoras Lynn Mabry e Ednah Holt, que fazem os vocais de apoio e dançam em passos combinados. Chega o percussionista Steve Scales, com congas e sinos. Chega o guitarrista Alex Weir, que vinha da banda de funk The Brothers Johnson. E chega Bernie Worrell, tecladista que vinha do Parliament-Funkadelic, grupo de funk de George Clinton.
Com nove pessoas no palco, o show vira outro. Burning Down the House (pondo fogo na casa) e Life During Wartime (vida em tempo de guerra) saem mais rápidas e mais pesadas que nos discos, e Byrne corre em volta do palco como quem faz exercício.
Demme filmou com poucas câmeras e planos longos. Quase não há cortes rápidos, nenhum close da plateia e nenhuma entrevista de bastidor. O diretor de fotografia foi Jordan Cronenweth, o mesmo de Blade Runner, de 1982.
Em This Must Be the Place (deve ser aqui), Byrne dança com um abajur de sala, desses de pé, e o abajur é a única luz em cena. Em Once in a Lifetime (uma vez na vida), ele bate na própria testa e sacode o corpo como se levasse choque.
Na metade do show, Byrne sai de cena. Weymouth e Frantz assumem a frente com o Tom Tom Club, a banda paralela do casal, e tocam Genius of Love (gênio do amor), enquanto o vocalista se troca nos bastidores.
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Byrne volta para Girlfriend Is Better (a namorada é melhor) dentro de um terno cinza enorme, com ombros largos que deixam a cabeça pequena no topo. A música tem o verso que dá nome ao filme: stop making sense (pare de fazer sentido).
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O terno ganhou vida própria. Byrne contou em entrevistas que a ideia veio de uma viagem ao Japão, onde viu o teatro nô, a forma clássica de teatro japonês com máscaras e figurinos que aumentam o corpo do ator.
O show termina com Take Me to the River (me leve ao rio) e Crosseyed and Painless (vesgo e sem dor). Só então a câmera se vira para a plateia e mostra o teatro de pé, dançando nos corredores.
A ordem do show é a ordem do filme. Demme não embaralhou as músicas na montagem, e quem assiste do começo ao fim vê a mesma escalada que o público do Pantages viu: um homem, depois dois, depois quatro, depois nove.
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II Se a Noite Pedir Outra Coisa
II, Uma despedida em São Francisco e um musical da Broadway
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As duas saídas desta noite são shows filmados por diretores de cinema: uma despedida de 1976 e uma volta de David Byrne ao palco em 2019.
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Se a noite pedir rock clássico, o programa é O Último Concerto de Rock, título original The Last Waltz, de Martin Scorsese, 1978, 117 minutos, encontrado em edições em disco e no aluguel digital. Play às 20h30 e ponto final às 22h27.
The Band, grupo canadense e americano que acompanhou Bob Dylan nos anos 60, se despede dos palcos no Winterland, casa de shows de São Francisco, no feriado de Ação de Graças de 1976. Os convidados sobem um por um: Bob Dylan, Joni Mitchell, Neil Young, Muddy Waters, Van Morrison, Eric Clapton.
Scorsese intercala o show com entrevistas feitas por ele mesmo, e o guitarrista Robbie Robertson explica por que a banda desiste da estrada depois de 16 anos de turnê. O filme fecha com todos os convidados juntos no palco, cantando I Shall Be Released (serei libertado), de Dylan.
Se a noite pedir o mesmo David Byrne décadas depois, o programa é American Utopia, de Spike Lee, 2020, 105 minutos, filmado no Hudson Theatre, na Broadway, e disponível no aluguel digital. Play às 20h30 e ponto final às 22h15.
O palco de American Utopia repete a ideia do vazio. Não há plataformas nem fios: os 11 músicos tocam com instrumentos sem cabo, presos ao corpo, e se movem descalços, de terno cinza, cercados por uma cortina de correntes de metal.
Byrne abre o show sentado a uma mesa, sozinho, segurando um cérebro de plástico. Canta sobre as conexões do cérebro humano, e a banda vai aparecendo atrás da cortina aos poucos, como em 1983.
No fim, a banda desce do palco e atravessa a plateia tocando Road to Nowhere (estrada para lugar nenhum), dos Talking Heads, e Spike Lee segue os músicos até a rua, de bicicleta.
Regra de bolso: se a casa quer ver uma era acabar, vá de O Último Concerto de Rock. Se quer ver para onde Byrne levou o palco vazio, vá de American Utopia.
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