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O programa de hoje é Ainda Estou Aqui, disponível em serviço por assinatura e também por aluguel avulso nas lojas digitais, 135 minutos. Play às 20h30 e ponto final às 22h45. Falado em português, direção de Walter Salles, produção brasileira e francesa de 2024, com Fernanda Torres, Selton Mello e Fernanda Montenegro.
A história começa no calor. Verão de 1971, praia do Leblon, a casa dos Paiva com a porta encostada e movimento constante de vizinho, amigo e namorado de filha. Rubens Paiva é engenheiro, foi deputado federal e teve o mandato cassado no golpe de 1964. Eunice cuida de cinco filhos e de uma rotina que finge normalidade.
O roteiro sai do livro de memórias que Marcelo Rubens Paiva publicou em 2015, escrito da posição de filho caçula que na época tinha onze anos e via metade das coisas. Essa altura de olhar organiza o filme inteiro: o espectador entende os fatos um pouco antes das crianças, nunca muito antes.
Em 20 de janeiro de 1971, homens à paisana chegam à casa e pedem que Rubens os acompanhe para um depoimento. Ele troca de roupa, avisa que volta logo e sai. Dois dias depois, Eunice e a filha Eliana também são levadas, e a mãe passa doze dias detida num quartel, vendada boa parte do tempo, ouvindo perguntas sobre nomes que ela não conhece.
O que a produção faz com a volta para casa é a parte mais dura de assistir. Eunice retorna e precisa administrar conta de banco bloqueada, escola dos filhos, aluguel, empregada, mudança de estado, e ainda decidir o que contar para cada criança. O Estado responde às perguntas dela com silêncio de balcão por anos seguidos.
A cena que resume a estratégia dela cabe num clique. Uma revista manda repórter e fotógrafo à casa para retratar a família do homem sumido, e o fotógrafo pede que ninguém sorria, porque a página quer expressão de luto. Eunice reúne os filhos, olha para a lente e dá a ordem contrária, e a foto sai com sete pessoas rindo.
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"Sorriam."
Walter Salles, Ainda Estou Aqui, 2024
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A segunda metade acelera o relógio. Eunice se muda para São Paulo, entra na faculdade de direito aos quarenta e oito anos, se forma e vira advogada dedicada a causas indígenas, com trabalho reconhecido em demarcação de terra. Cria os cinco filhos, sustenta a casa e mantém o processo aberto contra o Estado.
O documento sai em 1996. Vinte e cinco anos depois do dia em que o marido saiu de casa, a família recebe do poder público o papel que reconhece oficialmente o que houve, resultado direto da lei que criou a comissão de reparação naquele ano. A cena que registra a entrega dura pouco e não tem trilha sonora empurrando emoção.
O reconhecimento internacional veio rápido e mudou o tamanho do filme. Fernanda Torres ganhou o Globo de Ouro de melhor atriz em drama em janeiro de 2025, e a produção levou o Oscar de melhor filme internacional em março de 2025, o primeiro do Brasil nessa categoria, além de indicações a melhor filme e melhor atriz.
Para a noite, o encaixe pede alguma disposição. São 135 minutos com ritmo de vida doméstica na primeira hora e peso crescente na segunda, sem sequência gráfica de violência. O último bloco se passa em 2014 e reúne a família à mesa de novo, com Fernanda Montenegro no papel da mesma mulher aos oitenta e cinco anos.
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