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A Chegada acerta a noite de domingo em 116 minutos
A ficção científica que se explica sozinha: play às 21h na Max, ponto final às 22h56, e duas saídas nomeadas por humor.
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Nave parada sobre um campo aberto ao amanhecer
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São 21h de um domingo. A semana recomeça em nove horas, o despertador voltou a existir na cabeça de todo mundo, e a sala pede um programa que caiba inteiro antes da meia-noite.
Domingo tem um problema que sábado não tem: hora marcada para acabar. Cada minuto gasto rolando capa sai direto do sono da segunda-feira, e a escolha do programa vira uma conta contra o relógio.
A ficção científica é onde essa conta costuma estourar. O gênero encheu o catálogo de título que só funciona com dever de casa feito: capítulo anterior na memória, universo compartilhado, três séries derivadas e um final que fica devendo a próxima temporada.
O aplicativo empurra justamente esses. A fileira de destaque premia o que tem continuação, porque continuação segura assinante por mais alguns meses, e o filme que fecha sozinho aparece três telas abaixo, sem trailer tocando na capa.
Existe um custo doméstico que quase ninguém coloca na conta. Domingo à noite a casa vai dormir em horários diferentes: alguém sai da sala no meio, alguém senta atrasado, e filme que só faz sentido com o episódio anterior na cabeça perde as duas pessoas de uma vez.
O formato que resolve a noite é o filme fechado. Uma premissa apresentada nos primeiros dez minutos, uma personagem com um trabalho concreto para executar e um ponto final que não pede continuação nenhuma.
A vantagem prática está na saída. Você aperta play sabendo a hora do fim, não precisa procurar em que ordem assistir, e a conversa depois dos créditos acontece sobre o que acabou de passar na tela, e não sobre o que vem no ano que vem.
O programa de hoje é um desses, e ele nasceu de um conto de trinta páginas publicado em 1998. O diretor passou anos convencendo um estúdio de que dava para fazer um filme de alienígena sem uma única batalha, com uma professora de linguística no lugar do herói. Está na Max e cabe entre as nove e as onze da noite.
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I O Programa de Hoje
A língua que se lê nos dois sentidos
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Uma linguista, doze naves e nenhuma batalha. Veja por que o programa devolve a sala às 22h56.
O programa de hoje é A Chegada, de Denis Villeneuve, na Max, 116 minutos. Play às 21h e ponto final às 22h56. O filme está com dublagem em português e legenda, e a classificação é de 12 anos.
A premissa cabe em três frases. Doze objetos pousam em doze pontos do planeta, um deles sobre um campo aberto em Montana. Ninguém sabe por que eles vieram, e ninguém consegue perguntar.
Louise Banks dá aula de linguística numa universidade e é recrutada por um coronel do Exército que aparece na sala dela com um gravador na mão. A tarefa é uma só: descobrir como formular uma pergunta e como entender a resposta.
Ian Donnelly, físico, entra na mesma equipe pelo outro lado da mesa. Ele quer medir, ela quer conversar, e boa parte do filme é a discussão entre os dois métodos dentro de uma barraca militar no meio de um pasto.
A nave é chamada de casca pela equipe. Tem quase 140 metros de altura, fica parada no ar sem encostar no chão e abre uma passagem de entrada a cada 18 horas, sempre no mesmo horário.
A escrita dos visitantes é o centro da história, e ela foi desenhada de verdade antes da filmagem. A artista Martine Bertrand criou cerca de cem símbolos circulares, cada um com sentido próprio, e a produção montou um dicionário para que a mesma forma nunca aparecesse com dois significados diferentes.
O detalhe que organiza a trama é o formato do símbolo. Ele é um círculo fechado, sem começo e sem fim, traçado de uma vez só, o que significa que quem escreve já sabe onde a frase vai terminar antes de puxar o primeiro pedaço.
Uma cena resume o método da personagem. Louise conta a história de que a palavra canguru teria nascido de um mal-entendido entre um explorador e um aborígene, e admite logo depois que a história é falsa, só que ela serve para o argumento que precisava ser feito.
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"A linguagem é a pedra fundamental da civilização. É a cola que mantém um povo unido, e é a primeira arma sacada num conflito."
Louise Banks, em A Chegada, 2016
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O filme foi indicado a oito Oscars na cerimônia de 2017 e levou um, o de edição de som, para Sylvain Bellemare. Custou cerca de 47 milhões de dólares e passou de 200 milhões de bilheteria no mundo.
Um aviso honesto antes do play: os primeiros vinte minutos são rotina de trabalho, com formulário, helicóptero e protocolo militar. Quem senta esperando ação nesse trecho desiste antes de o filme começar de verdade.
Para o domingo, ele entrega exatamente o que a noite pede: uma pergunta declarada nos primeiros dez minutos, nenhum capítulo anterior para lembrar e ponto final às 22h56, com a casa dormindo antes das onze e meia.
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II Se a Noite Pedir Outra Coisa
Órbita ou Galáxia
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O domingo não é escolhido pelo gosto, é escolhido pelo fôlego que sobrou do fim de semana. A conta muda o programa inteiro: curto devolve a sala antes das onze, longo avança até quase meia-noite e cobra uma atenção que o domingo talvez não tenha para dar.
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Se a noite pedir menos peso, o programa é Gravidade, de Alfonso Cuarón, na Max, 91 minutos. Play às 21h e ponto final às 22h31.
A história cabe numa frase. Uma médica em sua primeira missão e um astronauta veterano estão do lado de fora do ônibus espacial, consertando o telescópio Hubble, quando uma chuva de destroços atinge a estrutura e corta o caminho de volta.
A abertura é um plano só de quase treze minutos, sem nenhum corte, com a Terra girando ao fundo. O filme já está contando a história antes de você perceber que ele começou.
Não existe nada para decorar. Não há linha do tempo, não há segundo ato em outro planeta, e o objetivo é o mesmo do primeiro ao último minuto: voltar.
Levou sete Oscars na cerimônia de 2014, entre eles direção, fotografia e as duas categorias de som. Sandra Bullock passou boa parte da filmagem sozinha dentro de uma caixa de LEDs montada para reproduzir no rosto dela a luz que existiria em órbita.
Serve para o domingo em que a semana seguinte já está pesando. São 91 minutos, a sala fica livre antes das onze, e ninguém vai para a cama devendo sono.
Se a noite pedir mais, o programa é Interestelar, de Christopher Nolan, na Max, 169 minutos. Play às 21h e ponto final às 23h49.
Um piloto aposentado virou agricultor num planeta que está ficando sem comida, e aceita atravessar um buraco de minhoca para procurar um lugar onde a espécie ainda caiba.
Matthew McConaughey e Anne Hathaway dividem a viagem, e o físico Kip Thorne assinou a consultoria científica, inclusive a simulação que gerou a imagem do buraco negro que aparece na tela.
A diferença de estrutura é o que muda a noite. Interestelar pede que você acompanhe duas linhas de tempo correndo em velocidades diferentes, com uma hora de um lado valendo anos do outro, coisa que o programa de hoje não pede em nenhum minuto.
Foi rodado em película de 70 milímetros, com uma plantação de milho cultivada de verdade para a produção, e levou o Oscar de efeitos visuais em 2015.
A diferença entre os dois está na saída, e nunca na qualidade. Gravidade devolve você para a sala antes das onze. Interestelar termina às 23h49 e rende meia hora de conversa depois dos créditos.
Regra de bolso para hoje: se a segunda-feira começa cedo, vá de Gravidade. Se o despertador de amanhã pode esperar, Interestelar aproveita a hora extra e devolve alguma coisa em troca.
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