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ED 034
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A cidade inteira era cenário e só um homem não sabia

São 103 minutos de filme fechado: play às 20h30 e ponto final às 22h13, com uma comédia que vira suspense na metade.

Rua de cidade litorânea planejada ao amanhecer, casas em tom pastel iguais entre si e o mar de estúdio ao fundo.

Seahaven ao amanhecer, com o mar ao fundo

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“Bom dia, e caso eu não veja vocês, boa tarde, boa noite e bom dia", diz Truman Burbank na calçada da própria rua, em Seahaven, para dois vizinhos que ouvem a saudação há trinta anos e respondem no tempo exato, porque foram contratados para responder. Ele acha que está sendo educado. Eles estão trabalhando.

Comédia de premissa costuma gastar o truque na sinopse. O espectador chega sabendo o segredo, o roteiro passa uma hora escondendo um segredo já contado, e a mesa de casa perde a paciência antes da metade. A produção de 1998 resolve o problema pela porta oposta: entrega o mecanismo logo na primeira sequência, avisa que a cidade é um estúdio, e transfere a tensão para outra pergunta, a de quanto tempo o protagonista leva para desconfiar.

A abertura já mostra o defeito da máquina. Um refletor de iluminação despenca do céu e se espatifa no asfalto em frente à casa do vendedor de seguros, com etiqueta de nome de estrela colada na carcaça, e o rádio do carro explica em seguida que uma aeronave perdeu peças em voo. Truman aceita a explicação e segue para o trabalho, enquanto a produção corre para remendar o roteiro daquela manhã.

Existe uma decisão de direção que sustenta o resultado. Peter Weir filmou quase tudo numa cidade planejada de verdade, Seaside, na Flórida, com casas em tom pastel e ruas de traçado repetido, e enquadrou boa parte das cenas como se a câmera estivesse escondida em botão de camisa, espelho retrovisor ou maçaneta de porta. O grão da imagem muda conforme quem está filmando dentro da história, e a mesa percebe a troca sem precisar de explicação.

Para a mesa de casa, vale um aviso de temperatura. Jim Carrey aparece sem nenhuma das caretas que o tornaram conhecido nos cinco anos anteriores, a primeira metade tem ritmo de comédia de bairro e a segunda vira suspense de fuga, com perseguição noturna e chuva controlada por operador de painel. Quem senta esperando gargalhada do começo ao fim vai ficar em silêncio nos últimos vinte minutos.

O programa de hoje tem um vendedor de seguros que nunca saiu da ilha, uma agência de viagens com cartaz de acidente aéreo na parede, um estúdio escondido dentro de uma lua artificial e um barco de vela num mar que tem parede pintada.

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I  O Programa de Hoje

Cento e três minutos numa cidade construída para um homem só

O programa de hoje é O Show de Truman, disponível em serviço por assinatura e também por aluguel avulso nas lojas digitais, 103 minutos. Play às 20h30 e ponto final às 22h13. Direção de Peter Weir, produção americana de 1998, com dublagem brasileira disponível e faixa original em inglês.

A regra do mundo aparece antes do protagonista. O filme abre com depoimentos de bastidor, o criador do programa falando de dentro de uma sala de controle, a atriz que interpreta a esposa explicando que a vida dela não tem separação entre trabalho e casa, e um contador de dias no ar. A partir daí, tudo o que Truman vive na tela vai ao ar para uma audiência que assiste de bar, de banheira e de guarita de estacionamento.

O roteiro de Andrew Niccol organiza a ilha como um problema de engenharia. Seahaven fica cercada de água, e Truman tem pavor de água desde criança, porque o programa afogou o ator que fazia o pai dele num passeio de barco encenado. Cada saída possível tem uma trava emocional instalada de propósito, e as travas foram construídas ao longo de trinta anos de exibição.

As rachaduras se acumulam em cenas pequenas. Um elevador de prédio comercial abre e mostra a copa da equipe atrás da parede falsa. O rádio do carro sintoniza a comunicação interna da produção e narra os movimentos dele em tempo real. Uma mulher de casaco vermelho é arrancada da praia por um homem que diz ser o pai dela e alega pressa para viajar à Fiji.

A virada acontece quando ele decide testar a cidade em vez de aceitar a explicação. Ele passa a improvisar percursos, entra num prédio sem aviso, muda de rota no meio da rua e obriga centenas de figurantes a reagirem sem roteiro. A produção responde com trânsito falso, incêndio florestal e vazamento de usina, e cada emergência inventada acaba entregando a existência do cenário.

"Nós aceitamos a realidade do mundo que nos é apresentado."

Andrew Niccol, O Show de Truman, 1998

O terceiro ato inverte o gênero. Truman some das cinco mil câmeras, a transmissão sai do ar pela primeira vez, e o criador manda ligar o sol às três da manhã para procurar um homem só dentro do próprio cenário. A tempestade seguinte é operada por um técnico com joystick, e o barco de vela continua avançando.

A cena final acontece contra uma parede pintada de azul, e o filme não transforma a saída em discurso. Ed Harris conversa com Truman pelo alto-falante do céu, oferece um argumento sobre segurança e previsibilidade, e a resposta cabe numa frase de duas linhas, dita com a mesma cortesia da calçada da primeira sequência.

Para a noite, o encaixe é direto. São 103 minutos com Jim Carrey em papel dramático, Laura Linney como a esposa que interrompe a cena para ler anúncio de cacau em pó, Ed Harris na sala de controle e trilha assinada por Burkhard Dallwitz com peças de Philip Glass. Harris levou o Globo de Ouro de ator coadjuvante em janeiro de 1999, e o filme recebeu três indicações ao Oscar naquele mesmo ano.

 
 

II  Se a Noite Pedir Outra Coisa

Um homem que aceita a câmera ou um personagem que descobre o jogo

Nem toda mesa quer um filme que termina em conversa com o céu. As duas saídas de hoje pegam a mesma pergunta, quanto da nossa vida é roteiro alheio, e resolvem em temperaturas opostas: uma é a versão consentida da vigilância, a outra transforma a descoberta em aventura de sábado.

Se a noite pedir a mesma premissa com o protagonista sabendo de tudo, o programa é Ed TV, disponível por aluguel avulso nas lojas digitais, 122 minutos. Play às 20h30 e créditos às 22h32.

Ron Howard dirige a história de um locador de vídeo que assina contrato para ter a vida transmitida ao vivo por um canal a cabo em queda de audiência. Matthew McConaughey topa por dinheiro e vaidade, Jenna Elfman entra como a namorada que não assinou nada, e Woody Harrelson faz o irmão que descobre o gosto pela fama.

O contraste com o filme de Peter Weir é de consentimento. Truman não escolheu a câmera e passa o filme inteiro tentando prová-la; o personagem de Ron Howard escolheu, assinou e depois descobre que o contrato vale também para a família dele, para o namoro e para a discussão de cozinha. As duas produções chegam ao mesmo desconforto por caminhos invertidos.

Se a noite pedir leveza e uma mesa com adolescente junto, o programa é Free Guy: Assumindo o Controle, disponível em serviço por assinatura e por aluguel avulso, 115 minutos. Play às 20h30 e créditos às 22h25.

Shawn Levy dirige a história de um caixa de banco que repete a rotina todo dia dentro de um jogo eletrônico de mundo aberto, até perceber que os habitantes seguem regras que ele nunca viu. Ryan Reynolds carrega a comédia física, Jodie Comer aparece dos dois lados da tela e o desenho de produção transforma cada rua em cenário programado, com falhas visíveis para quem presta atenção.

A proximidade com o programa principal está na descoberta. As duas produções colocam um homem gentil numa rotina projetada por terceiros, dão a ele um estímulo fora do roteiro, uma mulher que não deveria estar ali, e acompanham o efeito dominó que vem depois. A diferença é de peso, porque o filme de 1998 filma a fuga como suspense e o de 2021 filma como aventura colorida.

Regra de bolso: se a mesa quer discutir depois dos créditos, vá de Ed TV. Se quer rir e sair da sala de bom humor, Free Guy resolve a noite.

 

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III  Sai do Catálogo

Filme de estúdio antigo troca de vitrine a cada renovação de contrato

O Show de Truman ocupa a posição mais instável do catálogo brasileiro: é filme de estúdio antigo, licenciado por prazo, e nenhum serviço por assinatura é dono dele. O detentor negocia janelas de exibição, e cada janela tem data de início e data de fim escritas em contrato que o assinante nunca vê.

Filme de 1998 vale pouco por clique e muito por pacote. O estúdio vende lotes de catálogo antigo em bloco, o serviço paga por um período fechado, e quando o período acaba o título some sem aviso e sem e-mail. A busca no aplicativo passa a devolver apenas a opção de aluguel.

Existe ainda a camada regional. O mesmo título pode estar em serviço diferente no Brasil e nos Estados Unidos no mesmo dia, porque cada contrato é fechado por território.

O aluguel avulso é a saída estável porque é vendido por transação. A loja digital repassa ao detentor a cada compra, então a ficha do filme permanece de pé mesmo quando nenhuma assinatura carrega o título, e a página costuma oferecer aluguel de 48 horas e compra definitiva lado a lado, com preços diferentes para alta definição.

A faixa de áudio fica na ficha do título, junto com a lista de legendas. Vale abrir a ficha com a mesa ainda de pé, porque descobrir a ausência da dublagem depois do play atrapalha o começo da noite.

1. Confira o catálogo de assinatura antes do jantar, porque filme de estúdio antigo entra e sai de serviço em ciclo curto, e a memória de ter assistido por lá no ano passado não garante que a ficha continue disponível hoje.

2. Procure pelo título em português e também pelo original, porque o aplicativo às vezes indexa a versão brasileira apenas na página de aluguel e a original apenas no catálogo de assinatura.

3. Se nenhum serviço contratado carregar o filme, resolva pelo aluguel avulso nas lojas digitais, na faixa de cinco a quinze reais pelas 48 horas, que entrega alta definição, dublagem e legenda no mesmo arquivo.

O embaralhamento de vitrine acontece porque o estúdio vende catálogo antigo por prazo e porque o serviço prefere renovar títulos que aparecem no relatório de audiência do trimestre.

Play às 20h30, ponto final às 22h13, e um homem que passou trinta anos sendo educado com vizinhos pagos para responder, até resolver testar a cidade em vez de aceitar a explicação.

Na próxima edição: o documentário sobre o falsificador de vinhos que enganou os leilões de Nova York por uma década.

"Quanto da sua rotina de hoje continuaria igual se alguém estivesse assistindo?"

 
 

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APorque quase se afogou na piscina da escola em Seahaven
BPorque o programa encenou a morte por afogamento do ator que fazia seu pai num passeio de barco
CPorque um tubarão apareceu numa cena de infância dele
DPorque a mãe dele tinha superstição contra banho de mar

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