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A criatura de Alien passa o filme fora de quadro
São 117 minutos: play às 20h30, ponto final às 22h27, e um monstro que o diretor esconde no escuro dos corredores quase o tempo inteiro.
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Corredor do Nostromo com vapor e sombra ao fundo
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“Admiro sua pureza", diz Ash, o oficial de ciência, na enfermaria do cargueiro Nostromo, enquanto os outros tripulantes o encaram e a criatura anda solta em algum ponto dos dutos da nave. Nenhum deles sabe ainda que quem fala não é gente. Alien, o Oitavo Passageiro chegou às salas dos Estados Unidos em 25 de maio de 1979, dirigido por Ridley Scott no segundo longa da carreira dele. A história cabe numa linha: sete tripulantes de um rebocador espacial acordam antes da hora por causa de um sinal captado numa lua qualquer, descem para conferir, e voltam com companhia. O que segura o filme de pé é uma decisão de montagem. A criatura adulta aparece inteira em pouquíssimos momentos, e o resto do tempo ela é vapor saindo de uma tubulação, uma sombra que cruza o fundo do enquadramento, um bip de sensor que marca movimento numa sala vazia. O terror mora no corredor mal iluminado, não no bicho exposto sob refletor. O desenho da criatura veio de fora do cinema. O suíço H. R. Giger, pintor que misturava carne e máquina num estilo que ele chamava de biomecânico (corpo e maquinário fundidos na mesma figura), levou ao estúdio um quadro antigo, o Necronom IV, e a produção mandou construir aquilo em tamanho de gente. Dentro do traje entrou Bolaji Badejo, estudante nigeriano de artes gráficas com 2,18 metros de altura, achado por um diretor de elenco num bar de Londres. Ele nunca tinha atuado, fez aulas de tai chi para aprender a mover o corpo devagar, e só filmou em blocos curtos porque a cabeça de borracha esquentava rápido demais. A escalação de Sigourney Weaver nasceu de uma decisão de roteiro. Dan O'Bannon e Ronald Shusett escreveram a tripulação sem definir sexo para nenhum papel, e a última sobrevivente acabou sendo a oficial Ripley. O programa de hoje tem um sinal de origem desconhecida, um ovo aberto no fundo de uma nave abandonada, um jantar interrompido do pior jeito possível, um gato chamado Jones, um computador de bordo apelidado de Mãe e uma cápsula de escape onde a história decide quem fica. Continue lendo ↓ |
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I O Programa de Hoje
Cento e dezessete minutos dentro de um rebocador espacial sujo
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O programa de hoje é Alien, o Oitavo Passageiro, disponível em serviço por assinatura e também por aluguel avulso nas lojas digitais, 117 minutos. Play às 20h30 e ponto final às 22h27. Direção de Ridley Scott, roteiro de Dan O'Bannon a partir de argumento dele com Ronald Shusett, produção britânica e norte-americana de 1979, com legendas e dublagem em português.
Sigourney Weaver faz a oficial Ellen Ripley, papel que a tirou do teatro e a colocou no cinema grande. Tom Skerritt faz o capitão Dallas, John Hurt faz o navegador Kane, Ian Holm faz o oficial de ciência Ash, Veronica Cartwright faz a piloto Lambert, e Harry Dean Stanton e Yaphet Kotto fazem Brett e Parker, os dois engenheiros que cuidam da máquina lá embaixo e brigam por bônus de contrato.
A nave não parece nave de ficção científica dos anos 1950. O Nostromo é um rebocador industrial que arrasta uma refinaria de minério, com piso de grade, cano exposto, corrente pendurada e caneca suja na mesa. A tripulação reclama de horas extras antes de reclamar de monstro.
A história anda por degraus. O computador de bordo, que a tripulação chama de Mãe, acorda todo mundo do sono criogênico para investigar uma transmissão vinda da lua LV-426. Três descem, encontram uma nave alienígena encalhada com o piloto morto há muito tempo no assento, e um porão cheio de ovos.
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A cena que ficou conhecida foi filmada uma vez só. A tripulação janta, Kane se engasga, e a criatura recém-nascida rompe o peito dele na frente de todos. O elenco sabia que algo sairia do tórax, mas não tinha sido informado do volume de sangue guardado nos canos escondidos sob a mesa: a cara de espanto de Veronica Cartwright, atingida em cheio pelo jato, é reação de verdade.
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Daí em diante o filme vira caçada dentro de casa. A criatura cresce rápido, some pelos dutos de ventilação, e o grupo tenta empurrá-la com lança-chamas até a comporta de ar. O sensor de movimento que eles carregam marca proximidade sem dizer a direção, o que transforma corredor reto em armadilha.
No meio da caçada o filme troca de vilão. Ripley acessa o computador e descobre a Ordem Especial 937, instrução da companhia mandando trazer a criatura de volta acima da vida de qualquer tripulante. Ash existe para cumprir a ordem, e a briga na enfermaria revela que ele é um androide com leite branco no lugar de sangue.
O fecho acontece na cápsula de escape, com a nave grande já programada para explodir. Ripley entra com o gato Jones, se acha em segurança, e a criatura está lá dentro, encaixada entre os tubos como mais um pedaço de encanamento. Ela se veste com o traje pressurizado, abre a comporta e empurra o bicho para fora com jato de gás.
A produção levou o Oscar de melhores efeitos visuais na cerimônia de 1980, e a trilha de Jerry Goldsmith entrou bastante alterada na montagem, com trechos remanejados para cenas às quais não pertenciam. O compositor nunca escondeu o desgosto com o resultado. O que não se sabe até hoje se diz com todas as letras: a nave encalhada e o piloto fossilizado no assento não recebem explicação nenhuma dentro destes 117 minutos, e o roteiro original não guardava resposta reservada para depois.
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II Se a Noite Pedir Outra Coisa
Uma base no gelo antártico ou uma órbita sem nenhum monstro
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Nem toda mesa aceita bicho em duto de ventilação às nove da noite. As duas saídas de hoje mantêm o aperto de espaço fechado e vão para lados opostos: uma troca o corredor escuro por uma base cercada de neve, a outra tira o monstro da conta e deixa só o vácuo.
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Se a noite pedir a mesma paranoia com gente trancada, o programa é O Enigma de Outro Mundo, disponível em serviço por assinatura, 109 minutos. Play às 20h30 e ponto final às 22h19.
John Carpenter dirige em 1982 a história de doze homens numa estação de pesquisa na Antártida que recebem um cão fugido da base norueguesa vizinha. Kurt Russell faz o piloto de helicóptero MacReady, Keith David faz o mecânico Childs e Wilford Brimley faz o biólogo Blair, que entende antes dos outros o tamanho do problema.
A ponte com o programa principal está em quem você tem ao lado. Scott esconde a criatura no escuro e mantém a tripulação unida contra ela; Carpenter põe o horror em plena luz e faz cada personagem suspeitar do colega, porque o organismo que chegou copia corpo humano e anda de rosto emprestado. Os efeitos de Rob Bottin são práticos, de látex e ar comprimido.
Se a noite pedir tensão sem nenhuma criatura, o programa é Gravidade, disponível por aluguel avulso nas lojas digitais, 91 minutos. Play às 20h30 e ponto final às 22h01.
Alfonso Cuarón dirige em 2013 uma doutora em engenharia biomédica, vivida por Sandra Bullock, que perde a nave numa chuva de destroços durante um reparo no telescópio espacial e atravessa a órbita saltando de estação em estação, com oxigênio contado. George Clooney faz o astronauta veterano ao lado dela.
Regra de bolso para a noite: se a mesa gosta de desconfiar dos personagens e aguenta efeito prático explícito, vá de O Enigma de Outro Mundo. Se prefere aperto no peito sem sangue nenhum, Gravidade entrega o mesmo sufoco de ar acabando com a Terra girando bonita na janela.
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