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A escada que liga o porão ao jardim envidraçado
São 132 minutos entre um semi-porão e uma casa de vidro: play às 20h30, ponto final às 22h42, e uma escada que decide o filme.
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A escada que desce até o semi-porão
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Existe um recurso de direção que quase ninguém nota na primeira sessão e que organiza o filme inteiro por baixo: a altura. Quando o roteiro trata de classe social, o diretor tem duas saídas. Pode explicar a desigualdade em diálogo, e aí o público ouve uma tese. Ou pode construir a desigualdade no espaço, e aí o público sente a diferença sem que ninguém precise dizer uma linha sobre dinheiro.
A segunda saída depende de um detalhe de construção: o filme precisa de níveis. Um personagem que sobe degraus para trabalhar e desce degraus para dormir carrega a hierarquia no próprio corpo, cena após cena, e a câmera só precisa acompanhar. Ninguém no elenco fala em renda, e mesmo assim a plateia sabe exatamente quem está por cima.
O truque tem uma vantagem prática para a sala de casa. Espaço se entende no olho, em silêncio, e funciona igual em qualquer idioma, com legenda ou sem. Um degrau lido na tela dispensa nota de rodapé cultural, o que explica por que filme construído em camadas verticais viaja tão bem para fora do país de origem.
A altura também resolve o problema do ritmo. Cada mudança de andar reinicia a tensão sem precisar de novo personagem ou nova reviravolta: basta alguém descer onde não deveria descer, ou subir onde não é esperado, e a cena ganha risco imediato. O roteiro consegue trocar de temperatura duas ou três vezes sem trocar de assunto.
Existe ainda um efeito de memória. Quem assiste guarda planta de casa muito melhor do que guarda nome de personagem, então o filme continua funcionando na conversa do dia seguinte pela geografia: o quarto, o vidro, o corredor, o degrau. A discussão na mesa começa pelo mapa e só depois chega à moral da história.
O programa de hoje é o exemplo mais discutido dessa engenharia no cinema recente, e leva o método ao limite: a casa onde a história acontece foi construída do zero num terreno vazio, com cada janela e cada lance de escada desenhados antes da primeira filmagem, justamente para que a diferença de altura entre duas famílias coubesse dentro de um único cenário.
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I O Programa de Hoje
Uma casa de vidro, um semi-porão e 132 minutos
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Parasita, 132 minutos.
Assunto de Família, 121 minutos.
O programa de hoje é Parasita, disponível nos principais serviços por assinatura e também por aluguel avulso, 132 minutos. Play às 20h30 e ponto final às 22h42. Falado em coreano, com legenda e opção dublada, direção de Bong Joon-ho, produção sul-coreana de 2019.
A premissa cabe numa frase. Uma família de quatro pessoas que vive num semi-porão de Seul, dobrando caixas de pizza por trocado, consegue emprego dentro da casa de uma família rica, um cargo de cada vez, sem que os patrões descubram que os quatro são parentes entre si.
O endereço faz o trabalho de exposição. O semi-porão é um tipo real de moradia coreana, com a janela no nível da calçada, e a família inteira precisa levantar o braço para pegar sinal de wi-fi alheio no canto do banheiro. A casa de cima é o oposto exato: gramado, parede de vidro e silêncio.
A escada é o instrumento de medida do filme. Para chegar em casa depois de um dia de trabalho na colina, os quatro descem lances e lances de degrau até o nível da rua, e a descida é filmada como trajeto contínuo, sem corte de alívio, para que a distância entre os dois endereços vire tempo de tela.
O cenário foi erguido para isso. A casa moderna não existia: a equipe de arte construiu a estrutura ao ar livre, com o jardim, a sala e os corredores em escala exata, e reproduziu o bairro do semi-porão num tanque que podia ser inundado, porque o roteiro previa a chuva que separa o segundo do terceiro ato.
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"O cinema é a arte de mostrar nada e sugerir tudo."
Robert Bresson, Notas sobre o Cinematógrafo, 1975
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O prêmio conta a parte mais improvável da história. Parasita venceu a Palma de Ouro em Cannes em maio de 2019, por voto unânime do júri, e em fevereiro de 2020 levou quatro Oscars, incluindo melhor filme, o primeiro em língua não inglesa a conseguir a estatueta principal em noventa e duas edições da premiação.
O dinheiro acompanhou o prêmio. O filme custou onze milhões de dólares e passou dos duzentos e cinquenta milhões em bilheteria mundial, com meses em cartaz num circuito americano que costuma tratar legenda como obstáculo.
O tom precisa de aviso, porque a primeira hora engana. O filme começa como comédia de golpe, com trapaça bem armada e piada de timing, e vira outra coisa na metade exata. A segunda metade tem violência seca e uma sequência de enchente pesada, então a mesa que quer comédia leve vai levar um susto no meio da sessão.
Para a noite, o encaixe pede planejamento. São 132 minutos sem gordura, mas a virada acontece por volta dos sessenta minutos e não existe bom momento para pausa depois dela. Quem começa às 20h30 termina às 22h42 com assunto de sobra para meia hora de conversa antes de dormir.
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II Se a Noite Pedir Outra Coisa
Uma família que furta ou uma empregada no México
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Nem toda mesa quer trapaça coreana e enchente no terceiro ato. As duas saídas de hoje mantêm a família pobre no centro da história e a casa como cenário, mas trocam o eixo: uma vai para a ternura do crime pequeno em Tóquio, a outra para a rotina de uma empregada doméstica na Cidade do México.
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Se a noite pedir gentileza em vez de tensão, o programa é Assunto de Família, disponível nos serviços por assinatura e por aluguel avulso, 121 minutos. Play às 20h30 e créditos às 22h31.
O filme acompanha um grupo que vive amontoado numa casa minúscula em Tóquio, sobrevivendo de trabalho precário e de pequenos furtos em mercado, e que recolhe da rua uma menina de cinco anos numa noite de frio. A convivência revela, aos poucos, que quase nenhum laço ali é o que parece.
A direção de Hirokazu Kore-eda faz o oposto do choque. A câmera fica parada, as cenas acontecem em volta de uma mesa baixa cheia de comida, e o conflito chega por informação vazada em conversa banal. O filme também venceu a Palma de Ouro, em 2018, um ano antes do programa de hoje.
O ponto de atenção para a sala é o ritmo. Assunto de Família demora a mostrar para onde vai, e quem espera reviravolta a cada quinze minutos pode achar a primeira hora arrastada. A recompensa vem nos últimos vinte minutos, quando o filme cobra tudo o que plantou.
Se a noite pedir realismo de rotina, o programa é Roma, disponível em serviço por assinatura, 135 minutos. Play às 20h30 e créditos às 22h45.
O filme parte de um ano na vida de uma empregada doméstica indígena numa casa de classe média da Cidade do México, no começo dos anos setenta, enquanto a família que a emprega se desfaz por dentro e a cidade entra em convulsão política do lado de fora do portão.
A técnica de conflito aqui é outra dentro do mesmo tema. Em vez de golpe e disfarce, Alfonso Cuarón usa a câmera que gira devagar dentro do mesmo cômodo, em preto e branco, para mostrar que a mulher que atravessa todos os quartos da casa é a única pessoa que não tem um quarto próprio nela.
Regra de bolso para hoje: se a mesa quer chorar de afeto e discutir o que faz uma família, vá de Assunto de Família. Se a sala aceita um filme lento, sem trilha e com som ambiente no lugar da música, Roma entrega a mesma desigualdade doméstica em catorze minutos a mais.
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