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Hoje a tela recebe Aftersun, drama britânico escrito e dirigido por Charlotte Wells, lançado em 2022, com 102 minutos. Começa às 20h30 e os créditos sobem às 22h12.
Calum é vivido por Paul Mescal, ator irlandês então com 26 anos. Sophie é Frankie Corio, escocesa de Glasgow escolhida num teste aberto entre centenas de crianças, sem experiência anterior em cinema. A Sophie adulta é Celia Rowlson-Hall, quase sem falas.
No karaokê, Sophie se inscreve para cantar Losing My Religion, do R.E.M., e conta com o pai ao lado. Calum recusa. Ela sobe sozinha, desafina, a voz falha no refrão, e ele assiste da mesa sem se levantar.
Depois, a filha diz que não quer mais falar com ele naquela noite. Calum sai andando para a praia, entra no mar escuro e nada para longe da areia até sumir do enquadramento. Wells não corta para mostrar a volta.
O aniversário de 31
Na manhã seguinte, Calum está de pé como se nada tivesse acontecido. O dia é o aniversário dele, e Sophie arma uma surpresa: convence um grupo de turistas a cantar parabéns para o pai, de pé no restaurante.
A câmera fica no rosto de Mescal. Ele sorri, agradece, e o sorriso não chega aos olhos. Mais tarde, num dos planos mais lembrados do filme, Calum aparece sentado na cama, de costas, chorando sem som.
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Wells deixa a tristeza do pai fora do campo de visão da filha: o espectador vê o que Sophie não via, e é ali que o filme dói.
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Há outros sinais espalhados. Calum compra um tapete turco caro demais para quem divide quarto de solteiro com a filha, e diz que vai pendurá-lo no apartamento novo. Num passeio de barco, perde a máscara de mergulho e fica mais irritado do que a perda pede.
Na lama de um balneário, pai e filha se cobrem de barro cinza e posam para a foto de outros turistas. Num ônibus de excursão, Sophie dorme no ombro dele. Os momentos felizes são tão concretos quanto os escuros, e Wells não escolhe entre eles.
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“Todas as fotografias são memento mori. Tirar uma fotografia é participar da mortalidade, da vulnerabilidade, da mutabilidade de outra pessoa.” (Susan Sontag, Sobre a fotografia, 1977)
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A fita de Sophie trabalha nesse sentido. Cada imagem do pai sorrindo na piscina guarda, para quem a revê vinte anos depois, a pergunta sobre o que ele sentia no minuto seguinte, já sem a câmera ligada.
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