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A fita das férias na Turquia

Aftersun, de Charlotte Wells, 2022, 102 minutos: a filha revê as férias com o pai pela fita de uma câmera de mão.

Pai e filha à beira de uma piscina de hotel, filmados por uma câmera de mão.

A piscina do hotel na fita de Sophie

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“Quando você tinha onze anos, o que achava que ia estar fazendo agora?”, pergunta Sophie ao pai, com a câmera apontada para ele, no quarto de um hotel barato da costa da Turquia. Calum pede para ela desligar. Ela não desliga. Ele fica um tempo calado, olhando para a lente, e não responde.

A pergunta está em Aftersun, primeiro longa da diretora escocesa Charlotte Wells, lançado em 2022, com 102 minutos. Sophie tem onze anos, Calum vai fazer 31 durante a viagem, e os dois passam alguns dias num resort de piscina azul e quartos com reforma pela metade, no fim dos anos 1990.

A câmera é uma filmadora de fita MiniDV, das que cabiam na mão e gravavam com a data no canto. Sophie filma tudo: o pai passando protetor solar, o garçom da piscina, a cama de solteiro encostada na parede porque a de casal não chegou.

Wells intercala essas imagens granuladas com o filme propriamente dito, fotografado por Gregory Oke em película de cor quente. As duas texturas se alternam sem aviso, e o espectador aprende aos poucos a separar o olho da menina do olho da diretora.

Há uma terceira camada, mais escura. Em cortes rápidos, uma pista de dança iluminada por luz estroboscópica mostra Calum dançando sozinho e uma mulher adulta tentando alcançá-lo no meio da multidão. A mulher é Sophie, agora com trinta e poucos anos.

Em casa, a Sophie adulta assiste à fita na televisão da sala, enquanto a companheira e um bebê dormem no quarto ao lado. Ela tem a idade do pai naquelas férias e procura no vídeo o que aos onze anos não conseguia ler.

O filme quase não explica nada. Calum tem o braço engessado e não conta como quebrou. Faz tai chi de madrugada na varanda. Diz à filha que pode conversar com ele sobre qualquer assunto, inclusive sobre drogas, e muda de tom no meio da frase.

Sophie, por sua vez, está na idade de olhar os adolescentes do resort e querer estar entre eles. Passa horas no fliperama, mergulha na piscina com um menino escocês e volta para o quarto com perguntas que o pai prefere desviar.

O Programa de Hoje começa no palco do karaokê do hotel, onde a filha chama o pai para cantar com ela.

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I  O Programa de Hoje

A música do karaokê

Hoje a tela recebe Aftersun, drama britânico escrito e dirigido por Charlotte Wells, lançado em 2022, com 102 minutos. Começa às 20h30 e os créditos sobem às 22h12.

Calum é vivido por Paul Mescal, ator irlandês então com 26 anos. Sophie é Frankie Corio, escocesa de Glasgow escolhida num teste aberto entre centenas de crianças, sem experiência anterior em cinema. A Sophie adulta é Celia Rowlson-Hall, quase sem falas.

No karaokê, Sophie se inscreve para cantar Losing My Religion, do R.E.M., e conta com o pai ao lado. Calum recusa. Ela sobe sozinha, desafina, a voz falha no refrão, e ele assiste da mesa sem se levantar.

Depois, a filha diz que não quer mais falar com ele naquela noite. Calum sai andando para a praia, entra no mar escuro e nada para longe da areia até sumir do enquadramento. Wells não corta para mostrar a volta.

O aniversário de 31

Na manhã seguinte, Calum está de pé como se nada tivesse acontecido. O dia é o aniversário dele, e Sophie arma uma surpresa: convence um grupo de turistas a cantar parabéns para o pai, de pé no restaurante.

A câmera fica no rosto de Mescal. Ele sorri, agradece, e o sorriso não chega aos olhos. Mais tarde, num dos planos mais lembrados do filme, Calum aparece sentado na cama, de costas, chorando sem som.

Wells deixa a tristeza do pai fora do campo de visão da filha: o espectador vê o que Sophie não via, e é ali que o filme dói.

Há outros sinais espalhados. Calum compra um tapete turco caro demais para quem divide quarto de solteiro com a filha, e diz que vai pendurá-lo no apartamento novo. Num passeio de barco, perde a máscara de mergulho e fica mais irritado do que a perda pede.

Na lama de um balneário, pai e filha se cobrem de barro cinza e posam para a foto de outros turistas. Num ônibus de excursão, Sophie dorme no ombro dele. Os momentos felizes são tão concretos quanto os escuros, e Wells não escolhe entre eles.

“Todas as fotografias são memento mori. Tirar uma fotografia é participar da mortalidade, da vulnerabilidade, da mutabilidade de outra pessoa.” (Susan Sontag, Sobre a fotografia, 1977)

A fita de Sophie trabalha nesse sentido. Cada imagem do pai sorrindo na piscina guarda, para quem a revê vinte anos depois, a pergunta sobre o que ele sentia no minuto seguinte, já sem a câmera ligada.

 
 

II  Se a Noite Pedir Outra Coisa

Pais e filhas na estrada

Se a noite pedir outra coisa, dois filmes contam a mesma relação de pai e filha, num quarto de hotel e numa floresta, com o mesmo cuidado de deixar o silêncio falar.

A primeira é Um Lugar Qualquer (Somewhere), de Sofia Coppola, 2010, com 97 minutos. Começa às 20h30 e termina às 22h07.

Johnny Marco, vivido por Stephen Dorff, é um ator de Hollywood que mora no hotel Chateau Marmont, em Los Angeles, e passa os dias entre festas, fisioterapia e uma Ferrari preta dando voltas num circuito vazio.

A ex-mulher deixa com ele a filha Cleo, de onze anos, interpretada por Elle Fanning. Os dois jogam videogame, vão a uma premiação na Itália e tomam café da manhã à beira da piscina, até ele perceber o tamanho do vazio em volta.

O filme ganhou o Leão de Ouro do Festival de Veneza em 2010. Coppola filma em planos longos e parados, com a câmera esperando o ator terminar o gesto antes de cortar.

Um Lugar Qualquer mostra o pai descobrindo a filha; Aftersun mostra a filha, adulta, descobrindo o pai.

A segunda saída é Sem Rastros (Leave No Trace), de Debra Granik, 2018, com 109 minutos. Começa às 20h30 e termina às 22h19.

Will, veterano de guerra vivido por Ben Foster, mora escondido com a filha adolescente Tom, papel de Thomasin McKenzie, num parque florestal perto de Portland, no estado americano do Oregon. Os dois cozinham no fogareiro, coletam água da chuva e treinam para não serem vistos.

Quando a polícia encontra o acampamento, pai e filha são levados para uma casa com emprego e escola. Tom começa a gostar da vida com vizinhos. Will não aguenta paredes.

Granik adaptou o livro My Abandonment, de Peter Rock, publicado em 2009. O filme tem notas altíssimas da crítica e quase nenhuma cena de violência: a tensão vem do que cada um precisa para continuar de pé.

A ponte com Aftersun está na filha que entende o pai antes de ter palavras para ele, e no pai que ama a filha sem conseguir se explicar.

Para escolher: quem quer o hotel de luxo e o humor seco vai de Um Lugar Qualquer; quem quer a mata, o frio e uma despedida difícil vai de Sem Rastros.

 

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III  Sai do Catálogo

A porta do corredor

Aftersun estreou no Brasil pela plataforma MUBI e costuma ficar no catálogo dela. Busque pelo título original, que não foi traduzido, e confira Charlotte Wells e 2022 antes de começar.

Wells nasceu em 1987 em Edimburgo e estudou cinema na Universidade de Nova York, onde fez três curtas antes do longa. Contou em entrevistas que o filme é autobiográfico na emoção, não nos fatos: ela também viajou com o pai quando criança e guarda as fotos daquelas férias.

O filme foi rodado em Ölüdeniz, no litoral sudoeste da Turquia, em cerca de um mês, com orçamento pequeno e a produção de Barry Jenkins, diretor de Moonlight.

A carreira do filme

Aftersun estreou na Semana da Crítica do Festival de Cannes de 2022, mostra paralela dedicada a estreantes, e saiu de lá com o prêmio French Touch do júri. Nos Estados Unidos, foi distribuído pela A24.

Em 2023, Paul Mescal foi indicado ao Oscar de melhor ator, a única indicação do filme. Charlotte Wells levou o BAFTA de estreia britânica mais notável, e a trilha de Oliver Coates ganhou destaque nos prêmios de cinema independente.

A cena mais citada fica perto do fim. Na pista do resort, toca Under Pressure, de Queen e David Bowie. Calum puxa Sophie para dançar, ela resiste, ele insiste e os dois giram abraçados. Wells monta a dança junto com a rave escura, onde a Sophie adulta finalmente alcança o pai.

No aeroporto, Sophie se despede e passa pelo portão de embarque. Calum segura a câmera e filma a filha acenando. Depois desliga, vira as costas e caminha por um corredor branco até uma porta, que se abre para a pista de dança. Wells não diz o que houve com ele.

1. No começo, repare na data no canto da fita: ela marca o aniversário de Calum.

2. Na metade, preste atenção em quem fica sentado durante o karaokê.

3. No fim, compare o aceno de Sophie no aeroporto com o último olhar de Calum para a lente.

Às 20h30, 102 minutos de sol turco e uma fita revista com vinte anos de atraso.

Wells recusou o diagnóstico. Calum nunca ganha nome para a dor que carrega; fica a fita, o tapete pendurado na parede de alguém e a filha, adulta, apertando o play mais uma vez.

 
 
Quiz da edição

No karaokê do hotel, qual música Sophie escolhe para cantar sozinha depois que o pai recusa subir ao palco com ela?

AWonderwall, do Oasis
BLosing My Religion, do R.E.M.
CDon't Stop Believin', do Journey
DDancing Queen, do ABBA

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