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A galinha que foge e o menino com a câmera fotográfica
São 130 minutos: play às 20h30, ponto final às 22h40, e um narrador que atravessa vinte anos de um bairro do Rio sem largar a câmera.
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A galinha solta no beco e a câmera
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Buscapé solta a frase no beco da Cidade de Deus, parado entre a polícia de um lado e a quadrilha do outro, com a galinha fugida cacarejando no asfalto: se correr, o bicho pega; se ficar, o bicho come. A câmera dá uma volta inteira em torno do menino, o beco escurece, e o filme recua duas décadas, para o tempo em que aquelas ruas ainda eram casas novas de conjunto habitacional recém-entregue. Cidade de Deus estreou nos cinemas brasileiros em 30 de agosto de 2002, depois de uma exibição em Cannes em maio daquele ano. Fernando Meirelles dirige, Kátia Lund assina a codireção, e o roteiro de Bráulio Mantovani adapta o romance que Paulo Lins publicou em 1997, escrito a partir dos anos em que o próprio Lins morou no bairro. São 130 minutos que cabem numa frase: um menino cresce dentro de um conjunto habitacional da Zona Oeste do Rio enquanto o comércio de drogas se organiza em volta dele, e a máquina fotográfica que ele arruma por acaso vira o passaporte de saída. O endereço existe fora da tela. A Cidade de Deus foi inaugurada em 1966 como conjunto habitacional para receber famílias removidas de favelas da Zona Sul carioca, com casas alinhadas, ruas sem asfalto e nenhum posto de trabalho por perto. O filme começa exatamente ali, no bairro novo e vazio, e a degradação do lugar acontece diante do espectador em três blocos de tempo. A abertura vale o ingresso sozinha. Faca sendo amolada em pedra, samba em volume alto, cenoura picada, e uma galinha que entende o que vem depois e escapa correndo pela rua. A perseguição atravessa quarteirões, a ave cruza a linha entre os rapazes armados e a viatura, e o menino aparece no meio, com a câmera pendurada no pescoço. O programa de hoje tem três nomes que mandam no bairro em épocas diferentes, uma câmera que troca de dono duas vezes, um apartamento que vira ponto de venda, uma festa com música ao vivo e um rolo de filme revelado numa redação de jornal do centro da cidade. Continue lendo ↓ |
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I O Programa de Hoje
I, Cento e trinta minutos entre uma galinha e um beco fechado
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O programa de hoje é Cidade de Deus, disponível em serviço por assinatura e também por aluguel avulso nas lojas digitais, 130 minutos. Play às 20h30 e ponto final às 22h40. Direção de Fernando Meirelles, codireção de Kátia Lund, produção brasileira de 2002, em português.
Alexandre Rodrigues faz Buscapé, o narrador, garoto que quer ser fotógrafo e não quer entrar no crime. Leandro Firmino faz Zé Pequeno, que cresce no bairro sob o apelido de Dadinho. Phellipe Haagensen faz Bené, sócio e freio de Zé Pequeno. Seu Jorge faz Mané Galinha, cobrador de ônibus que só pega em arma depois de perder tudo o que tinha. Matheus Nachtergaele faz Sandro Cenoura, dono do outro ponto de venda do bairro, e Alice Braga faz Angélica.
O filme se organiza em três tempos. Nos anos 1960, o Trio Ternura assalta um caminhão de gás e reparte a carga com os moradores. Nos anos 1970, o comércio de maconha se instala nos apartamentos e Dadinho vira Zé Pequeno. Nos anos 1980, a disputa pelos pontos de venda coloca o bairro inteiro em campo aberto.
A estrutura empresta forma de crônica: cada bloco ganha um capítulo com título na tela, como "A história do apartamento" e "A história do Mané Galinha", e o narrador volta atrás quando precisa explicar de onde veio cada personagem.
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A virada acontece com uma máquina fotográfica. Buscapé ganha acesso a uma câmera por vias tortas, fotografa os rapazes armados posando na laje e leva o filme a um jornal do centro do Rio achando que vai ser cobrado pela ousadia. A foto sai na capa, e o menino que passou a infância fugindo dos dois lados descobre um terceiro caminho para fora do bairro.
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Bené é o personagem que sustenta o equilíbrio. Ele acalma Zé Pequeno, negocia com Cenoura e planeja largar o comércio para morar na praia com Angélica. A festa de despedida dele, com música ao vivo e o bairro inteiro dentro do salão, é o ponto em que o filme muda de temperatura.
Mané Galinha entra tarde e muda o jogo. Cobrador de ônibus e jogador do time local, ele é arrastado para a guerra por uma humilhação pessoal e vira o rosto do lado contrário ao de Zé Pequeno, e o conflito passa a puxar para dentro quem nunca tinha entrado nele.
A montagem de Daniel Rezende e a fotografia de César Charlone fazem o resto, e a cor esquenta de década em década, do amarelo poeirento dos anos 1960 ao azul duro da noite dos anos 1980. Boa parte do elenco saiu de oficinas de formação montadas para o projeto, com moradores de comunidades do Rio sem experiência anterior em cinema, e o resultado aparece na fala: nenhum personagem soa lido.
O desfecho entrega o que a abertura prometeu. O cerco se fecha no beco da primeira cena, Buscapé fotografa o que acontece ali com o rolo que sobrou e escolhe entre duas imagens: a que denuncia policiais recebendo dinheiro e a que lhe garante emprego na redação. Ele publica a segunda e vira estagiário do jornal. Na última cena, um grupo de meninos de dez ou doze anos desce a rua montando a própria lista de quem vai mandar no bairro, e o ciclo recomeça sem uma linha de explicação.
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II Se a Noite Pedir Outra Coisa
II, Uma carta escrita na estação ou um capitão que não dorme
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Nem toda mesa aceita tiroteio em beco fechado às nove da noite. As duas saídas de hoje ficam no mesmo Rio de Janeiro por caminhos diferentes: uma troca a guerra pelo afeto e pega a estrada, a outra mantém a tensão e muda o ponto de vista para dentro da farda.
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Se a noite pedir o Brasil sem tiro, o programa é Central do Brasil, disponível em serviço por assinatura, 110 minutos. Play às 20h30 e ponto final às 22h20.
Walter Salles dirige em 1998 uma ex-professora que ganha a vida escrevendo cartas para analfabetos numa mesa da estação Central do Brasil, no centro do Rio, e joga fora metade do que escreve. Fernanda Montenegro faz Dora, e Vinícius de Oliveira faz Josué, o menino de nove anos que perde a mãe na porta da estação e insiste em procurar um pai que nunca viu no interior do Nordeste.
A ponte com o programa principal está no adulto que decide o destino de uma criança. Buscapé escapa porque encontra um ofício; Josué escapa porque uma desconhecida muda de ideia no meio do caminho. Os dois filmes apostam que o encontro certo, na hora certa, vale mais que qualquer discurso sobre destino.
Se a noite pedir a mesma cidade pelo lado da polícia, o programa é Tropa de Elite, disponível em serviço por assinatura e por aluguel avulso, 115 minutos. Play às 20h30 e ponto final às 22h25.
José Padilha dirige em 2007 um capitão do Batalhão de Operações Especiais que procura um substituto para largar o posto antes do nascimento do filho. Wagner Moura faz o capitão Nascimento, narrador insone e nada confiável, e Caio Junqueira e André Ramiro fazem os dois aspirantes que disputam a vaga. O roteiro nasceu do livro que Luiz Eduardo Soares escreveu com dois ex-oficiais do batalhão.
Regra de bolso para a noite: se a mesa quer chorar e sair melhor do que entrou, vá de Central do Brasil, que tem estrada, música de Antônio Pinto e a atuação que levou Fernanda Montenegro à indicação ao Oscar em 1999. Se a casa aguenta tensão alta e gosta de narrador que se explica demais, Tropa de Elite dá a mesma cidade de Cidade de Deus vista de dentro da viatura.
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