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A marmita trocada e os bilhetes entre dois estranhos
São 104 minutos: play às 20h30, ponto final às 22h14, e uma entrega errada em Mumbai que vira correspondência diária.
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A marmita de quatro andares e o bilhete
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Saajan Fernandes recebe o substituto na mesa ao lado, no escritório de seguros do centro de Mumbai, e resume o ofício de trinta e cinco anos numa frase seca: "Aqui a gente conta pastas, não conta pessoas." O rapaz sorri como quem não entendeu, senta, e o velho contador volta para a pilha de formulários sem dizer mais nada até a hora do almoço. O filme se chama Lunchbox, estreou em 2013 e tem direção e roteiro de Ritesh Batra, que antes fazia documentários curtos e entrou na ficção com este primeiro longa. A produção é indiana, falada em híndi e em inglês, e passou pela Semana da Crítica do Festival de Cannes em maio daquele ano, onde levou o Grand Rail d'Or, o prêmio do público da mostra. O ponto de partida é um serviço real de entrega. Em Mumbai, milhares de trabalhadores conhecidos como dabbawalas (os homens da marmita) recolhem o almoço quente na casa de cada cliente pela manhã, levam de bicicleta e de trem até o escritório, e devolvem a lata vazia à tarde. Uma reportagem da revista Forbes, em 1998, foi quem tornou o sistema famoso fora da Índia ao medir a taxa de acerto das entregas. A história inteira depende de uma dessas latas ir parar no endereço errado. Uma dona de casa cozinha para reconquistar a atenção do marido; a marmita chega a um viúvo prestes a se aposentar, que come tudo e devolve a lata raspada. No dia seguinte ela põe um bilhete dentro. A troca vira rotina. Dois desconhecidos passam a escrever um ao outro dentro de um recipiente de alumínio de quatro andares, e cada um conta ao outro o que não consegue dizer a ninguém da própria casa nem do próprio escritório. O programa de hoje tem um contador que almoça sozinho há anos, uma vizinha que nunca aparece na tela, um aprendiz insistente demais, um trem lotado às seis da tarde e uma passagem para uma cidade a duzentos quilômetros dali. Continue lendo ↓ |
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I O Programa de Hoje
I, Cento e quatro minutos entre uma entrega errada e um bilhete dobrado
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O programa de hoje é Lunchbox, disponível em serviço por assinatura e também por aluguel avulso nas lojas digitais, 104 minutos. Play às 20h30 e ponto final às 22h14. Direção e roteiro de Ritesh Batra, produção indiana de 2013, falada em híndi e em inglês.
Irrfan Khan faz Saajan Fernandes, contador de uma companhia de seguros que perdeu a esposa e conta os meses que faltam para a aposentadoria. Nimrat Kaur faz Ila, dona de casa que cozinha num apartamento apertado enquanto o marido chega tarde e come sem levantar os olhos do celular. Nawazuddin Siddiqui faz Shaikh, o órfão contratado para assumir a cadeira de Saajan. Bharati Achrekar faz a vizinha do andar de cima, chamada só de tia, que conversa com Ila pela janela da cozinha e nunca aparece em cena.
O enredo se arma em três movimentos. No primeiro, Ila capricha no almoço seguindo a receita que a vizinha grita da janela, e a marmita some do caminho combinado. No segundo, ela descobre que o homem que come a comida dela não é o marido, e decide continuar cozinhando para o desconhecido. No terceiro, os dois passam a marcar o que vão fazer com a própria vida dentro de bilhetes de meia página.
A correspondência funciona porque nenhum dos dois pede foto, telefone ou endereço. Saajan escreve sobre a vizinhança que mudou; Ila escreve sobre a filha e sobre o pai doente na casa da mãe.
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A virada chega pelo cheiro. Ila descobre um perfume que não é o dela na roupa do marido, escreve isso no bilhete do dia, e Saajan responde contando que também já foi um homem que chegava em casa sem reparar em nada. Pela primeira vez em anos, o contador pede um segundo prato e passa a comprar cigarro na esquina só para ter com quem falar no caminho.
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Shaikh é o contrapeso cômico. Ele cozinha no trem lotado para ganhar tempo, mente sobre a própria formação, insiste em chamar Saajan de irmão e convida o chefe para o casamento que organizou sozinho, sem família por perto.
A tia da janela sustenta a outra ponta. Ela cuida do marido acamado, manda temperos para baixo numa cesta e devolve conselhos sem nunca descer um andar, e o filme a mantém como voz, sem mostrar o rosto dela.
A fotografia de Michael Simmonds filma Mumbai pelos lugares de passagem: vagões de trem, corredores de repartição, escadas de prédio. A leitura de cada bilhete acontece em voz alta por quem escreveu, não por quem recebeu, o que deixa as duas solidões em cena ao mesmo tempo.
O desfecho fica deliberadamente aberto, e é justo dizer com todas as letras o que não se resolve. Os dois marcam um encontro num restaurante do centro; Saajan chega, vê Ila de longe, se acha velho demais e vai embora sem falar com ela. Ele pede transferência para Nashik, cidade a cerca de duzentos quilômetros de Mumbai, e ela decide juntar as economias para levar a filha ao Butão. Nos minutos finais, Saajan volta atrás e entra num vagão com os dabbawalas para procurar o prédio dela. A câmera fica no trem e o filme termina ali: se o encontro acontece, Ritesh Batra não mostra, e manteve a escolha nas entrevistas do lançamento.
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II Se a Noite Pedir Outra Coisa
II, Uma cozinha em Istambul ou um doce de feijão em Tóquio
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Nem toda mesa aceita duas horas de silêncio e bilhete dobrado às nove da noite. As duas saídas de hoje mantêm a comida no centro da história e mudam o continente: uma troca a marmita pelo tempero da infância, a outra troca a correspondência por um balcão de doces e uma receita feita de madrugada.
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Se a noite pedir memória e cozinha, o programa é Tempero da Vida, disponível em serviço por assinatura, 108 minutos. Play às 20h30 e ponto final às 22h18.
Tassos Boulmetis dirige em 2003 a história de um menino grego nascido em Istambul, criado dentro da loja de especiarias do avô e expulso da cidade com a família na crise diplomática entre Grécia e Turquia de 1964. Georges Corraface faz o protagonista adulto, professor de astrofísica em Atenas que cozinha melhor do que ensina, e Tassos Bandis faz o avô que explica canela e pimenta como quem explica planetas.
A ponte com o programa principal está na comida como recado. Ila escreve com sal e pimenta o que não diz ao marido; o menino grego aprende que cada tempero carrega um aviso sobre gente.
Se a noite pedir gentileza e ritmo lento, o programa é As Delícias de Tóquio, disponível em serviço por assinatura e por aluguel avulso, 113 minutos. Play às 20h30 e ponto final às 22h23.
Naomi Kawase dirige em 2015 o dono de uma barraca de dorayaki (o doce japonês de duas panquecas com recheio de feijão vermelho) que contrata uma senhora de setenta e seis anos por causa da pasta de feijão que ela prepara desde a juventude. Kirin Kiki faz Tokue, Masatoshi Nagase faz o cozinheiro calado e Kyara Uchida faz a estudante que passa as tardes na barraca. O roteiro adapta o romance de Durian Sukegawa de 2013, e a segunda metade trata do preconceito que a personagem enfrentou por ter sido internada num sanatório.
Regra de bolso para a noite: se a mesa quer chorar de saudade e sair com fome, vá de Tempero da Vida, que tem trilha de Evanthia Reboutsika e uma cozinha reconstruída em estúdio. Se a casa prefere ritmo baixo, plano longo e um final que consola de verdade, As Delícias de Tóquio entrega em 113 minutos o que Lunchbox deixa em suspenso.
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