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Se a noite pedir outra coisa, dois filmes ficam na mesma região do mapa e no mesmo tipo de olhar: cinema africano que trata a política pelo cotidiano.
A primeira é Bamako, também de Abderrahmane Sissako, 2006, com 115 minutos. Começa às 20h30 e termina às 22h25.
Sissako nasceu em 1961 em Kiffa, na Mauritânia, cresceu no Mali e estudou cinema em Moscou. Bamako se passa no bairro onde o pai dele morava, e a casa do filme é a casa da família.
O filme monta um tribunal no pátio de uma casa de Bamako, a capital do Mali. No banco dos réus estão o Banco Mundial e o Fundo Monetário Internacional, acusados por moradores, advogados e professores de afundar o país em dívida.
Em volta do julgamento, a vida do pátio segue. Mulheres tingem tecido, um casamento acontece no portão, e a cantora Melé atravessa a cena enquanto o marido dela, desempregado, ouve o processo pelo rádio.
O assunto é a dívida externa, mas a câmera sempre volta ao pátio: a água do poço falta, a luz elétrica cai, e cada depoimento ganha o peso dessas faltas pequenas.
As testemunhas falam direto para a câmera, muitas delas sem ser atores. Danny Glover, ator americano e produtor do filme, aparece num faroeste de mentira exibido numa televisão da casa.
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Bamako julga a economia em voz alta; Timbuktu mostra a lei de fora pelos olhos de quem fica calado.
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A segunda saída é Yeelen (a luz, em bambara, a língua mais falada do Mali), de Souleymane Cissé, 1987, com 105 minutos. Começa às 20h30 e termina às 22h15.
Yeelen conta uma lenda do povo bambara. Nianankoro, um jovem com poderes mágicos, foge do próprio pai, um feiticeiro que quer matá-lo para guardar sozinho o saber da família.
A viagem atravessa o Sahel (a faixa seca ao sul do Saara) em paisagens de luz branca, com poucos diálogos e longos planos fixos. Cissé filmou com atores não profissionais e falas em bambara.
Yeelen ganhou o Prêmio do Júri do Festival de Cannes em 1987, a primeira vez que um filme da África ao sul do Saara levou um prêmio da competição principal.
A ponte com Timbuktu está no tempo das cenas: os três filmes deixam o plano correr, confiam no silêncio e põem o espectador para olhar a areia antes de entender a história.
Para escolher: quem quer o Mali de hoje em discussão vai de Bamako; quem quer o Mali das lendas, séculos distante da ocupação, vai de Yeelen.
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