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A partida sem bola nas areias de Timbuktu

Timbuktu, de Abderrahmane Sissako, 2014, 97 minutos: uma cidade do Mali ocupada, vista por quem resiste calado.

Meninos num campo de terra comemorando um gol sem bola, ao entardecer.

O gol sem bola no campo de terra

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Numa rua de areia de Timbuktu, o homem do megafone, de pé na caçamba de uma picape, repete a ordem da polícia islâmica: “Estão proibidos a música, o cigarro e o futebol. As mulheres cobrem as mãos com luvas.” Ninguém responde. As portas continuam fechadas.

A cena está em Timbuktu, filme de 2014 do diretor mauritano Abderrahmane Sissako, com 97 minutos. A cidade do norte do Mali foi tomada em 2012 por grupos jihadistas (militantes que impõem pela arma uma versão radical do islã), entre eles o Ansar Dine, e a lista de proibições do filme saiu da vida real.

Sissako mostra a ocupação pelos detalhes miúdos. Um militante grava um vídeo de propaganda e trava diante da câmera, sem acreditar no próprio texto. Dois outros discutem futebol europeu e citam Zinedine Zidane e Lionel Messi pelo nome, enquanto a patrulha prende quem chuta uma bola na rua.

Num campo de terra, os meninos da cidade respondem. Um time entra de uniforme, divide as posições e começa a partida. Não há bola. O atacante dribla o vazio, o goleiro salta para um canto, o chute imaginário entra e o time inteiro corre para comemorar o gol.

Uma moto da patrulha passa pela beira do campo. Os garotos param de correr e viram ginastas: braços abertos, polichinelos, alongamento. A moto some na poeira, e o jogo volta do ponto onde parou.

A sequência não tem uma palavra de diálogo. Sissako filma de longe, com a música do compositor tunisiano Amine Bouhafa por cima, e deixa o espectador completar a bola com os olhos.

O jogo inteiro acontece sem que nenhuma regra seja quebrada no papel: proibida está a bola, e bola não há. Os meninos acharam a brecha da lei e correm dentro dela.

Fora da cidade, nas dunas, a ocupação chega mais devagar. Ali vive Kidane, criador de gado tuaregue (povo nômade do Saara), com a mulher, a filha e um pequeno rebanho.

O Programa de Hoje começa na tenda de Kidane, onde ainda se toca violão à noite.

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I  O Programa de Hoje

A vaca chamada GPS

Hoje a tela recebe Timbuktu, drama franco-mauritano escrito e dirigido por Abderrahmane Sissako, lançado em 2014, com 97 minutos. Começa às 20h30 e os créditos sobem às 22h07.

Kidane, vivido por Ibrahim Ahmed, mora numa tenda com a mulher, Satima (Toulou Kiki), a filha Toya, ainda menina, e Issan, garoto pastor que cuida das vacas da família. À noite, Kidane pega o violão e canta para as duas.

A vaca preferida de Toya se chama GPS. Issan leva o gado para beber no rio Níger, GPS escapa e se enrosca nas redes de Amadou, pescador que vive na margem. Amadou mata o animal com uma lança.

Kidane vai tirar satisfação com uma pistola no bolso. Os dois se atracam dentro da água, a arma dispara e Amadou cai no rio. Sissako fecha a sequência num plano aberto e longo: Kidane atravessa o rio raso, e o corpo fica para trás, imóvel na margem.

O tribunal dos ocupantes

Kidane é levado ao tribunal dos militantes, que julga pela sharia (a lei religiosa islâmica) na leitura deles. O juiz fala árabe, Kidane fala tamaxeque (a língua dos tuaregues), e um intérprete passa cada frase de um lado para o outro.

O juiz oferece uma saída: a família de Amadou pode perdoar o crime em troca de 40 cabeças de gado. Kidane tem bem menos do que isso. Ele diz não temer o castigo; teme pela filha, que vai ficar sem pai nas dunas.

Sissako filma a violência com a câmera parada e sem música alta: o horror vem da voz calma de quem aplica a pena.

Na cidade, a mesma lei bate em outras portas. A vendedora de peixe do mercado recusa as luvas e estende as mãos para os militantes: diz que, se querem, podem cortá-las ali mesmo.

Fatou, cantora presa por fazer música em casa com amigos, leva 40 chibatadas pela música e outras 40 por estar numa sala com homens. Durante o castigo, ela chora e canta.

O imã (líder da oração) da grande mesquita barra os homens que entram armados e calçados no templo. Mais tarde, defende uma mãe obrigada a casar a filha com um dos militantes. Ele argumenta com o Corão na mão, e perde.

“O que sei de mais certo sobre a moral e as obrigações dos homens, devo ao futebol.” (Albert Camus, em texto para a revista do Racing Universitaire d’Alger, 1957)

O escritor franco-argelino foi goleiro na juventude. Os meninos de Timbuktu provam a frase ao contrário: tiraram deles a bola, e a moral do jogo continuou de pé no campo de terra.

 
 

II  Se a Noite Pedir Outra Coisa

Dois retratos do Mali e da Mauritânia

Se a noite pedir outra coisa, dois filmes ficam na mesma região do mapa e no mesmo tipo de olhar: cinema africano que trata a política pelo cotidiano.

A primeira é Bamako, também de Abderrahmane Sissako, 2006, com 115 minutos. Começa às 20h30 e termina às 22h25.

Sissako nasceu em 1961 em Kiffa, na Mauritânia, cresceu no Mali e estudou cinema em Moscou. Bamako se passa no bairro onde o pai dele morava, e a casa do filme é a casa da família.

O filme monta um tribunal no pátio de uma casa de Bamako, a capital do Mali. No banco dos réus estão o Banco Mundial e o Fundo Monetário Internacional, acusados por moradores, advogados e professores de afundar o país em dívida.

Em volta do julgamento, a vida do pátio segue. Mulheres tingem tecido, um casamento acontece no portão, e a cantora Melé atravessa a cena enquanto o marido dela, desempregado, ouve o processo pelo rádio.

O assunto é a dívida externa, mas a câmera sempre volta ao pátio: a água do poço falta, a luz elétrica cai, e cada depoimento ganha o peso dessas faltas pequenas.

As testemunhas falam direto para a câmera, muitas delas sem ser atores. Danny Glover, ator americano e produtor do filme, aparece num faroeste de mentira exibido numa televisão da casa.

Bamako julga a economia em voz alta; Timbuktu mostra a lei de fora pelos olhos de quem fica calado.

A segunda saída é Yeelen (a luz, em bambara, a língua mais falada do Mali), de Souleymane Cissé, 1987, com 105 minutos. Começa às 20h30 e termina às 22h15.

Yeelen conta uma lenda do povo bambara. Nianankoro, um jovem com poderes mágicos, foge do próprio pai, um feiticeiro que quer matá-lo para guardar sozinho o saber da família.

A viagem atravessa o Sahel (a faixa seca ao sul do Saara) em paisagens de luz branca, com poucos diálogos e longos planos fixos. Cissé filmou com atores não profissionais e falas em bambara.

Yeelen ganhou o Prêmio do Júri do Festival de Cannes em 1987, a primeira vez que um filme da África ao sul do Saara levou um prêmio da competição principal.

A ponte com Timbuktu está no tempo das cenas: os três filmes deixam o plano correr, confiam no silêncio e põem o espectador para olhar a areia antes de entender a história.

Para escolher: quem quer o Mali de hoje em discussão vai de Bamako; quem quer o Mali das lendas, séculos distante da ocupação, vai de Yeelen.

 

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III  Sai do Catálogo

O galope final pelas dunas

Timbuktu entra e sai dos catálogos de streaming no Brasil. Busque pelo título, que é o mesmo em português e em francês, e confira Abderrahmane Sissako e 2014 antes de começar; o título de trabalho era Le Chagrin des Oiseaux (a tristeza dos pássaros).

O filme não foi rodado em Timbuktu. A cidade ainda era insegura, e Sissako filmou em Oualata, cidade antiga do deserto da Mauritânia, com proteção do exército mauritano.

O ponto de partida foi um caso real. Em julho de 2012, em Aguelhok, no norte do Mali, um casal que vivia junto sem ser casado foi apedrejado em praça pública pelos ocupantes. Sissako contou em entrevistas que o pouco espaço dado ao caso pela imprensa o levou a escrever o roteiro com Kessen Tall.

A carreira do filme

Timbuktu estreou na competição do Festival de Cannes de 2014 e saiu de lá com o Prêmio do Júri Ecumênico. Em 2015, levou sete prêmios César, o Oscar do cinema francês, entre eles melhor filme, direção e trilha sonora, esta para Amine Bouhafa.

Foi também o primeiro filme da Mauritânia indicado ao Oscar de filme estrangeiro. A estatueta daquele ano ficou com o polonês Ida, de Paweł Pawlikowski.

O desfecho de Kidane se cumpre. O tribunal manda executá-lo numa clareira de areia, fora da cidade. Satima chega de garupa numa moto, corre na direção do marido, e os dois são fuzilados juntos.

Toya fica sozinha nas dunas. Sissako corta para ela correndo, para Issan correndo em outra direção e para uma gazela perseguida por um jipe dos militantes, imagem com a qual o filme tinha começado. Não há resposta sobre o destino da menina: a tela escurece com ela ainda em fuga.

1. No começo, repare no jipe atrás da gazela: a imagem volta no último minuto.

2. Na metade, preste atenção na partida sem bola e na moto que passa pela beira do campo.

3. No fim, compare a corrida de Toya com a da gazela.

Às 20h30, 97 minutos de deserto e uma cidade inteira resistindo sem levantar a voz.

Sissako recusou o discurso. Os ocupantes falam, julgam e anunciam pelo megafone; quem resiste canta, joga e corre, e quase nunca explica por quê.

 
 
Quiz da edição

No tribunal da sharia em Timbuktu, quantas cabeças de gado o juiz exige da família de Kidane para perdoar a morte de Amadou?

A10 cabeças
B100 cabeças
C40 cabeças
D4 cabeças

Veja o ranking de quem mais acerta →

 
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