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A Sonata do Homem Bom e a máquina de escrever escondida
São 137 minutos: play às 20h30, ponto final às 22h47, e um capitão da Stasi que ouve do sótão tudo o que acontece dois andares abaixo.
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O fone no sótão e o apartamento abaixo
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“Presumivelmente, relação sexual", dita o capitão Gerd Wiesler no sótão do prédio de Berlim Oriental onde mora o dramaturgo que ele vigia, com o fone num ouvido só e a máquina de escrever do relatório sobre os joelhos. Entre ele e o casal que acabou de apagar a luz existem dois andares, uma laje e um punhado de microfones enfiados na parede num único dia de trabalho. A Vida dos Outros estreou na Alemanha em 23 de março de 2006, escrito e dirigido por Florian Henckel von Donnersmarck no primeiro longa dele. São 137 minutos que cabem numa frase: um oficial da polícia política recebe ordem para vigiar um escritor leal ao regime, monta a escuta, sobe para o sótão e passa a ouvir uma vida mais interessante que a dele. O ano dentro do filme é 1984, cinco anos antes do muro cair. O Ministério da Segurança do Estado da Alemanha Oriental, apelidado de Stasi, mantinha oficiais de carreira e uma rede de colaboradores civis que relatavam conversa de vizinho, de colega e de parente. A lei alemã de arquivos da Stasi, em vigor desde janeiro de 1992, deu a cada cidadão o direito de pedir a própria pasta e ler quem escreveu o que sobre ele, e o último ato do filme depende inteiro dessa lei. A produção quis gravar na antiga prisão da Stasi em Hohenschönhausen, hoje memorial, e recebeu um não. Parte do interrogatório acabou filmada em outros endereços, e o museu instalado no antigo quartel-general da Normannenstraße emprestou equipamento de escuta original para as cenas do sótão. O programa de hoje tem um interrogatório gravado em fita e usado como aula, uma partitura chamada Sonata do Homem Bom, uma máquina de escrever vermelha guardada sob o batente da porta, um artigo publicado fora do país sem assinatura e um homem entregando correspondência de porta em porta muitos anos depois. Continue lendo ↓ |
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I O Programa de Hoje
I, Cento e trinta e sete minutos entre um sótão e uma máquina vermelha
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O programa de hoje é A Vida dos Outros, disponível em serviço por assinatura e também por aluguel avulso nas lojas digitais, 137 minutos. Play às 20h30 e ponto final às 22h47. Direção e roteiro de Florian Henckel von Donnersmarck, produção alemã de 2006, em alemão com legendas.
Ulrich Mühe faz o capitão Gerd Wiesler, professor de interrogatório na escola da Stasi e homem de apartamento vazio. Sebastian Koch faz Georg Dreyman, dramaturgo premiado que o regime ainda considera confiável. Martina Gedeck faz Christa-Maria Sieland, atriz e companheira de Dreyman. Ulrich Tukur faz Anton Grubitz, chefe e colega de turma de Wiesler, e Thomas Thieme faz o ministro Bruno Hempf.
A primeira cena mostra Wiesler em serviço. Ele quebra um preso pela privação de sono, e a fita do interrogatório vira material didático na aula que ele dá em seguida, com a voz do detido tocando para uma sala de alunos que anotam a técnica.
A ordem de vigiar Dreyman não nasce de suspeita política. O ministro Hempf quer a atriz para si e precisa do escritor fora do caminho, e Grubitz aceita a operação de olho na promoção. Wiesler recebe o apartamento vizinho ao sótão, instala microfones em cada cômodo em poucas horas e avisa a vizinha do andar de baixo que a filha perde a vaga na universidade se abrir a boca.
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A virada acontece com uma partitura. O diretor de teatro Albert Jerska, proibido de trabalhar havia anos, dá de presente a Dreyman uma peça para piano chamada Sonata do Homem Bom. Quando Dreyman a toca, Wiesler escuta pelo fone sozinho no sótão, e o oficial que dava aula sobre quebrar gente começa a mentir no relatório para proteger o homem que vigia.
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Dreyman decide escrever sobre um assunto proibido: a Alemanha Oriental parou de publicar a estatística de suicídios em 1977, e ele quer contar por quê. O texto sai sem assinatura numa revista do outro lado do muro, escrito numa máquina vermelha de marca Kolibri, contrabandeada e escondida sob o batente de uma porta do apartamento.
A Stasi identifica a máquina pelo tipo de letra e não encontra o aparelho. Christa-Maria, pressionada pelo ministro e dependente de remédio controlado que só consegue com autorização oficial, acaba dizendo onde o esconderijo fica.
Wiesler chega ao apartamento antes da equipe de busca. Ele retira a máquina do vão e some com ela, a revista no assoalho aparece vazia diante de Grubitz, e Christa-Maria, que acabara de entregar o marido, corre para a rua e é atingida por um caminhão sem que Dreyman saiba o que ela havia feito.
O castigo de Wiesler vem em forma de carimbo. Grubitz o transfere para o porão de vapor onde cartas interceptadas são abertas a ferro quente, e ele passa os vinte anos seguintes de carreira ali, sem promoção e sem explicação registrada em ata.
O fecho depende do arquivo aberto. Depois de 1989, Dreyman descobre a pasta da operação e lê, na letra de relatório oficial, quem o protegeu. Ele escreve um romance com o nome da partitura, e o antigo capitão, agora entregando correspondência de bicicleta, vê o livro na vitrine, abre a dedicatória com o código funcional dele impresso e diz ao vendedor que o exemplar é para ele mesmo.
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II Se a Noite Pedir Outra Coisa
II, Uma mãe que não pode saber do muro ou um grampo em São Francisco
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Nem toda mesa aceita interrogatório e fone de escuta às nove da noite. As duas saídas de hoje pegam a mesma vigilância por caminhos mais fáceis de acompanhar: uma troca o medo pela comédia e mantém Berlim, a outra mantém o profissional da escuta e muda de continente.
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Se a noite pedir a mesma cidade com o humor do outro lado, o programa é Adeus, Lênin!, disponível em serviço por assinatura, 121 minutos. Play às 20h30 e ponto final às 22h31.
Wolfgang Becker dirige em 2003 um rapaz de Berlim Oriental, vivido por Daniel Brühl, cuja mãe entra em coma às vésperas da queda do muro e acorda oito meses depois com o coração fragilizado. Katrin Sass faz a mãe, militante convicta do regime, e o filho reconstrói dentro do quarto dela uma Alemanha Oriental que já não existe, com potes de conserva recauchutados e telejornais falsos gravados por um amigo.
A ponte com o programa principal está na encenação como forma de cuidado. Wiesler falsifica relatório para salvar um homem que nunca conhecerá o salvador; o filho de Becker falsifica um país inteiro para poupar a mãe. Os dois filmes perguntam quanto de mentira uma pessoa merece receber em nome do próprio bem.
Se a noite pedir suspense com o ofício da escuta no centro, o programa é A Conversação, disponível por aluguel avulso nas lojas digitais, 113 minutos. Play às 20h30 e ponto final às 22h23.
Francis Ford Coppola dirige em 1974 um especialista em grampo que capta um diálogo num parque de São Francisco e passa o filme inteiro remontando a fita para entender o que acabou de ouvir. Gene Hackman faz Harry Caul, católico obsessivo e solitário, e John Cazale faz o assistente que não entende por que o chefe se recusa a entregar o material ao cliente.
Regra de bolso para a noite: se a mesa quer rir e chorar na mesma história e gosta de família, vá de Adeus, Lênin!. Se a casa prefere tensão baixa e crescente, com um homem trancado num galpão ouvindo a mesma frase trinta vezes, A Conversação entrega o ofício de Wiesler sem o uniforme.
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