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A tela quadrada de Mommy cabe num celular

Mommy, de Xavier Dolan, 2014, 139 minutos: em Montreal, uma viúva leva para casa o filho expulso do internato.

Rapaz de skate na rua, de braços abertos, com duas mulheres de bicicleta atrás.

Steve abre o quadro em cima do skate

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Na sala da diretora de um centro para adolescentes nos arredores de Montreal, Diane Després ouve a frase que vai carregar pelo filme inteiro: “Não é porque a gente ama alguém que consegue salvar essa pessoa.” Diane, viúva, assina os papéis de saída do filho de jaqueta jeans com franja, salto alto e chiclete na boca, e responde que vai dar conta sozinha.

A cena abre Mommy, quinto longa do canadense Xavier Dolan, lançado em 2014, com 139 minutos. Dolan tinha 25 anos. O filho é Steve, de 15, diagnosticado com TDAH (transtorno de déficit de atenção com hiperatividade), expulso depois de pôr fogo no refeitório e queimar um colega.

Antes da primeira imagem, um letreiro apresenta um Canadá inventado. Uma lei federal, a S-14, permite que pais em apuro financeiro ou emocional internem um filho num hospital público sem passar por juiz. A lei não existe. Dolan a escreveu para pendurar uma ameaça sobre a casa desde o primeiro minuto.

Depois vem a forma. A imagem de Mommy não ocupa a televisão: é um quadrado, com largura igual à altura e faixas pretas dos dois lados. A proporção é 1:1 (um por um), a mesma de uma capa de disco ou de uma foto quadrada tirada no celular.

O diretor de fotografia André Turpin filmou com esse recorte do primeiro ao último plano, quase sempre com um rosto só lá dentro. Não sobra espaço para paisagem, para o carro que passa, para quem está do lado. Diane, Steve e a vizinha Kyla ficam presos no centro, a um palmo da lente.

Quem assiste sente o aperto antes de entender de onde ele vem. Numa briga na cozinha, a mãe e o filho não cabem juntos no quadro, e a câmera precisa escolher um dos dois.

O quadrado não fica parado o filme todo. Duas vezes ele se abre, e cada abertura tem motivo dentro da história.

A primeira acontece numa rua do bairro, em cima de um skate, e a seção I começa por ela.

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I  O Programa de Hoje

Um empurrão nas bordas

Hoje a tela recebe Mommy, drama canadense escrito, dirigido e montado por Xavier Dolan, lançado em 2014, com 139 minutos. Começa às 20h30 e os créditos sobem às 22h49.

Diane, a Die, é Anne Dorval, atriz de Montreal que já tinha feito a mãe de Dolan na estreia dele como diretor. Steve é Antoine-Olivier Pilon, então com 17 anos. Kyla, a vizinha da frente, é Suzanne Clément.

Die mora numa casa geminada da periferia, sem emprego fixo, e leva Steve para dentro com uma mala e uma sacola de compras. Nos primeiros dias, ele xinga a mãe, abraça a mãe, rouba dinheiro, compra para ela um colar com a palavra Mommy gravada e explode quando ela pergunta de onde veio a grana.

Kyla é professora em licença. Gagueja tanto que quase não fala, e vive com o marido e a filha pequena do outro lado da rua. Depois de uma briga em que Steve aperta o pescoço da mãe e Die o acerta com um quadro da parede, a vizinha entra para ajudar e fica.

Ela começa a dar aulas ao menino na mesa da cozinha. Steve testa a professora, ela perde a paciência uma vez, derruba o garoto no chão, e dali em diante ele estuda. Com os três juntos, a gagueira de Kyla quase some.

Wonderwall

Perto da metade do filme, Steve desce a rua de skate, de braços abertos, com Die e Kyla de bicicleta atrás. Toca Wonderwall, da banda inglesa Oasis, de 1995. Ele estica as duas mãos para os lados da imagem e empurra.

As faixas pretas recuam. O quadro cresce até a proporção 1,85:1 (quase duas vezes mais largo do que alto), padrão das salas de cinema, e pela primeira vez aparece rua dos dois lados dos personagens.

O quadrado de Mommy se abre pelas mãos de Steve: o recorte apertado é a vida dele dentro de casa, e a tela larga é o dia em que tudo parece caber.

Dolan contou em entrevistas da época que queria o rosto como centro, sem nada em volta para distrair, e que o formato lembrava as capas dos discos que ouvia. A largura dura poucos minutos. Quando a casa volta a apertar, o quadrado volta junto, sem aviso.

A música entra inteira em várias cenas. Na cozinha, os três dançam On ne change pas, de Céline Dion, e o menino canta com a mãe. No karaokê do bairro, Steve pega o microfone para Vivo per lei, em italiano, e a noite acaba em briga com os vizinhos da mesa ao lado.

“Tudo é possível para quem sonha, ousa, trabalha e nunca desiste.” (Xavier Dolan, discurso no Festival de Cannes, 2014)

Dolan disse a frase no palco ao receber um prêmio pelo filme, e ela cabe na boca de Die, que tenta faxina, tradução e entrevista de emprego enquanto o filho ocupa a casa. A segunda abertura do quadro pertence a ela, e a seção III conta onde ela leva.

 
 

II  Se a Noite Pedir Outra Coisa

Mães sozinhas, casas cheias

Se a noite pedir outro clima, dois filmes mais curtos olham uma mãe que cria o filho sem ninguém do lado, um pelo mesmo diretor e outro pela Austrália.

O primeiro é Eu Matei Minha Mãe (J'ai tué ma mère), de Xavier Dolan, 2009, com 96 minutos. Começa às 20h30 e termina às 22h06.

Dolan escreveu o roteiro aos 16 anos e filmou aos 19. Ele mesmo faz Hubert, adolescente de Montreal que divide o apartamento com a mãe, Chantale, vivida pela mesma Anne Dorval de Mommy. Os dois brigam pelo jantar, pela música alta, pelo jeito de mastigar.

Hubert namora Antonin e esconde da mãe. Chantale descobre por acaso, numa conversa com a mãe do rapaz, e decide mandar o filho para um internato no interior. O filme estreou na Quinzena dos Realizadores (mostra paralela) do Festival de Cannes de 2009 e saiu de lá com três prêmios.

No fim, Hubert foge com Antonin para a casa onde passou a infância, à beira de um rio. Chantale vai atrás e senta ao lado do filho, em silêncio, de frente para a água.

Nos três filmes desta edição, a mãe cria o filho sozinha, e o perigo mora dentro da própria casa.

O segundo é O Babadook (The Babadook), da australiana Jennifer Kent, 2014, com 94 minutos. Começa às 20h30 e termina às 22h04.

Amelia, vivida por Essie Davis, ficou viúva na noite do parto: o marido bateu o carro levando a mulher ao hospital. Seis anos depois, o filho Samuel, papel de Noah Wiseman, constrói armas de madeira contra monstros e não deixa a mãe dormir.

Um livro infantil de dobradura aparece na estante, com uma figura de cartola chamada Mister Babadook. Amelia rasga o livro, e ele volta à porta remendado, com páginas novas. O medo da criança passa para a mãe, e a casa escurece.

No desfecho, Amelia enfrenta a criatura e a tranca no porão, onde passa a alimentá-la com minhocas numa tigela. Samuel ganha a primeira festa de aniversário da vida dele.

A ponte com Mommy está na viúva que carrega o luto e o filho difícil sem plateia, e na casa que vira o campo de batalha.

Para escolher: quem quer o mesmo diretor, mais jovem e mais cru, vai de Eu Matei Minha Mãe; quem quer terror e uma criatura de cartola vai de O Babadook.

 

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III  Sai do Catálogo

A janela do corredor

Mommy troca de plataforma de streaming no Brasil com frequência. Busque pelo título, que é o mesmo do original, e confira Xavier Dolan e 2014 antes de apertar o play.

Os personagens falam joual (o francês popular de Montreal, cheio de gírias e de palavras do inglês). Na França, o filme estreou com legenda em francês padrão, para o público europeu entender as brigas da cozinha.

Cannes e Paris

Mommy disputou a Palma de Ouro em Cannes, em 2014, e dividiu o Prêmio do Júri com Adeus à Linguagem, de Jean-Luc Godard, então com 83 anos. O júri presidido pela neozelandesa Jane Campion juntou no mesmo prêmio o diretor mais novo e o mais velho da competição. Em 2015, o filme ganhou o César (prêmio do cinema francês) de melhor filme estrangeiro.

Na trama, a família do colega queimado processa Die e pede uma indenização que ela não tem como pagar. Ela pede ajuda a Paul, um advogado vizinho que a corteja. No bar de karaokê, Steve ataca Paul, e a ajuda some. Dias depois, o menino corta os pulsos dentro de um supermercado e sobrevive.

A segunda abertura do quadro vem num carro. Die dirige com Steve e Kyla, e a imagem se alarga para mostrar o futuro que ela imagina: o filho formado, aceito na faculdade, casando, um neto no colo. A sequência toca Experience, do pianista italiano Ludovico Einaudi.

O quadro se fecha de novo, e o carro para no estacionamento de um hospital público. Die usou a S-14. Enfermeiros dominam Steve com uma arma de choque e uma camisa de força, e ela chora no volante.

Kyla visita Die para avisar que vai se mudar para Toronto com o marido. Die sorri e diz que está cheia de esperança. Kyla vai embora sem conseguir responder.

Na última cena, um funcionário solta as amarras de Steve no hospital. Ele corre pelo corredor até uma janela grande de vidro, ao som de uma canção de Lana Del Rey. A imagem continua quadrada, e o filme corta antes de ele chegar ao vidro. Dolan não mostra se Steve quebra a janela, foge ou para, e o desfecho dele fica fora da tela.

1. No começo, repare no colar com a palavra Mommy: ele volta na cena do supermercado.

2. Na metade, conte as faixas pretas dos lados: somem com Oasis e voltam sem aviso.

3. No fim, olhe a janela do corredor: o quadrado não se abre mais.

Às 20h30, 139 minutos de Montreal dentro de um quadrado e uma mãe sem plano B.

O quadro de Mommy se abre duas vezes. Na primeira, pelas mãos do filho, sobre um skate; na segunda, pela imaginação da mãe, ao volante do carro que leva o menino para o hospital.

 
 
Quiz da edição

Qual música toca na cena em que Steve desce a rua de skate com os braços abertos e empurra as bordas da tela quadrada até ela abrir?

A"Vivo per lei", cantada no karaokê do bairro
B"On ne change pas", de Céline Dion, dançada na cozinha
C"Wonderwall", do Oasis
DA trilha original composta por Xavier Dolan só para essa cena

Veja o ranking de quem mais acerta →

 
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