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A voz de Carlitos aparece cantando palavras que não existem

São 87 minutos: play às 20h30, ponto final às 21h57, e um filme quase mudo estreado quando o cinema já falava havia oito anos.

Engrenagens gigantes de uma fábrica em preto e branco, com um operário de macacão carregado entre os dentes das rodas.

Engrenagens da fábrica com o operário preso entre elas

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“Seção cinco, acelere a produção", manda o presidente da Electro Steel pela tela que se acende no banheiro da fábrica, bem quando o operário acendia meio cigarro. Quem obedece é o homem de bigode, chapéu-coco e macacão, que aperta dois parafusos por segundo na esteira e continua apertando o ar depois que a esteira para.

Em 1936 o cinema falado já tinha oito anos de estrada e nenhuma sala grande dos Estados Unidos vivia sem alto-falante. Charles Chaplin entregou assim mesmo um filme quase inteiro sem diálogo: cartelas escritas para o que precisa ser lido, trilha composta por ele, e voz humana só onde sai de um aparelho, do rádio, do gramofone, da tela do presidente.

A escolha tem lógica interna. Toda voz que se ouve em Tempos Modernos vem de máquina, e as pessoas de carne e osso seguem mudas o tempo todo. O vendedor da máquina de almoço não abre a boca, porque quem apresenta o produto por ele é um disco de gramofone. O chefe nunca desce até o chão de fábrica, aparece numa tela.

A regra se quebra uma vez só, nos últimos minutos, e de um jeito que ninguém esperava. Carlitos precisa cantar num café, esquece a letra e canta mesmo assim, com palavras inventadas que não pertencem a língua nenhuma. A primeira vez que o público ouviu a voz do personagem mais conhecido do mundo, ela não disse nada compreensível.

A estreia tem endereço no calendário. Tempos Modernos chegou às salas em 5 de fevereiro de 1936, em Nova York, sete anos depois da quebra da bolsa, com fila de desempregado ainda na rua e piquete em porta de fábrica.

O programa de hoje tem uma esteira de parafusos, um aparelho que serve almoço sozinho, um caminhão com bandeira vermelha, uma loja de departamentos atravessada de patins e olhos vendados, um punho de camisa que voa pelo salão e uma canção francesa cantada errado de propósito.

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I  O Programa de Hoje

Oitenta e sete minutos entre a esteira da fábrica e o punho da camisa

O programa de hoje é Tempos Modernos, disponível em serviço por assinatura e também por aluguel avulso nas lojas digitais, 87 minutos. Play às 20h30 e ponto final às 21h57. Direção, roteiro, montagem e trilha de Charles Chaplin, produção norte-americana de 1936, em preto e branco, com cartelas e legendas em português.

Charles Spencer Chaplin faz o operário sem nome que o Brasil chama de Carlitos, e assina também a música que toca por cima dele. Paulette Goddard vive a moça órfã que rouba pão no cais e vira parceira dele na rua. Henry Bergman aparece como o dono do café e Chester Conklin como o mecânico engolido pela engrenagem.

A história anda por blocos. O operário perde a cabeça na linha de montagem, vai parar em hospital, sai curado, pega no chão um pedaço de pano vermelho que caiu de um caminhão, acena para devolver e acaba preso na frente de uma passeata como se fosse o líder dela.

Daí em diante o filme repete de propósito o mesmo movimento: cada emprego novo termina em demissão, cadeia ou fuga. Vigia noturno de loja de departamentos, ajudante de mecânico, garçom cantor. A cadeia aparece como lugar mais confortável que a rua, e ele chega a manobrar para voltar até lá.

A voz chega já no fim do filme. Carlitos precisa cantar Je cherche après Titine, canção francesa de 1917, e anota a letra no punho postiço da camisa. O punho voa no primeiro gesto largo, e a moça grita da mesa que ele cante assim mesmo, sem se importar com as palavras. O que sai é uma sequência inventada que imita francês e italiano sem significar nada, e a plateia entende a história inteira pelo corpo dele.

A máquina de alimentação, aparelho que serve o almoço no próprio posto de trabalho para o operário não parar de produzir, ocupa uma das sequências mais longas e caras da produção. Ela desanda, entorna sopa, empurra espiga de milho girando, e o dono da fábrica recusa a compra por um motivo prático: o trambolho não é rentável.

A trilha composta por Chaplin guardou um tema que ganhou letra dezoito anos depois. John Turner e Geoffrey Parsons escreveram os versos em 1954, batizaram a canção de Smile, e Nat King Cole gravou no mesmo ano.

O fim é uma estrada ao amanhecer. A moça chora dizendo que não adianta mais tentar, e a última cartela responde com um conselho seco: erga a cabeça e não desista, vamos nos virar. Foi a despedida do personagem, que Chaplin nunca mais levou às telas do mesmo jeito. Uma coisa fica sem resposta, e se diz com todas as letras: a letra da canção sem língua nunca foi registrada em papel, então não se sabe quanto dela veio ensaiado e quanto saiu na hora, e o que existe é a gravação da própria cena.

 
 

II  Se a Noite Pedir Outra Coisa

Uma cidade vertical em 1927 ou um escritório de vidro em Paris

Nem toda mesa aguenta comédia em preto e branco de quase noventa anos. As duas saídas de hoje continuam falando de gente espremida por máquina e por prédio, e vão para lados opostos: uma entrega ficção científica solene de 1927, a outra entrega comédia moderna com escritório de vidro e visitante perdido.

Se a noite pedir a mesma fábrica levada ao extremo, o programa é Metrópolis, disponível em serviço por assinatura, 148 minutos na versão restaurada. Play às 20h30 e ponto final às 22h58.

Fritz Lang dirige em 1927 a cidade partida em dois andares, com os donos no alto e os operários embaixo, tocando máquinas em turnos que consomem o dia inteiro. Brigitte Helm faz Maria e também a autômata construída à imagem dela, Gustav Fröhlich faz o filho do dono da cidade e Alfred Abel faz o dono.

A ponte com o programa principal está na máquina que engole o homem. Lang filma o operário virando ponteiro de um relógio gigante, Chaplin filma o operário atravessando a engrenagem e saindo inteiro do outro lado. O alemão trata o assunto como tragédia de ópera, o inglês trata como piada de corpo.

Vale o aviso sobre o fôlego. A cópia restaurada em 2010 devolveu cerca de 25 minutos perdidos por décadas, e parte desse material aparece com qualidade visivelmente pior, porque veio de um negativo achado num arquivo de Buenos Aires em 2008.

Se a noite pedir riso sem pesadelo, o programa é Playtime, de Jacques Tati, disponível por aluguel avulso nas lojas digitais, 124 minutos. Play às 20h30 e ponto final às 22h34.

Tati dirige em 1967 um dia inteiro numa Paris de vidro e aço, onde o personagem Monsieur Hulot tenta chegar a uma reunião e se perde em corredores idênticos. Quase não existe diálogo com função de enredo: o filme funciona por barulho de porta, salto de sapato no piso encerado e gente esbarrando em parede transparente.

Regra de bolso para a noite: se a mesa quer grandiosidade e aceita ritmo lento, vá de Metrópolis, que constrói o mundo com paciência de 1927. Se prefere rir de escritório e de aeroporto, Playtime entrega a mesma crítica ao trabalho moderno sem uma linha de discurso.

 

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III  Sai do Catálogo

Acervo de autor independente muda de serviço sem avisar

Comédia muda de quase noventa anos ocupa uma faixa instável do catálogo brasileiro. Os títulos de Chaplin circulam por contrato de janela curta, entram no serviço de assinatura por uma temporada e saem sem aviso na tela inicial, sem nota no aplicativo e sem email para quem tinha o filme salvo na lista.

O motivo está em quem guarda os direitos. O acervo de Chaplin pertence à Roy Export Company Establishment, empresa criada pela própria família, e a distribuição mundial das cópias restauradas fica com a francesa MK2. Nenhuma das duas opera serviço de assinatura no Brasil, então o filme vive sempre de contrato alugado a terceiros.

Existe ainda o problema das cópias velhas. Versões mal digitalizadas, com trilha fora de sincronia e imagem cheia de risco, circulam de graça em canais abertos de vídeo porque o material físico antigo já perdeu proteção em alguns países. A restauração feita a partir do negativo original segue protegida por contrato, e é a cópia que vale a noite.

A busca dentro do aplicativo engana de outro jeito. O cadastro em inglês, Modern Times, existe como página separada em parte das lojas, e escrever o nome em português devolve primeiro documentários e programas de televisão com título parecido. Quem desiste na primeira tela conclui que o filme saiu do serviço.

O aluguel avulso é a saída estável, pelo motivo de sempre: a loja repassa ao detentor a cada transação, então a página fica de pé mesmo quando nenhuma assinatura carrega o título. Costuma sair na faixa de cinco a quinze reais pelas 48 horas, com alta definição e a trilha original de Chaplin no mesmo arquivo.

Tem ainda a exibição pública. Tempos Modernos entrou na primeira lista do National Film Registry, o registro de preservação da Biblioteca do Congresso dos Estados Unidos, em 1989, e por causa desse selo reaparece com frequência em cinemateca, canal público e mostra de escola, quase sempre em sessão gratuita e com cópia restaurada.

1. Procure ainda de tarde pelo nome em inglês, Modern Times, porque o cadastro estrangeiro existe em parte das lojas e devolve a ficha que a busca em português não encontrou.

2. Confira a duração na ficha antes de apertar o play: cópia com bem menos de 85 minutos costuma ser versão cortada ou acelerada, e nela a trilha composta por Chaplin entra fora de compasso com a cena.

3. Se a assinatura da vez não tiver o título, resolva pelo aluguel avulso, que entrega a restauração completa e evita descobrir às nove da noite que a janela do contrato já venceu.

A instabilidade tem causa simples de contrato: título de estúdio grande mora no serviço do próprio dono e não sai de lá, e acervo de autor independente depende de quem alugou a janela naquele ano. Um fica parado no mesmo endereço, o outro muda de casa sem deixar recado.

Play às 20h30, ponto final às 21h57, e um filme que guardou a voz do protagonista para dizer palavras que não existem.

"Que parte do seu trabalho hoje anda no ritmo de uma esteira que outra pessoa regulou?"

Na próxima edição: o faroeste rodado na Espanha cuja trilha foi gravada antes de as cenas serem filmadas.

 
 

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No café, Carlitos esquece a letra escrita no punho da camisa e canta com palavras inventadas. Qual canção francesa de 1917 ele tenta cantar?

ASmile
BJe cherche après Titine
CLa Vie en Rose
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