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As 2 uvas da mesa do Homem Pálido

O Labirinto do Fauno, de Guillermo del Toro, 2006, 118 minutos: na Espanha de 1944, uma menina cumpre as tarefas de um fauno.

Menina diante de uma criatura pálida sentada a uma mesa de banquete.

A mesa farta do Homem Pálido

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No pátio do velho moinho onde montou quartel, o capitão Vidal justifica ao médico a viagem da mulher grávida até a serra: “Um filho deve nascer onde está o pai.” Carmen chegou de carro, pálida, com a filha Ofelia no banco de trás e uma pilha de livros de contos no colo da menina.

A cena abre O Labirinto do Fauno, filme do mexicano Guillermo del Toro lançado em 2006, com 118 minutos. A data na tela é 1944. A Guerra Civil Espanhola acabou cinco anos antes, Franco governa, e nas montanhas do norte ainda resistem grupos de guerrilheiros republicanos escondidos no mato.

Vidal foi mandado para caçá-los. Controla a comida da vila por cartão de racionamento, vigia a estrada e mantém a tropa inteira em volta do moinho. Ofelia é filha do primeiro casamento de Carmen, e o padrasto não esconde que só se importa com o menino da barriga.

Atrás do moinho há um labirinto de pedra coberto de musgo, mais antigo do que qualquer casa da região. Ofelia entra seguindo um inseto comprido, parecido com um bicho-pau, que ela toma por fada. No centro, desce uma escada circular e encontra um fauno (criatura da mitologia romana, metade homem, metade bode), alto, de chifres retorcidos e pele de casca de árvore.

O fauno conta que ela é Moanna, princesa de um reino debaixo da terra, que fugiu para a superfície há séculos e esqueceu quem era. Para voltar, precisa provar que a alma continua intacta. Ele entrega um livro em branco, cujas páginas só se escrevem quando ela o abre sozinha.

O filme corre em duas trilhas. Numa, a menina rasteja sob uma figueira seca, foge de uma criatura sentada a uma mesa farta e cuida de uma raiz que chora como bebê. Na outra, Vidal interroga presos no celeiro, a governanta Mercedes leva comida escondida aos guerrilheiros e o médico Ferreiro sobe a serra com remédio na maleta.

Del Toro não separa as duas trilhas por cor de filtro nem por aviso. A câmera passa de uma para outra por dentro do mesmo tronco, da mesma porta, do mesmo gesto de braço.

A primeira das três tarefas mora embaixo de uma árvore morta, e a seção I desce até lá.

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I  O Programa de Hoje

A figueira e a mesa farta

Hoje a tela recebe O Labirinto do Fauno (El laberinto del fauno), fantasia de guerra escrita e dirigida por Guillermo del Toro, lançada em 2006, com 118 minutos. Começa às 20h30 e os créditos sobem às 22h28.

Ofelia é Ivana Baquero, então com onze anos, menina de Barcelona escolhida num teste. Vidal é Sergi López, ator catalão que construiu o capitão sem nenhum traço de piada. Mercedes é Maribel Verdú, e Carmen é Ariadna Gil.

A primeira tarefa: tirar uma chave da barriga de um sapo gigante que vive entre as raízes de uma figueira e está secando a árvore. Ofelia despe o vestido novo, presente da mãe para o jantar do capitão, e se arrasta pela lama do túnel.

Ela faz o sapo engolir três pedras mágicas dadas pelo fauno. O bicho vomita a própria pele do avesso, e a chave sai junto. A menina volta para casa coberta de barro, com o vestido arruinado pendurado num galho, e perde o jantar. Carmen fica envergonhada diante dos convidados do marido.

O Homem Pálido

A segunda tarefa começa por uma porta que Ofelia desenha a giz na parede do quarto. Atrás dela há um salão comprido, uma ampulheta e uma regra: não comer nada da mesa. Na cabeceira, diante de um banquete, está sentada uma criatura magra, sem olhos no rosto, com as duas órbitas num prato à frente.

Ofelia usa a chave para abrir uma portinhola e tira dali um punhal. Na saída, come duas uvas. A criatura encaixa os olhos nas palmas das mãos, ergue-as diante do rosto e se levanta. Duas das fadas que acompanham a menina são devoradas, e ela escapa pela porta de giz antes de a areia acabar.

Por baixo da maquiagem dos dois papéis está o mesmo homem: o ator americano Doug Jones, que fez o fauno e a criatura da mesa.

Jones já tinha trabalhado com Del Toro em Hellboy e decorou as falas do fauno em espanhol sílaba por sílaba, sem falar a língua. Na montagem final, a voz foi dublada pelo ator espanhol Pablo Adán. Como Homem Pálido, Jones enxergava pelas narinas da máscara.

A mesa do monstro repete a mesa de Vidal. Na sala do capitão, a comida farta é servida a padres e oficiais enquanto a vila recebe pão pelo cartão. Na sala da criatura, o banquete fica intocado, e uma pilha de sapatinhos no canto mostra quem ele come de verdade.

“Os contos de fadas não dão à criança a primeira ideia do bicho-papão. O que os contos de fadas dão à criança é a primeira ideia clara da possível derrota do bicho-papão.” (G. K. Chesterton, Tremendous Trifles, 1909)

O fauno descobre as uvas e abandona Ofelia, furioso. Volta só perto do fim, com a última chance: levar o irmão recém-nascido até o centro do labirinto, na noite de lua cheia.

 
 

II  Se a Noite Pedir Outra Coisa

Outras crianças sob Franco

Se a noite pedir outro clima, dois filmes espanhóis olham o país da ditadura pelos olhos de crianças, um num orfanato isolado e outro numa vila de Castela.

O primeiro é A Espinha do Diabo (El espinazo del diablo), de Guillermo del Toro, 2001, com 106 minutos. Começa às 20h30 e termina às 22h16.

Em 1939, nos últimos meses da Guerra Civil, o menino Carlos é deixado num orfanato republicano no meio de uma planície seca. No pátio, uma bomba que não explodiu continua cravada no chão, de ponta para cima. À noite, pelos corredores, anda o fantasma de um menino chamado Santi.

O orfanato é dirigido por Carmen, vivida por Marisa Paredes, e pelo professor Casares, papel do argentino Federico Luppi. Os dois guardam num cofre o ouro da causa republicana. Jacinto, o zelador interpretado por Eduardo Noriega, cresceu ali dentro e quer aquele ouro.

Del Toro trata os dois filmes como par: o de 2001 começa na guerra aberta, o de 2006 na guerra perdida. Nos dois, os adultos armados fazem mais estrago do que qualquer criatura do sobrenatural.

Em A Espinha do Diabo, o fantasma é o morador mais confiável da casa; em O Labirinto do Fauno, o monstro de verdade usa farda.

O segundo é O Espírito da Colmeia (El espíritu de la colmena), de Víctor Erice, 1973, com 98 minutos. Começa às 20h30 e termina às 22h08.

Em 1940, numa vila de Castela, um cinema itinerante projeta Frankenstein, de James Whale, no salão municipal. A pequena Ana, vivida por Ana Torrent aos sete anos, quer entender a cena em que o monstro afoga a menina do filme. A irmã mais velha, Isabel, inventa que o monstro é um espírito e mora perto da vila.

Ana começa a procurá-lo num casebre de pedra no campo. Encontra ali um soldado republicano ferido, fugido, e leva para ele comida e o casaco do pai. Numa noite, a Guarda Civil chega antes dela, e o casebre amanhece vazio, com sangue na parede.

O pai, Fernando, cria abelhas e escreve à noite sobre a vida das colmeias. A mãe escreve cartas a um destinatário que o filme nunca mostra. Erice filmou sob a censura do regime e contou a guerra quase sem citá-la.

A ponte com O Labirinto do Fauno está na menina que leva a sério o monstro enquanto os adultos fingem não ver a violência em volta.

Para escolher: quem quer fantasma, suspense e o mesmo diretor vai de A Espinha do Diabo; quem quer silêncio, campo aberto e um ritmo lento vai de O Espírito da Colmeia.

 

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III  Sai do Catálogo

O berço na lua cheia

O Labirinto do Fauno troca de plataforma de streaming no Brasil com frequência. Busque pelo título em português e confira Guillermo del Toro e 2006 antes de apertar o play; se a busca falhar, tente o original, El laberinto del fauno.

Del Toro nasceu em 1964 em Guadalajara, no México, e enche cadernos de desenhos desde jovem. As páginas com os primeiros esboços do fauno e do Homem Pálido saíram impressas em 2013, no livro Cabinet of Curiosities.

A carreira do filme

O filme estreou em competição no Festival de Cannes de 2006. No Oscar de 2007, teve seis indicações e levou três estatuetas: fotografia, para Guillermo Navarro; direção de arte, para Eugenio Caballero e Pilar Revuelta; maquiagem, para David Martí e Montse Ribé. Perdeu o de filme estrangeiro para o alemão A Vida dos Outros.

Na trama, o fauno ainda dá a Ofelia uma raiz de mandrágora com cara e braços de bebê, para guardar sob a cama da mãe numa tigela de leite, com duas gotas de sangue por dia. Carmen melhora. Vidal encontra a raiz, Carmen a joga no fogo, e na mesma noite entra em trabalho de parto. O menino nasce, e a mãe não resiste.

Mercedes é descoberta. Presa no celeiro, corta as cordas com a faca que guardava no avental, abre a bochecha do capitão e foge para a serra. Vidal costura o próprio rosto diante do espelho, com linha e agulha.

Na lua cheia, Ofelia leva o irmão ao labirinto. O fauno pede uma gota do sangue do bebê, tirada com o punhal. Ela recusa. Vidal a alcança, toma o menino e atira na enteada. Na saída, os guerrilheiros e Mercedes esperam por ele.

Vidal entrega o filho e pede que contem ao menino a hora em que o pai caiu, apertando o relógio de bolso herdado. Mercedes responde que o menino nunca vai saber como ele se chamava. Pedro, irmão dela, atira.

O sangue de Ofelia pinga no altar do centro do labirinto. A recusa era a prova: num salão dourado, o pai e a mãe esperam a princesa nos tronos. Del Toro já declarou que, para ele, o reino é real, e deixou a pista na última imagem: uma flor branca brota no galho da figueira seca.

1. No começo, repare no inseto que entra no carro da família: é a fada antes de mudar de aparência.

2. Na metade, observe as cores: azul e frio no moinho, dourado e quente embaixo da terra.

3. No fim, acompanhe a flor branca na figueira, a última imagem antes dos créditos.

Às 20h30, 118 minutos de serra espanhola e uma menina contra um capitão.

Ofelia desobedece duas vezes. Na primeira, troca duas fadas por duas uvas; na segunda, recusa o sangue do irmão e ganha o reino. A lição do filme mora na diferença entre as duas desobediências.

 
 
Quiz da edição

No Labirinto do Fauno, quem interpreta tanto o fauno quanto o Homem Pálido da mesa farta?

ASergi López
BDoug Jones
CIvana Baquero
DMaribel Verdú

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