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As sombras de 1920 pintadas à mão no cenário
Robert Wiene, 1920, 77 minutos: play às 20h30 e um sonâmbulo que obedece a um homem de cartola.
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Caligari e a cidade de sombras pintadas
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Francis está sentado num banco de pedra, no jardim de um hospício alemão, quando aponta para uma moça de branco que passa devagar, como quem anda dormindo, e diz ao velho ao lado: “Esta é a minha noiva.” A moça se chama Jane. Ela não olha para ele. Francis então conta ao velho a história que os dois viveram na cidade de Holstenwall, e é essa história que ocupa quase o filme inteiro. A cidade não parece cidade. As casas se inclinam umas sobre as outras, as janelas são losangos, as ruas sobem em zigue-zague e as chaminés apontam para lados opostos. As sombras no chão também não vêm de lâmpada nenhuma. Foram pintadas a pincel, em listras pretas e brancas, sobre telas e painéis de papelão montados no estúdio da produtora Decla-Bioscop, em Berlim, no inverno de 1919 para 1920. Os três cenógrafos, Hermann Warm, Walter Reimann e Walter Röhrig, eram pintores. Com pouco dinheiro para iluminação, a equipe desenhou a luz direto no cenário, e a cidade inteira virou um quadro torto. Na feira anual de Holstenwall chega um homem de cartola, óculos redondos e bengala, o Dr. Caligari. Ele pede licença à prefeitura para exibir uma atração: Cesare, um sonâmbulo que dorme há 23 anos dentro de um caixão de pé. O funcionário que atende Caligari na prefeitura o trata com desprezo. Na manhã seguinte, aparece esfaqueado na própria cama. A polícia não tem suspeito, e ninguém liga o crime à feira. Francis e o amigo Alan vão à feira. Alan pergunta ao sonâmbulo quanto tempo ainda tem de vida, e Cesare abre os olhos contornados de preto e responde: “Até o amanhecer.” O Programa de Hoje segue Francis atrás desse vendedor de feira e mostra por que a história contada no banco do jardim não pode ser lida ao pé da letra. Continue lendo ↓ |
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I O Programa de Hoje
I, Um sonâmbulo no caixão e uma noiva no telhado
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O programa desta noite é O Gabinete do Dr. Caligari, título original Das Cabinet des Dr. Caligari, filme mudo alemão de 1920, 77 minutos, dirigido por Robert Wiene, com Werner Krauss, Conrad Veidt e Lil Dagover. Play às 20h30 e ponto final às 21h47.
Alan amanhece esfaqueado no quarto, como o profeta de feira tinha anunciado. Francis, vivido por Friedrich Fehér, passa a desconfiar de Caligari e do sonâmbulo na mesma hora.
Ele procura o pai de Jane, o médico Dr. Olsen, e os dois pedem à polícia uma ordem para examinar Cesare. Encontram o rapaz deitado no caixão, imóvel, com Caligari sentado ao lado.
Enquanto Francis vigia a carroça durante a noite, Cesare sai pelos fundos. Atravessa os telhados tortos da cidade, entra pela janela do quarto de Jane com uma faca e desiste de usá-la ao ver a moça dormindo.
Em vez de ferir Jane, ele a carrega nos braços pelos telhados. Os vizinhos correm atrás, e Cesare, exausto, larga a moça numa encosta e cai sem vida pouco adiante.
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Francis jurava que Cesare tinha passado a noite no caixão. Na carroça, quem dormia era um boneco de pano com o rosto do sonâmbulo, posto ali por Caligari para enganar quem vigiasse.
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Francis segue Caligari na fuga e o vê entrar por um portão: o de um hospício. Lá dentro descobre que o homem de cartola é o diretor da casa.
Com a ajuda de três médicos, Francis vasculha o escritório do diretor durante a noite. Acha um livro antigo sobre um místico italiano chamado Caligari, que em 1703 percorria as feiras do norte da Itália com um sonâmbulo e o usava para cometer crimes.
Acha também o diário do diretor. Nele, o médico conta que recebeu um paciente sonâmbulo e decidiu repetir a experiência do livro, para saber se uma pessoa nesse estado obedece a qualquer ordem. A frase “Você tem de se tornar Caligari” aparece escrita em letras que se espalham pela tela e pelas paredes.
Os médicos mostram ao diretor o corpo de Cesare. Ele perde o controle, ataca um enfermeiro e sai do escritório amarrado numa camisa de força, levado para uma das celas do próprio hospício.
Wiene grava tudo com a câmera parada, quase sempre em plano aberto, como num palco de teatro. Os atores andam em linhas diagonais, acompanhando a inclinação das paredes.
Conrad Veidt faz Cesare de malha preta colada ao corpo, rosto branco e olhos contornados de preto. Ele se move rente às paredes como se fizesse parte delas.
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II Se a Noite Pedir Outra Coisa
II, Um vampiro sem licença e uma ilha cheia de pacientes
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As duas saídas desta noite contam o mesmo tipo de história: alguém investiga um mistério e o chão some debaixo dos pés, uma no cinema mudo alemão e outra em Hollywood.
Se a noite pedir mais cinema mudo alemão, o programa é Nosferatu, de F. W. Murnau, 1922, 94 minutos, em domínio público e disponível de graça no YouTube e no Internet Archive. Play às 20h30 e ponto final às 22h04.
Thomas Hutter, corretor de imóveis da cidade de Wisborg, viaja aos Cárpatos para vender uma casa ao conde Orlok. O conde, vivido por Max Schreck, tem orelhas pontudas, dedos compridos e dentes de rato, e compra a casa em frente à de Hutter.
Orlok embarca para Wisborg num navio carregado de caixões com terra e ratos. A tripulação some no caminho, e a peste chega à cidade junto com ele. Quem salva Wisborg é Ellen, a esposa de Hutter: ela prende o conde no quarto até o sol nascer, e a luz da manhã desfaz o vampiro.
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O roteiro de Henrik Galeen copiava Drácula, de Bram Stoker, sem licença. A viúva do escritor, Florence Stoker, processou a produtora Prana-Film, e um tribunal alemão mandou destruir as cópias em 1925. As que já tinham saído do país sobreviveram.
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Se a noite pedir o mesmo susto em cores e com som, o programa é Ilha do Medo, título original Shutter Island, de Martin Scorsese, 2010, 138 minutos, disponível no aluguel digital. Play às 20h30 e ponto final às 22h48.
Leonardo DiCaprio é Teddy Daniels, agente federal que chega em 1954 ao hospital psiquiátrico Ashecliffe, numa ilha da baía de Boston, com o parceiro Chuck Aule, vivido por Mark Ruffalo. Os dois procuram Rachel Solando, uma paciente que sumiu de uma cela trancada por fora.
O diretor clínico, Dr. John Cawley, vivido por Ben Kingsley, colabora pouco. Uma tempestade isola a ilha da costa, e Teddy começa a ter dores de cabeça e sonhos com a esposa, Dolores, perdida num incêndio.
O roteiro adapta o romance de Dennis Lehane, de 2003. O desfecho revela que Teddy é Andrew Laeddis, paciente do próprio hospital, e que a investigação inteira foi um teatro montado pelos médicos para tirá-lo do delírio.
Regra de bolso: se a casa quer sombra e silêncio, vá de Nosferatu. Se quer diálogo, trilha alta e outro narrador que não sabe onde está, vá de Ilha do Medo.
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