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Bacurau sumiu do mapa e a visita chegou armada
São 131 minutos no sertão: play às 20h30, ponto final às 22h41, e um povoado que some do satélite pouco antes de receber gente de fora.
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A estrada de terra que leva ao povoado
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“Bacurau sumiu do mapa", diz o professor Plínio na frente do computador da escola, a única sala do povoado com internet que presta, enquanto os alunos se amontoam atrás da cadeira dele. A tela mostra a região inteira do jeito de sempre, com açude, estrada de terra e cerca, e um buraco branco exatamente onde deveria estar o lugar em que aquelas pessoas moram.
Cinema de gênero feito no Brasil costuma tropeçar num pedido impossível. O filme precisa ser popular o bastante para segurar quem chegou pela ação e sério o bastante para não virar caricatura do país que retrata, e a maioria escolhe um lado logo no primeiro ato. Quando escolhe a ação, o cenário vira papel de parede exótico; quando escolhe a seriedade, sobra denúncia sem pulso.
A saída que funciona é tratar o lugar como personagem com regras próprias. Se o povoado tem médica, escola, museu, prostituta, bandido foragido e um velório em andamento, o espectador aceita qualquer coisa que aconteça depois, porque já entendeu como aquela gente se organiza sozinha. A ficção científica entra sem alarde e o faroeste também, sem precisar avisar que chegaram.
Existe um item de produção que separa esse tipo de filme dos outros e custa caro: a construção de um vilarejo inteiro. A equipe ergueu casas, praça, igreja e museu num descampado do Seridó, no Rio Grande do Norte, e filmou em película de 35 milímetros com lentes anamórficas, formato largo de faroeste, para que a estrada de terra ocupasse o quadro do mesmo jeito que ocuparia num western americano.
Para a mesa de casa, o gênero tem uma vantagem discreta. Ele troca de registro sem pedir licença: uma cena de comédia de campanha eleitoral, um velório com bebida, um plano de perseguição, um susto. Quem cansa de tensão encontra respiro a cada vinte minutos, e quem veio pela tensão não fica esperando na porta.
O programa de hoje é o filme brasileiro mais comentado da última década no circuito internacional, com prêmio grande de Cannes na estante, um drone em formato de disco voador dos anos 50 e um museu de cidade pequena que guarda muito mais do que fotografia antiga.
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I O Programa de Hoje
Cento e trinta e um minutos e um buraco branco no satélite
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O programa de hoje é Bacurau, disponível em serviço por assinatura e também por aluguel avulso nas lojas digitais, 131 minutos. Play às 20h30 e ponto final às 22h41. Falado em português e em inglês, com legenda, direção de Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles, produção brasileira e francesa de 2019.
A história começa numa estrada. Teresa volta para casa num caminhão-pipa para enterrar a avó, dona Carmelita, morta aos 94 anos, e o caminho até o povoado passa por caixões espalhados no asfalto, caídos de um veículo que capotou pouco antes. O aviso de tom chega nos primeiros cinco minutos e o filme nunca desmente.
O velório organiza a apresentação de todo mundo. Domingas, a médica do lugar, chega bêbada e briga com a defunta em voz alta na frente da comunidade inteira. Plínio dá aula na escola que leva o nome de um professor local. Pacote trabalha, o museu abre de manhã, e o povoado funciona sem depender de ninguém de fora, o que passa a ser o problema central.
A vida segue estranha antes de ficar perigosa. O açude que abastece Bacurau está cortado por decisão de quem manda na água. O caminhão-pipa chega com furos de bala na lataria e ninguém comenta. O prefeito Tony Júnior aparece em carro de som, despeja livros embolorados e comida vencida na praça e some de novo, e a população recebe a doação com um silêncio que constrange.
O sinal de celular cai. O sinal de GPS some. Um objeto pequeno passa zunindo por cima das casas, e a câmera revela um drone desenhado como disco voador de filme B dos anos 50, escolha de direção de arte que deixa a ameaça engraçada e assustadora ao mesmo tempo.
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"O sertanejo é, antes de tudo, um forte."
Euclides da Cunha, Os Sertões, 1902
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A visita chega em duas frentes. Um casal de motoqueiros do Sul do país aparece pedindo água e faz perguntas demais sobre quantas pessoas moram ali. Atrás deles vem um grupo de estrangeiros armados, chefiado por um alemão chamado Michael, vivido por Udo Kier, ator europeu com mais de duzentos filmes de gênero no currículo. Eles brigam entre si sobre pontuação, calibre e regras, como quem organiza um campeonato.
A reação do povoado ninguém antecipa. Bacurau tem memória, tem organização e tem um museu com paredes que guardam a história das guerras da região. A comunidade também tem Lunga, foragido que vive na barragem e que a cidade decide chamar de volta, apesar de todo mundo saber o preço de fazer isso.
O reconhecimento veio rápido. O filme dividiu o Prêmio do Júri no Festival de Cannes de 2019 com o francês Os Miseráveis, ganhou lançamento comercial em salas americanas e virou objeto de discussão em jornais fora do Brasil, algo que não acontecia com produção nacional havia bastante tempo.
O aviso de tom é necessário. Existe violência gráfica, sangue em quantidade, execução mostrada em plano aberto e humor negro no meio das cenas mais duras. Quem quer uma noite leve vai encontrar duas horas de tensão crescente, com alívio entrando em doses curtas e sempre um pouco cruéis.
Para a noite, o encaixe funciona bem em dia de semana, com um porém. São 131 minutos que trabalham por acúmulo, então quem aperta o play às 20h30 termina às 22h41 e precisa aceitar o compromisso inteiro. Não é filme para deixar rodando enquanto se responde mensagem, porque a virada depende de informação plantada no primeiro terço, numa sala de museu que a câmera visita rápido.
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II Se a Noite Pedir Outra Coisa
Uma comédia no sertão da Paraíba ou um apartamento em Boa Viagem
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Nem toda mesa aguenta sangue no sertão numa noite de semana. As duas saídas de hoje mantêm o mesmo terreno, gente do interior brigando por território, mas trocam a temperatura: uma vira riso puro, a outra vira desconforto de vizinhança.
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Se a noite pedir leveza, o programa é O Auto da Compadecida, disponível em serviço por assinatura e por aluguel avulso, 104 minutos. Play às 20h30 e créditos às 22h14.
O filme acompanha João Grilo e Chicó, dois pobres-diabos de Taperoá, no sertão da Paraíba, que sobrevivem inventando trapaça atrás de trapaça: um cachorro que morre de bexiga, um gato que defeca dinheiro, um padre chantageado, um cangaceiro na estrada. Guel Arraes dirige, adaptando a peça de Ariano Suassuna, e Matheus Nachtergaele e Selton Mello formam a dupla.
O método aqui é o oposto do programa principal. A pobreza do lugar aparece inteira, sem maquiagem, e mesmo assim a esperteza do roteiro entrega uma comédia que a mesa acompanha comentando em voz alta. O julgamento final, com direito a defesa e absolvição, arruma cada malandragem anterior num sentido só.
Se a noite pedir mais aperto e menos alívio, o programa é Aquarius, disponível em serviço por assinatura e por aluguel avulso, 146 minutos. Play às 20h30 e créditos às 22h56.
O filme parte de uma crítica musical aposentada, Clara, que vive no último apartamento ocupado de um prédio antigo em Boa Viagem, no Recife, e recusa a proposta da construtora que já comprou todas as outras unidades. Sônia Braga sustenta o papel do começo ao fim, e Kleber Mendonça Filho dirige, três anos antes do programa de hoje.
A proximidade com Bacurau é direta: uma comunidade pequena e um comprador com dinheiro que decide que aquele espaço vale mais vazio. As duas produções tratam a remoção como projeto planejado por gente educada, e terminam num gesto de vingança que a plateia entende sem que ninguém explique nada em voz alta.
Regra de bolso para hoje: se a mesa quer sair rindo e citando frase decorada, vá de O Auto da Compadecida, o único dos três que funciona com gente entrando e saindo da sala. Se a sala topa ficar em silêncio e discutir depois, Aquarius entrega a versão civilizada do mesmo confronto.
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