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Central do Brasil resolve a segunda em 113 minutos
Uma escrevente de cartas da estação, um menino e a estrada até o sertão: play às 20h30 no Globoplay e ponto final às 22h23.
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A escrevente e o menino na estação
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A estação Central do Brasil, no centro do Rio, despeja gente na plataforma em fila contínua desde antes das seis da manhã. No meio daquele saguão, uma mesa dobrável com papel e caneta atende quem não sabe escrever e precisa mandar recado para longe.
Segunda-feira à noite tem um problema específico. A semana já começou, a cabeça ainda está no que ficou pendente, e a sala não aguenta abrir uma temporada de oito episódios às nove da noite.
Filme brasileiro de estrada encaixa bem nessa hora justamente porque tem começo, meio e fim marcados no relógio. A promessa é simples: alguém sai de um lugar, chega em outro, e a sala fecha a história antes de dormir.
O gênero tem uma regra que o cinema americano usa há décadas e o cinema brasileiro virou do avesso. Lá, a estrada é liberdade e horizonte aberto. Aqui, a estrada quase sempre é necessidade: quem pega o ônibus está resolvendo pendência, não passeando.
Essa inversão muda o que a sala sente. Não existe descoberta romântica de país, existe distância medida em horas de rodoviária, e o que muda no caminho é a relação entre duas pessoas que se aturam à força dentro do mesmo banco.
O preço aparece cedo. Quem senta esperando aventura acha o primeiro terço áspero, porque o filme gasta tempo mostrando desamparo urbano antes de colocar qualquer personagem na estrada.
Em troca, o formato entrega o que uma noite de segunda pede: uma história inteira, sem episódio seguinte cobrando terça e sem arco de temporada guardado na gaveta. Você senta, assiste e fecha.
O programa de hoje leva a regra ao limite com duas pessoas que não escolheram uma à outra. Uma mulher que ganha dinheiro escrevendo carta alheia e um menino de nove anos que ela nem queria por perto atravessam o país num ônibus, e o filme cobra da plateia atenção em vez de reviravolta.
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I O Programa de Hoje
Uma escrevente, um menino, uma estrada
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Uma carta que nunca foi postada e uma estrada até o sertão, em 113 minutos.
Vingança de família em engenho de cana, em 105 minutos.
O programa de hoje é Central do Brasil, no Globoplay, 113 minutos. Play às 20h30 e ponto final às 22h23. Falado em português, direção de Walter Salles, com roteiro de João Emanuel Carneiro e Marcos Bernstein.
Fernanda Montenegro interpreta Dora, professora aposentada que monta uma mesinha na estação e cobra por carta escrita. Ela ouve o desabafo do cliente, anota, cobra o valor combinado e cobra mais um tanto se o cliente quiser que ela ponha no correio.
A primeira sacada do roteiro está no que ela faz depois do expediente. Dora leva as cartas para casa, lê em voz alta com a vizinha, ri de algumas, e decide quais vão para a caixa do correio, quais ficam na gaveta e quais vão para o lixo.
O detalhe transforma a profissão inteira em problema moral. Ela é o único caminho entre pessoas que não escrevem e pessoas que não sabem que foram procuradas, e usa esse poder com um cinismo que o filme não perdoa nem explica.
Vinícius de Oliveira, garoto que vendia doce na rua e foi encontrado num aeroporto, interpreta Josué, o menino que passa a acompanhar Dora depois que a mãe dele dita uma carta para o pai desaparecido no interior do Nordeste.
A viagem começa por um motivo que não é generoso. Dora entra na estrada tentando consertar uma escolha própria, e a boa ação demora a virar boa ação de verdade, o que segura o filme longe da lição de moral fácil.
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"Sinto saudades de tudo."
João Emanuel Carneiro e Marcos Bernstein, Central do Brasil, 1998
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O caminho é filmado em lugar real. A produção rodou na estação de trem em funcionamento, com passageiro de verdade circulando na cena, e seguiu por estrada de terra até cidades pequenas do sertão, sem cenário montado em estúdio.
O que a câmera faz com a atriz é a parte técnica que quase ninguém nota. Salles filma Dora quase sempre no meio da multidão, cercada por gente, e só isola o rosto dela em plano fechado quando a personagem começa a ceder.
O reconhecimento veio rápido e em duas frentes. O filme levou o Urso de Ouro em Berlim em 1998, Fernanda Montenegro levou o Urso de Prata de melhor atriz no mesmo festival, e a indicação ao Oscar de melhor atriz em 1999 foi a primeira de uma intérprete brasileira na categoria.
Para a noite de segunda, o encaixe é limpo. A sessão começa às 20h30, a história fecha por conta própria, e a sala apaga a luz às 22h23 sem nenhuma temporada aberta no colo.
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II Se a Noite Pedir Outra Coisa
Vale do sertão ou pátio de Taperoá
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Nem toda segunda-feira aguenta drama de estrada. O humor da sala decide o programa, e as duas saídas de hoje puxam para lados diferentes: uma pede lenço na mesa, a outra pede gargalhada.
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Se a noite pedir peso, o programa é Abril Despedaçado, também de Walter Salles, no Globoplay, 105 minutos. Play às 20h30 e créditos às 22h15.
Duas famílias de um sertão seco disputam uma faixa de terra e cobram a dívida de sangue uma da outra em turnos, sempre esperando a camisa manchada secar antes do próximo turno. Um filho mais novo entra na conta sem ter escolhido nada.
O filme se apoia num engenho de cana movido a boi, que roda em círculo o dia inteiro puxado pelos dois irmãos. A imagem faz o trabalho de tese sem uma linha de diálogo: a família anda em círculo e chama isso de tradição.
A entrada de fora é um circo mambembe com uma moça que faz número na corda. Ela oferece ao menino uma vida em que se pode ir embora, e o filme passa a segunda metade testando se a saída é possível.
A conta da noite é confortável: são 105 minutos, os créditos sobem às 22h15 e a terça começa inteira. Saída para a segunda em que a sala aceita ficar em silêncio depois do fim.
Se a noite pedir riso, o programa é O Auto da Compadecida, de Guel Arraes, no Globoplay, 104 minutos. Play às 20h30 e créditos às 22h14.
Dois pobres de Taperoá, no interior da Paraíba, vivem de aplicar golpe pequeno em padre, padeiro e cangaceiro, sempre com a mesma técnica: convencer o poderoso de que ele está fazendo negócio da vida dele.
A base é teatro escrito para palco por Ariano Suassuna em 1955, e a origem aparece na estrutura. Cada cena é um número fechado, com entrada, virada e saída, o que torna o filme fácil de acompanhar mesmo com a sala conversando por cima.
O humor é a diferença de exigência. A trama termina num julgamento com o diabo de advogado de acusação, e o texto entrega a discussão teológica em ritmo de piada de praça, sem cobrar solenidade de ninguém.
Regra de bolso para hoje: se a mesa aceita silêncio e uma história sobre herança que ninguém pediu, vá de Abril Despedaçado. Se a sala quer rir alto e ainda assim ver Nordeste na tela, O Auto da Compadecida chega mais perto do programa de hoje, com a mesma paisagem e o oposto do peso.
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