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Terror com forma de mistério. Veja por que a sala inteira aguenta os 104 minutos.
O programa de hoje é Corra!, de Jordan Peele, na Netflix, 104 minutos. Play às 21h e créditos às 22h44. O filme está com dublagem em português e legenda, e a classificação é de 16 anos.
A premissa cabe em duas frases. Chris é fotógrafo, namora Rose há alguns meses e aceita passar o fim de semana na casa dos pais dela, no interior, para ser apresentado à família.
A recepção é calorosa demais. O pai é neurocirurgião e faz questão de dizer que votaria de novo no mesmo presidente, a mãe é hipnoterapeuta e oferece uma sessão antes de a mala ser desfeita.
Os dois empregados da casa são o primeiro sinal de que a conta não fecha. Eles respondem com meio segundo de atraso, sorriem fora do lugar e falam como quem repete um texto que alguém ensaiou com eles.
A cena que organiza o filme inteiro acontece na primeira noite, e não tem perseguição nenhuma. Tem uma poltrona, uma xícara de chá e uma colher girando na borda, e a partir dali o protagonista perde o comando do próprio corpo.
No dia seguinte a casa enche. Dezenas de convidados chegam para a confraternização anual da família, todos fazem o mesmo tipo de comentário e, no meio do jardim, corre um leilão com cartelas de bingo.
A virada chega perto da metade, e a resposta não é sobrenatural. É um arranjo, com procedimento, fila de espera e comprador, e a segunda metade do filme é a saída pelo mesmo caminho da entrada.
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"Eu te falei para não entrar naquela casa."
Rod Williams, em Corra!, 2017
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A produção explica o acabamento. O filme foi rodado no Alabama em cerca de vinte e três dias, e era a estreia de Jordan Peele na direção depois de uma década escrevendo humor para a televisão.
A década de humor aparece no lugar certo. Sempre que a tensão sobe demais, o filme corta para o amigo agente de aeroporto ao telefone, a sala ri, e a corda volta a esticar do começo.
O detalhe que importa para a sala dividida é a contagem de sustos. Corra! usa pouquíssimo sobressalto de som: o desconforto vem de conversa, de sorriso educado e de gente perguntando coisa demais.
A trilha de Michael Abels faz o aviso antes da primeira cena. O tema coral é cantado em suaíli e a letra manda o protagonista ouvir os antepassados e correr, então o filme entrega a instrução no primeiro minuto.
O fim que está na tela não é o primeiro que foi filmado. A versão original terminava com a chegada da polícia; Peele trocou o desfecho depois das sessões de teste, e a saída passou a ser o carro do amigo.
O reconhecimento veio no ano seguinte: quatro indicações ao Oscar de 2018 e uma estatueta, a de roteiro original, a primeira dessa categoria para um roteirista negro.
Um aviso honesto antes do play: o incômodo do filme é social, e não gráfico. Quem procura susto a cada dez minutos vai achar a primeira hora lenta.
Para a segunda, ele entrega o que a noite pede: pergunta declarada nos primeiros minutos, nada para decorar e créditos às 22h44, com tempo de sobra antes das onze.
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