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ED 010

Corra! resolve a segunda da sala dividida em 104 minutos

O terror que anda como mistério: play às 21h na Netflix, créditos às 22h44, e duas alternativas nomeadas por humor.

Xícara de chá branca sobre um pires, com uma colher de prata girando na borda, iluminada por um abajur numa sala de estar escura.

A xícara, a colher e o começo da noite

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São 21h de uma segunda. O jantar acabou de sair da mesa, o despertador de amanhã já está armado e a sala tem quatro pessoas com quatro vontades diferentes.

Segunda tem um limite que o fim de semana não tem: a hora de dormir é real. Entre a louça na pia e as onze da noite sobra uma janela curta, e ela encolhe enquanto a fileira de capas rola sozinha no aplicativo.

O aplicativo não ajuda. Ele abre com trailer tocando alto, empilha fileira em cima de fileira e devolve a escolha para quem sentou justamente para não escolher. Vinte minutos depois ninguém apertou play e a janela da noite já perdeu um terço.

A segunda cobra outra conta, e ela é de gosto. Numa sala com quatro pessoas, quase sempre uma gosta de terror e as outras três aceitam com condição: nada de susto empilhado e nada de cena crua na hora de dormir.

Existe um motivo prático para a recusa. Terror de sobressalto trabalha por descarga: a cena arma, o som estoura, o corpo reage. Quem se deita nesse estado leva uma hora para desligar, e na segunda essa hora sai da terça.

Existe uma faixa do gênero que resolve a sala dividida, e ela não é o terror de perseguição. É o terror que se organiza como mistério: uma pergunta declarada nos primeiros dez minutos, pistas plantadas à vista e a resposta guardada para o terceiro ato.

A vantagem prática está no tipo de atenção que o formato cobra. Quem não gosta do gênero fica pela investigação, quem gosta fica pela ameaça, e as duas pessoas assistem ao mesmo filme sem que uma delas peça para desligar.

O programa de hoje é desse tipo, e nasceu de um roteiro guardado por anos por um autor que não acreditava que alguém fosse filmar. Custou menos de cinco milhões de dólares, devolveu mais de duzentos e cinquenta e cabe entre as nove e as onze da noite.

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I  O Programa de Hoje

A xícara, a colher e a poltrona

Terror com forma de mistério. Veja por que a sala inteira aguenta os 104 minutos.

O programa de hoje é Corra!, de Jordan Peele, na Netflix, 104 minutos. Play às 21h e créditos às 22h44. O filme está com dublagem em português e legenda, e a classificação é de 16 anos.

A premissa cabe em duas frases. Chris é fotógrafo, namora Rose há alguns meses e aceita passar o fim de semana na casa dos pais dela, no interior, para ser apresentado à família.

A recepção é calorosa demais. O pai é neurocirurgião e faz questão de dizer que votaria de novo no mesmo presidente, a mãe é hipnoterapeuta e oferece uma sessão antes de a mala ser desfeita.

Os dois empregados da casa são o primeiro sinal de que a conta não fecha. Eles respondem com meio segundo de atraso, sorriem fora do lugar e falam como quem repete um texto que alguém ensaiou com eles.

A cena que organiza o filme inteiro acontece na primeira noite, e não tem perseguição nenhuma. Tem uma poltrona, uma xícara de chá e uma colher girando na borda, e a partir dali o protagonista perde o comando do próprio corpo.

No dia seguinte a casa enche. Dezenas de convidados chegam para a confraternização anual da família, todos fazem o mesmo tipo de comentário e, no meio do jardim, corre um leilão com cartelas de bingo.

A virada chega perto da metade, e a resposta não é sobrenatural. É um arranjo, com procedimento, fila de espera e comprador, e a segunda metade do filme é a saída pelo mesmo caminho da entrada.

"Eu te falei para não entrar naquela casa."

Rod Williams, em Corra!, 2017

A produção explica o acabamento. O filme foi rodado no Alabama em cerca de vinte e três dias, e era a estreia de Jordan Peele na direção depois de uma década escrevendo humor para a televisão.

A década de humor aparece no lugar certo. Sempre que a tensão sobe demais, o filme corta para o amigo agente de aeroporto ao telefone, a sala ri, e a corda volta a esticar do começo.

O detalhe que importa para a sala dividida é a contagem de sustos. Corra! usa pouquíssimo sobressalto de som: o desconforto vem de conversa, de sorriso educado e de gente perguntando coisa demais.

A trilha de Michael Abels faz o aviso antes da primeira cena. O tema coral é cantado em suaíli e a letra manda o protagonista ouvir os antepassados e correr, então o filme entrega a instrução no primeiro minuto.

O fim que está na tela não é o primeiro que foi filmado. A versão original terminava com a chegada da polícia; Peele trocou o desfecho depois das sessões de teste, e a saída passou a ser o carro do amigo.

O reconhecimento veio no ano seguinte: quatro indicações ao Oscar de 2018 e uma estatueta, a de roteiro original, a primeira dessa categoria para um roteirista negro.

Um aviso honesto antes do play: o incômodo do filme é social, e não gráfico. Quem procura susto a cada dez minutos vai achar a primeira hora lenta.

Para a segunda, ele entrega o que a noite pede: pergunta declarada nos primeiros minutos, nada para decorar e créditos às 22h44, com tempo de sobra antes das onze.

 
 

II  Se a Noite Pedir Outra Coisa

Riso nervoso ou fôlego longo

A segunda não é escolhida pelo gosto, é escolhida pelo relógio da terça. A conta muda o programa inteiro: noventa e quatro minutos devolvem a sala antes das dez e meia, cento e trinta empurram os créditos para depois das onze e cobram atenção contínua.

Se a noite pedir mistério com riso junto, o programa é A Visita, de M. Night Shyamalan, no Prime Video, 94 minutos. Play às 21h e ponto final às 22h34.

Dois irmãos passam uma semana na casa dos avós que nunca conheceram, no interior da Pensilvânia, e a mais velha decide filmar a viagem inteira como documentário.

A regra da casa é uma só e ninguém explica direito: depois das nove e meia da noite, nenhuma criança sai do quarto. A avó, essa, continua acordada.

O filme alterna desconforto e piada quase na mesma cena. O irmão caçula interrompe a tensão com rap improvisado, e a sala que não gosta do gênero atravessa o filme rindo metade do tempo.

Foi rodado em formato de câmera na mão, com orçamento pequeno para o padrão de estúdio, e devolveu muitas vezes o custo.

Serve para a segunda em que a sala quer história fechada e cama cedo. Dá para levantar no meio, a explicação chega inteira e os 94 minutos devolvem a noite às 22h34.

Se a noite pedir fôlego, o programa é Não! Não Olhe!, também de Jordan Peele, na Netflix, 130 minutos. Play às 21h e ponto final às 23h10.

Dois irmãos herdam um rancho que aluga cavalos para o cinema, numa ravina da Califórnia. Alguma coisa fica parada na mesma nuvem, dia após dia, e eles decidem filmar em vez de sair de perto.

Daniel Kaluuya volta como protagonista, agora ao lado de Keke Palmer e Steven Yeun, e o filme é dividido em capítulos batizados com nome de bicho.

A fotografia é de Hoyte van Hoytema, e boa parte do filme foi rodada em câmera IMAX, coisa que nenhum terror tinha feito antes. A informação está quase sempre no canto do quadro, e o celular no colo custa o final.

A diferença de exigência é o que muda a noite. Não! Não Olhe! pede tela grande, som decente e atenção contínua, coisa que o programa de hoje não pede em nenhum minuto.

A diferença entre os dois está na saída, e nunca na qualidade. A Visita cabe em qualquer segunda. Não! Não Olhe! termina às 23h10 e rende meia hora de conversa depois dos créditos.

Regra de bolso para hoje: se a terça começa cedo, vá de A Visita. Se ninguém tem compromisso antes das dez da manhã, Não! Não Olhe! aproveita a hora extra e devolve alguma coisa em troca.

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III  Sai do Catálogo

Quem manda na data de saída

Corra! é um filme da Universal, e a Universal é o único grande estúdio sem serviço de assinatura próprio funcionando no Brasil. O catálogo dela vive, portanto, hospedado na casa de outra gente.

O que a Universal opera por aqui é o Universal+, vendido como canal adicional dentro do Prime Video e dentro de pacote de operadora. Ele não é catálogo geral de filme, e não segura a biblioteca inteira do estúdio.

A consequência prática aparece na fileira. O mesmo título passa por Netflix, Prime Video, Telecine e Globoplay em anos diferentes, e cada passagem tem contrato com data de início e data de fim.

A fileira que você vê no aplicativo é uma janela com prazo, e não uma prateleira de casa.

Onde a data aparece é a parte que quase ninguém procura. O serviço mantém uma fileira de saída, com nome do tipo últimos dias, e a ficha do título traz a linha de disponibilidade com o dia exato.

Aqui existe uma saída que nem todo catálogo oferece. A Universal coloca o filme para aluguel avulso nas lojas digitais, então há plano B no Prime Video, na Apple TV, no YouTube e no Google TV, na faixa de dez a quinze reais por 48 horas.

O aluguel resolve a noite, e não resolve a estante. A compra digital dura enquanto a loja existir e a licença continuar de pé, e o disco em Blu-ray é a única cópia que não depende de renovação de contrato.

A fileira Continuar Assistindo também não segura nada. Quando a janela fecha, a linha some e leva o seu progresso junto.

1. Antes do play, abra a ficha do título e procure a linha de disponibilidade. É ali que a data de saída aparece, e ela nunca aparece na capa da fileira.

2. Se a noite depende de um título específico, deixe o download pronto no fim da tarde. O arquivo é uma licença com prazo dentro do aplicativo, e ele expira junto com a janela do contrato.

3. Marque o filme na sua lista antes de fechar o aplicativo. É o único canal pelo qual o serviço avisa quando a data de saída entra na ficha.

O rodízio existe porque direito de exibição é vendido em fatia de tempo e de país, e nem o dono do filme abre mão de vender a própria janela.

Ficha conferida, download pronto e o relógio a favor: a segunda começa às 21h e termina às 22h44.

"Na sua sala, quem decide o programa quando o gosto de cada um não bate?"

 
 
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