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ED 036
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Dois policiais de interior contra um caso sem nome

São 132 minutos: play às 20h30, ponto final às 22h42, e um caso de 1986 que só teve resposta em 2019.

Vala de concreto na beira de um arrozal coreano ao anoitecer, estrada de terra ao fundo e céu encoberto.

Arrozal coreano na beira da estrada de terra

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“Meus olhos leem gente", diz o detetive Park Doo-man, sentado numa mesa de restaurante em frente à delegacia de Hwaseong, cigarro na mão e a pasta do inquérito ainda vazia. Ele acredita que basta encarar um homem por alguns segundos para saber se aquele homem mente. O filme sul-coreano de 2003 passa 132 minutos testando a frase, e o resultado do teste é a razão de a produção continuar sendo discutida duas décadas depois.

Policial de investigação costuma prometer método. O espectador entra esperando digital, laboratório, a peça que encaixa no fim, e o roteiro entrega uma linha reta da pista até a algema. Aqui a promessa se desfaz na primeira meia hora, porque a delegacia de província não tem laboratório, não tem quem isole a cena, não tem sequer capim intacto onde procurar rastro.

O ano importa para entender o desastre. A história começa em 1986, na província de Gyeonggi, com um país sob governo militar, tropa de choque ocupada em conter passeata na cidade grande e nenhum reforço sobrando para uma vila de arrozal. Quando a polícia finalmente pede exame de material biológico, a amostra viaja para um laboratório nos Estados Unidos e demora meses para voltar.

Bong Joon-ho filma o fracasso com duas temperaturas ao mesmo tempo. Tem comédia física de delegacia, chute voador de policial desastrado, gente escorregando na lama do arrozal, e tem o terror seco de uma noite de chuva com rádio tocando a mesma canção pedida. A câmera de Kim Hyung-koo abre em plano largo de campo dourado e fecha em bueiro de concreto, sempre com muita coisa acontecendo no fundo do quadro.

Para a mesa de casa, o aviso é honesto. Nenhuma agressão sexual aparece em cena, e ainda assim o filme mostra suspeitos apanhando no porão da delegacia, um interrogatório com o pé na cabeça do interrogado e um garoto que ninguém escuta até ser tarde. Quem quer conforto de série procedural vai estranhar o final, porque ele não entrega o culpado na bandeja.

O programa de hoje tem uma vala de concreto no meio do arrozal, um detetive de Seul que confia em documento, um trem que passa na hora errada e um homem de mãos macias que trabalha numa fábrica.

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I  O Programa de Hoje

Cento e trinta e dois minutos entre a vala do arrozal e o rosto comum

O programa de hoje é Memórias de um Assassino, disponível em serviço por assinatura e também por aluguel avulso nas lojas digitais, 132 minutos. Play às 20h30 e ponto final às 22h42. Direção de Bong Joon-ho, produção sul-coreana de 2003, falada em coreano com legenda em português.

O filme adapta a peça teatral de Kim Kwang-rim, escrita em 1996 sobre os crimes em série registrados em Hwaseong entre 1986 e 1991. Dez mulheres foram mortas na região naquele período, mais de mil e oitocentos suspeitos passaram por interrogatório, e o inquérito prescreveu em 2006 sem nenhuma condenação. Bong e Shim Sung-bo escreveram o roteiro entrevistando policiais que trabalharam no caso de verdade.

Song Kang-ho é Park Doo-man, o detetive local que fabrica prova quando a prova falta. Ele planta uma pegada de tênis, usa um xamã para escolher o próximo interrogado e delega ao colega Cho Yong-koo, vivido por Kim Roe-ha, a tarefa de arrancar confissão com botina no porão. Nada dessa rotina é apresentado como monstruosidade isolada, e sim como rotina de trabalho de gente que aprendeu a fechar caso desse jeito.

Kim Sang-kyung é Seo Tae-yoon, o detetive que chega de Seul por vontade própria, lê os arquivos até de madrugada e confia em documento onde o outro confia em olhar. A troca de posição entre os dois é o motor do filme: o homem do papel vai perdendo o chão conforme o caso resiste, e o homem do instinto começa a duvidar do próprio faro.

O ponto de virada é uma descoberta de escrivaninha. Seo cruza as datas dos crimes com o registro da rádio local e percebe que a mesma canção foi pedida em todas as noites de chuva em que uma mulher morreu, o que finalmente dá à investigação uma peça verificável em vez de palpite. A partir dali o filme muda de marcha e vira caçada de verdade.

"O rosto dele era comum."

Bong Joon-ho e Shim Sung-bo, Memórias de um Assassino, 2003

Park Hae-il aparece na última hora como o operário de fábrica com mãos limpas demais para quem trabalha em turno. A perseguição termina numa estação de trem, e o exame de material biológico enviado ao exterior volta com uma resposta que desmonta a certeza dos dois policiais na frente do público.

O plano final é o gesto mais famoso da produção. Anos depois, já fora da polícia e trabalhando com prensa de peças, Park volta à mesma vala do começo, olha para dentro do concreto, ouve de uma menina que outro homem esteve ali dias antes, e então encara diretamente a câmera. Bong disse em entrevistas que filmou aquele olhar imaginando que o responsável real poderia estar numa sala de cinema.

A vida imitou o roteiro em setembro de 2019, quando a polícia sul-coreana identificou Lee Choon-jae por reexame de material genético, dezesseis anos depois da estreia. Ele já cumpria prisão perpétua por outro crime, confessou uma sequência de casos e não pôde ser julgado pelos de Hwaseong por causa da prescrição.

 
 

II  Se a Noite Pedir Outra Coisa

Um zodíaco sem resposta ou uma abadia com o culpado no fim

Nem toda mesa aceita ficar 132 minutos sem receber um nome no fim. As duas saídas de hoje partem do mesmo problema, a investigação que não cabe nas ferramentas de quem investiga, e vão para lados opostos: uma cava fundo na obsessão sem desfecho, a outra fecha a conta e devolve a sala satisfeita.

Se a noite pedir a mesma investigação sem porto seguro, o programa é Zodíaco, disponível em serviço por assinatura e por aluguel avulso, 157 minutos. Play às 20h30 e ponto final às 23h07.

David Fincher reconstrói em 2007 a caçada ao autor das cartas cifradas enviadas à imprensa da Califórnia a partir de 1969. Jake Gyllenhaal é o cartunista de jornal que troca a própria vida pela pesquisa, Mark Ruffalo é o inspetor que perde o caso na fronteira entre jurisdições e Robert Downey Jr. é o repórter que afunda antes de todo mundo. O filme leva quatro décadas de calendário em duas horas e meia de tela.

A proximidade com o programa principal está no atrito burocrático. Nas duas histórias, a peça que resolveria tudo existe em algum lugar do sistema, dentro de um arquivo de outra cidade ou dentro de um envelope que atravessa o oceano, e o tempo administrativo trabalha contra o investigador. Fincher filma a demora com telefone, fax e formulário; Bong filma com estrada de terra e correio lento.

Se a noite pedir mistério com resposta no último ato, o programa é O Nome da Rosa, disponível por aluguel avulso nas lojas digitais, 130 minutos. Play às 20h30 e ponto final às 22h40.

Jean-Jacques Annaud dirige a adaptação de 1986 do romance de Umberto Eco, com Sean Connery como o frade franciscano que investiga mortes numa abadia italiana do século catorze e Christian Slater como o noviço que narra. A disputa é a de sempre, o homem do método e o poder que prefere culpar quem for mais fácil, só que ambientada numa biblioteca em labirinto e com desfecho fechado.

Regra de bolso para a noite: se a mesa aguenta terminar o filme discutindo, vá de Zodíaco. Se alguém na sala precisa de ponto final, O Nome da Rosa entrega o culpado, a explicação e o incêndio.

 

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III  Sai do Catálogo

Filme asiático premiado depende de janela curta e de restauração nova

Memórias de um Assassino ocupa uma faixa instável do catálogo brasileiro: produção asiática de mais de vinte anos, licenciada aqui por distribuidor independente, com contrato de exibição por prazo determinado. Nenhum serviço por assinatura é dono do título no Brasil, e cada janela tem data de início e data de fim que o assinante nunca enxerga na ficha.

A história de distribuição explica o sumiço. O filme circulou durante anos em cópia de qualidade ruim fora da Coreia, ganhou restauração em alta resolução e voltou às plataformas com legenda nova e imagem corrigida. Cada relançamento desse tipo cria um contrato novo, com prazo próprio, e quando o prazo vence a ficha desaparece do aplicativo sem aviso e sem mensagem.

Existe também a camada regional. O mesmo título pode estar num serviço no Brasil, em outro em Portugal e em nenhum na Argentina no mesmo dia, porque cada território é negociado separadamente, e a lista de faixas de áudio e legenda muda junto com o contrato.

O aluguel avulso é a saída estável porque é vendido por transação. A loja digital repassa ao detentor a cada compra, então a página permanece de pé mesmo quando nenhuma assinatura carrega o filme, e costuma oferecer aluguel de 48 horas e compra definitiva lado a lado, com preço diferente para alta definição.

Cinema coreano pede atenção extra na ficha técnica antes do jantar. Dublagem em português é rara nesse catálogo, a legenda às vezes vem traduzida do inglês em vez do coreano, e a mesa que não quer ler precisa conferir a ficha antes do play, porque descobrir a ausência de dublagem com a pipoca já feita atrapalha o começo da noite.

1. Procure ainda de tarde no catálogo de assinatura, porque produção asiática premiada entra e sai de serviço em ciclo curto, e a lembrança de ter visto o título por lá no ano passado não garante que a ficha continue disponível hoje.

2. Busque pelo nome em português e também pelo original em coreano transliterado, porque o aplicativo às vezes indexa a versão brasileira apenas na página de aluguel e a original apenas no catálogo de assinatura.

3. Se nenhum serviço contratado carregar o filme, resolva pelo aluguel avulso nas lojas digitais, na faixa de cinco a quinze reais pelas 48 horas, que entrega alta definição e legenda em português no mesmo arquivo.

O embaralhamento acontece porque o distribuidor vende catálogo estrangeiro por prazo curto e porque o serviço renova primeiro os títulos que aparecem no relatório de audiência do trimestre, e um policial coreano de 2003 raramente aparece nesse relatório sem um empurrão de festival ou de retrospectiva.

Play às 20h30, ponto final às 22h42, e dois policiais que passam o filme inteiro procurando um rosto que não tem nada de especial.

"Quantas certezas suas hoje foram construídas em cima de um olhar de três segundos?"

Na próxima edição: a fábrica de brinquedos que virou personagem numa animação sobre lixo espacial.

 
 

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