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Don Draper chama de carrossel a roda da Kodak

Mad Men, de Matthew Weiner, 2007: no fim da primeira temporada, um projetor de slides vira retrato de uma família indo embora.

Projetor de slides aceso numa sala de reunião escura dos anos 1960.

O projetor aceso na sala escura da agência

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Na sala de reuniões da agência Sterling Cooper, em Nova York, Don Draper apaga a luz e avisa aos dois executivos da Kodak: “Este aparelho não é uma nave espacial, é uma máquina do tempo”. Na parede branca, aparece a primeira foto.

Os visitantes vieram de Rochester, a cidade da fábrica, com um projetor de slides novo. A peça gira uma bandeja redonda cheia de fotos, e os engenheiros da empresa a chamam de roda. Eles querem uma campanha que fale de tecnologia.

Don não fala de tecnologia. Aperta o controle, e a parede mostra um casal jovem num parque, depois a mesma moça grávida, depois duas crianças pequenas num aniversário. O casal é ele e a esposa, Betty. As crianças são os filhos dele, Sally e Bobby.

Enquanto os slides passam, ele conta do primeiro emprego, numa empresa de peles, onde um redator grego mais velho chamado Teddy lhe ensinou uma palavra. Nostalgia junta nostos (a volta, em grego) e algos (a dor), e quer dizer a dor de uma ferida antiga.

Don diz que a dor é delicada, mas potente, e aperta o controle de novo. Betty de vestido de festa. Don com a filha no colo. Os quatro na sala de casa, sorrindo pra câmera.

No fundo da sala, Harry Crane, o chefe da área de televisão da agência, levanta antes do fim e sai com os olhos molhados. A esposa dele o pôs pra fora de casa poucos dias antes, depois de descobrir uma traição.

Quem assiste sabe o que os clientes não sabem. Don passou a temporada inteira chegando tarde, com amantes na cidade e mentiras prontas pra cada noite fora. As fotos da parede mostram uma casa que ele mesmo abandonou aos poucos.

No fim da apresentação, Don dá o nome ao aparelho. Não se chama roda, diz ele. Chama-se carrossel, porque leva a gente pra trás e pra frente, até o lugar onde dói voltar. A luz acende, e ninguém da Kodak fala nada por alguns segundos.

A seção I mostra o episódio inteiro, o parto inesperado da secretária Peggy Olson no mesmo dia e a casa vazia que espera Don no feriado.

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I  O Programa de Hoje

Uma bandeja redonda de slides

A resposta de ontem

Qual primeiro nome aparece no distintivo de Columbo?

Frank. O distintivo do tenente aparece em close no episódio Dead Weight, de 1971, e traz o primeiro nome Frank. Nenhum personagem pronuncia esse nome em cena, e os suspeitos seguem chamando o detetive de tenente até a prisão.

Na tela de hoje entra The Wheel (em português, a roda), o 13º e último episódio da primeira temporada de Mad Men, com 47 minutos. Começa às 20h30 e os créditos sobem às 21h17.

A AMC exibiu o episódio em 18 de outubro de 2007. O roteiro é de Matthew Weiner, o criador da série, com Robin Veith, e a direção ficou com o próprio Weiner. Os dois levaram o Emmy de roteiro de série dramática em 2008 por este capítulo.

Jon Hamm faz Don Draper, o diretor de criação da Sterling Cooper. January Jones vive Betty, Elisabeth Moss é Peggy Olson e Vincent Kartheiser faz Pete Campbell, o executivo de contas ambicioso que vive tentando agradar o sogro.

A história se passa em novembro de 1960, na semana do Dia de Ação de Graças (o feriado americano da última quinta de novembro, de mesa farta e família reunida). Betty planeja viajar com as crianças pra casa da família dela e espera ouvir se o marido vai junto.

A ferida antiga em grego

O roteiro de Weiner gasta o episódio montando a cena da Kodak. Don passa dias sem ideia, ouve os executivos repetirem que o aparelho é novidade técnica e decide vender o oposto: um objeto pra voltar no tempo.

“Nostalgia, é delicada, mas potente” (Don Draper, Mad Men, episódio The Wheel, 2007).

Don vende o projetor com a única família que ele próprio deixou de frequentar.

Na mesma semana, Peggy Olson, a secretária promovida a redatora júnior durante a temporada, sente dores fortes na barriga e vai parar no hospital. Lá, descobre que está em trabalho de parto. Ela não sabia da gravidez, ou fingia pra si mesma que não sabia.

Peggy dá à luz um menino e se recusa a pegar o bebê no colo. O pai é Pete Campbell, com quem ela dormiu no começo da temporada, e ele não fica sabendo de nada nesta temporada. O segredo só se abre entre os dois na segunda temporada.

O sucesso da reunião também rende frutos pra Peggy. Antes do parto, Don a escala pra campanha do Clearasil, o creme contra espinhas que Pete trouxe à agência pela empresa do sogro. É o primeiro trabalho dela com nome de redatora na porta.

Depois da Kodak, Don volta pra casa imaginando outra cena. Na cabeça dele, chega a tempo, Betty sorri na porta e os quatro entram no carro pro feriado. O episódio mostra essa chegada como se fosse real.

Em seguida, corta pra chegada de fato. A casa está escura e vazia. Betty já levou Sally e Bobby pra família dela, sem esperar. Don senta no degrau da escada, sozinho, enquanto toca Don't Think Twice, It's All Right (em português, não pense duas vezes, está tudo bem), de Bob Dylan.

A temporada termina com o homem que vendeu a lembrança de uma família olhando pra um corredor sem ninguém.

 
 

II  Se a Noite Pedir Outra Coisa

Duas máquinas de lembrar

Se a noite pedir outro caminho, dois filmes tratam a memória como um aparelho que se liga e desliga, um italiano e outro americano.

O primeiro é Cinema Paradiso, de Giuseppe Tornatore, 1988, na versão internacional de 124 minutos. Começa às 20h30 e termina às 22h34.

Jacques Perrin vive Salvatore Di Vita, cineasta famoso em Roma que recebe um telefonema da mãe. Alfredo, o projecionista do cinema de Giancaldo, a cidadezinha siciliana onde Salvatore cresceu, se foi. Salvatore volta pro enterro depois de 30 anos longe.

O filme então recua até a infância dele, quando o menino Totò, vivido por Salvatore Cascio, passava as tardes na cabine de projeção com Alfredo, papel de Philippe Noiret. O padre da cidade assistia a cada filme antes da sessão e mandava cortar todos os beijos.

Um incêndio na cabine, causado pelo filme de nitrato (o material inflamável das películas antigas), deixa Alfredo cego. Totò assume o projetor ainda criança, e Alfredo o empurra pra sair da cidade e não voltar.

No enterro, Salvatore recebe de herança um rolo de filme com todos os beijos que o padre cortou.

Cinema Paradiso levou o Grande Prêmio do Júri em Cannes, em 1989, e o Oscar de filme estrangeiro em 1990.

O segundo é Brilho Eterno de uma Mente sem Lembranças, de Michel Gondry, 2004, com 108 minutos. Começa às 20h30 e termina às 22h18.

Jim Carrey é Joel Barish, um homem tímido que descobre que a ex-namorada, Clementine Kruczynski, vivida por Kate Winslet, apagou as lembranças dele numa clínica chamada Lacuna. Joel encomenda o mesmo serviço pra esquecê-la.

Durante a noite do procedimento, as memórias somem de trás pra frente, da briga final ao primeiro encontro. No meio do caminho, Joel desiste e tenta esconder Clementine em lembranças da própria infância, onde a máquina não procura.

O roteiro de Charlie Kaufman ganhou o Oscar de roteiro original em 2005. O título em inglês sai de um verso do poema Eloisa to Abelard, de Alexander Pope, publicado em 1717.

Para escolher: quem quer chorar com cinema dentro do cinema vai de Cinema Paradiso; quem prefere um romance montado como quebra-cabeça vai de Brilho Eterno.

 

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III  Sai do Catálogo

O carrossel chegou em 1961

Mad Men muda de plataforma no Brasil com frequência. Busque por Mad Men e confira primeira temporada, episódio 13, The Wheel, antes do play.

A série teve sete temporadas e 92 episódios entre 2007 e 2015, todos na AMC, um canal a cabo que até então vivia de reprise de filme antigo. Ganhou o Emmy de melhor série dramática quatro anos seguidos, de 2008 a 2011.

Weiner escreveu o piloto por volta de 2000, quando era roteirista da comédia Becker. A HBO recusou o projeto, mas o texto chegou a David Chase, que contratou Weiner pra equipe de Família Soprano.

Jon Hamm concorreu ao Emmy de ator dramático oito vezes pelo papel e só levou o prêmio em 2015, pela última temporada.

O projetor de Rochester

A Kodak lançou o projetor Carousel em 1961, um ano depois da semana em que o episódio se passa. O nome não saiu da cabeça de Don: a própria Kodak batizou o aparelho assim.

O projeto foi do engenheiro David E. Hansen. A bandeja redonda guardava 80 slides e descia cada foto por gravidade, o que evitava os travamentos dos modelos retos da época.

A Kodak parou de fabricar os projetores Carousel em 2004, quando a fotografia digital já tinha tomado o lugar do slide nas casas e nas salas de reunião.

1. No começo, repare em quantas vezes os executivos da Kodak dizem a palavra roda antes da reunião.

2. Na metade, acompanhe Harry Crane no fundo da sala e o momento em que ele levanta.

3. No fim, olhe pra escada vazia da casa de Ossining, o subúrbio onde Don mora.

Às 20h30, 47 minutos de um homem vendendo a família que está perdendo.

O personagem vende lembrança de família com um nome emprestado. Don Draper nem é o nome dele de nascença: o publicitário trocou de identidade com um oficial na Guerra da Coreia, e Betty não sabe.

Fica a pergunta  ·  até amanhã

Qual era o nome de batismo de Don Draper antes da troca de identidade na Guerra da Coreia?

 
 
Quiz da edição

No episódio The Wheel, por que Harry Crane se levanta antes do fim da apresentação da Kodak e sai da sala com os olhos molhados?

APorque a Kodak cancelou a campanha do carrossel
BPorque foi demitido da área de televisão da agência
CPorque a esposa o expulsou de casa dias antes, ao descobrir uma traição dele
DPorque descobriu que Don estava tendo um caso com a esposa dele

Veja o ranking de quem mais acerta →

 
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Maratona dos 7 dias finais

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Dia 3 de 7 · a temporada de outubro fecha 31/10

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