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Entre Facas e Segredos ocupa a sexta em 130 minutos
O mistério divertido que abre o fim de semana: play às 21h na Netflix, créditos às 23h10, e duas saídas nomeadas por humor.
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A poltrona cercada de facas, antes da conversa
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São 21h de uma sexta. A semana acabou faz duas horas, a caixa de pizza está aberta em cima da mesa de centro e, pela primeira vez em cinco dias, não tem despertador marcado pra manhã seguinte. A noite é grande, e é justamente por ser grande que ela costuma escorrer inteira.
Sexta tem um problema que terça não tem: sobra tempo. De segunda a quinta a janela é curta, e a janela curta decide sozinha, porque só cabe uma coisa. Na sexta cabem três, e a escolha some no meio da rolagem.
O aplicativo aproveita a folga. Ele abre com trailer tocando sozinho, empilha fileira em cima de fileira e devolve a decisão pra quem sentou justamente pra não decidir. O tempo gasto ali não sai do sono, sai do programa: quarenta minutos escolhendo viram um filme começando às dez pra quem queria começar às nove.
Existe um gênero que resolve a sexta melhor do que qualquer outro, e ele não é o mais premiado nem o mais pesado. É o mistério de casa fechada: uma família grande, um herdeiro a menos, todo mundo com motivo e um detetive que faz as perguntas no lugar de quem está no sofá.
A vantagem prática do gênero é que ele funciona com o cérebro em rotação baixa. Dá pra tentar adivinhar antes do detetive, ou dá pra deixar correr e receber a resposta pronta no fim. Nos dois modos o filme entrega começo, meio e fim dentro da mesma sessão, sem nada anotado pra depois.
O programa de hoje é um desses, e o detalhe que o separa do resto do gênero não é o detetive, é a testemunha. A investigação inteira gira em torno de uma pessoa que, por uma condição física, não consegue mentir. Está na Netflix, e a duração cabe na sexta com folga de sobra.
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I O Programa de Hoje
O detetive que ninguém contratou
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Uma família rica reunida numa mansão, um escritor de 85 anos com o escritório trancado e um detetive que aparece sem cliente. Nenhum contexto pedido, nada anterior pra lembrar. Veja por que o programa de hoje devolve a sala às 23h10.
O programa de hoje é Entre Facas e Segredos, de Rian Johnson, na Netflix, 130 minutos. Play às 21h e créditos às 23h10. Quem não assina o serviço encontra o filme pra alugar no Prime Video, na Apple TV e no YouTube, com 48 horas de prazo depois do primeiro play.
Harlan Thrombey tem 85 anos, escreve romances policiais desde novo e comanda a editora que sustenta a família inteira. Na noite do próprio aniversário, ele reúne filhos, genro, nora e netos na mansão em Massachusetts. Na manhã seguinte, a governanta encontra a porta do escritório do sótão trancada.
A polícia local fecha o caso rápido e trata tudo como um fim escolhido pelo próprio Harlan. Uma semana depois, dois investigadores voltam pra uma rodada de rotina, e um terceiro homem está sentado no canto da sala, batendo uma tecla só do piano.
Benoit Blanc é detetive particular, tem sotaque carregado do sul dos Estados Unidos e apareceu ali sem dizer quem o chamou. Alguém deixou um envelope com dinheiro e um recorte de jornal no escritório dele, sem bilhete. Ele aceita o trabalho sem saber pra quem trabalha.
A peça que faz o filme girar é Marta Cabrera, a enfermeira que cuidava de Harlan todos os dias. Ela tem uma condição incomum: mentir faz ela vomitar, na hora, sem exceção. O roteiro entrega essa regra ao público nos primeiros minutos e passa as duas horas seguintes cobrando a conta.
A partir de um certo ponto o filme troca de jogo sem avisar. Ele para de perguntar quem foi, conta pra plateia o que aconteceu bem antes da metade, e a tensão passa a ser outra: se a verdade que você já sabe vai aparecer ou não.
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"A complexidade e o cinza não estão na verdade, mas no que você faz com ela depois de tê-la."
Benoit Blanc, em Entre Facas e Segredos, 2019
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Rian Johnson carregava a ideia desde 2005 e só sentou pra escrever em 2018, depois de entregar Star Wars: Os Últimos Jedi. Foram cerca de seis meses de roteiro e quarenta dias de filmagem, quase todos dentro de uma casa de verdade em Massachusetts, a Ames Mansion, em Easton.
O filme custou 40 milhões de dólares e passou de 300 milhões em bilheteria mundial. Rendeu indicação ao Oscar de roteiro original em 2020 e três indicações ao Globo de Ouro, incluindo Daniel Craig e Ana de Armas.
A duração trabalha a favor da sexta por um motivo estrutural. Os 130 minutos estão divididos em depoimentos curtos, um por parente, cada um com o próprio flashback. Nenhum bloco passa muito de dez minutos, e a atenção reinicia sozinha a cada troca de cadeira.
Um aviso honesto antes do play: a graça depende de você não saber o que vem. Se alguém na sala já viu, combine que a pessoa fica calada, e não procure o nome do filme na internet antes de sentar: a primeira linha de quase todo resumo entrega a virada.
Para as outras sextas, ele entrega exatamente o que a noite grande pede: regra clara, elenco reconhecível e ponto final às 23h10, com o sábado inteiro ainda de pé.
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II Se a Noite Pedir Outra Coisa
Mistério no Mediterrâneo ou Garota Exemplar
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A sexta é a única noite da semana em que o programa pode passar das onze sem cobrar nada de manhã. Essa folga muda a escolha inteira: quem decide não é o gosto, é a quantidade de cabeça que sobrou depois de cinco dias.
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Se a sexta pedir leve, o programa é Mistério no Mediterrâneo, de Kyle Newacheck, na Netflix, 97 minutos. Play às 21h e ponto final às 22h37, bem antes das onze.
Adam Sandler e Jennifer Aniston fazem um casal de Nova York que ganha uma viagem à Europa e acaba dentro de um iate cheio de milionário. O dono do barco reúne todo mundo pra anunciar quem fica com a fortuna, a luz apaga, e o casal americano vira o principal suspeito.
Mesma matéria do programa de hoje, herança, família rica e sala fechada, com o peso trocado. O filme não pede que você acompanhe pista nenhuma, o mistério serve de desculpa pra piada de casal, e a explicação final cabe em dois minutos.
Ele é original da Netflix e foi um dos mais vistos do serviço no ano de estreia, em 2019, o que explica a continuação de 2023. Nenhuma das duas depende da outra.
Serve pra sexta em que a semana já cobrou o bastante. Dá pra rir alto, olhar o celular no meio e voltar sem perder nada da história.
Se a sexta pedir pesado, o programa é Garota Exemplar, de David Fincher, no Disney+, 149 minutos.
Ben Affleck faz um marido que chega em casa e encontra a sala revirada e a mulher fora. Rosamund Pike faz Amy, a mulher que sumiu. O caso vira circo nacional em três dias, e o filme passa a acompanhar duas coisas ao mesmo tempo: a investigação e a plateia que julga tudo pela TV.
O desconforto aqui é frio. Fincher filma em luz apagada e câmera parada, sem trilha empurrando emoção, e a virada do meio reorganiza tudo o que você achou que tinha entendido até ali. Rosamund Pike foi indicada ao Oscar de atriz pelo papel, em 2015.
A diferença entre as duas está na saída, e nunca na qualidade. Mistério no Mediterrâneo devolve você pro travesseiro leve. Garota Exemplar deixa assunto pendente e rende meia hora de conversa depois dos créditos.
Uma regra de bolso pra hoje: se a semana foi longa e a vontade é de não pensar, vá de Mistério no Mediterrâneo. Se a sexta é daquelas em que o sono só chega depois da uma, Garota Exemplar aproveita a folga do sábado e termina às 23h29 sem cobrar nada de ninguém.
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