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Era uma Vez em Tóquio e a visita que ninguém esperava
Yasujiro Ozu, 1953, 136 minutos: play às 20h30 e dois pais idosos atravessando o Japão.
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Shukichi e Tomi diante do mar em Atami
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Ajoelhado no tatame (esteira de palha que forra o chão das casas japonesas) da casa em Onomichi, cidade portuária do sul do Japão, Shukichi Hirayama fecha a mala e diz à mulher: "Achei que a almofada estava com você." Tomi procura na mala, não acha, e a vizinha passa na janela para desejar boa viagem. A almofada é de ar, para aguentar o trem. O casal vai a Tóquio pela primeira vez visitar os filhos adultos, uma viagem de uma noite inteira sentados no vagão. Na capital moram Koichi, médico de bairro, e Shige, dona de um salão de beleza. Mora também Noriko, a nora viúva, casada com o filho do meio, Shoji, que sumiu na guerra oito anos antes e nunca voltou. Os dois filhos recebem os pais com educação e uma agenda cheia. O passeio de domingo cai porque Koichi tem um paciente. Shige oferece chá e reclama do preço do bolo que o marido comprou. O filme se chama Era uma Vez em Tóquio, título original Tōkyō Monogatari (história de Tóquio), lançado em 1953 pelo estúdio Shochiku. Tem 136 minutos, é em preto e branco, foi dirigido por Yasujiro Ozu e traz Chishu Ryu como Shukichi, Chieko Higashiyama como Tomi e Setsuko Hara como Noriko. Chishu Ryu tinha 48 anos quando fez o pai de mais de setenta. Curvou as costas, arrastou os pés e falou devagar do começo ao fim. A câmera de Ozu fica baixa, na altura de quem está sentado sobre os joelhos, e quase nunca anda. Os atores entram e saem de um quadro parado, e os corredores vazios, os varais e as chaminés ganham planos inteiros só para eles. Quem aperta o play às 20h30 chega ao último apito de navio perto das 22h46, com a sala escura e a pipoca fria. O Programa de Hoje segue a visita dia a dia, das camas cedidas de má vontade até a viagem de volta que termina em Onomichi com a família inteira reunida pela última vez. Continue lendo ↓ |
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I O Programa de Hoje
I, Dois velhos numa cidade sem lugar para eles
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O programa de hoje é Era uma Vez em Tóquio, drama japonês de 1953 dirigido por Yasujiro Ozu, 136 minutos, disponível para aluguel e compra nas lojas digitais de filmes e em edições em disco. Play às 20h30 e ponto final às 22h46.
Shukichi e Tomi dormem no andar de cima da casa de Koichi. O neto mais velho reclama porque perdeu a escrivaninha para os avós, e o mais novo se recusa a sair para passear com a avó.
Noriko, a única sem laço de sangue com o casal, é quem tira um dia de folga no escritório. Leva os sogros num ônibus de turismo pela cidade e depois ao apartamento dela, um quarto só, onde pede saquê emprestado à vizinha para servir o jantar.
Shige e Koichi juntam dinheiro e mandam os pais para Atami, cidade de águas termais perto de Tóquio. O hotel é barato e cheio de jovens. A noite tem música, jogo de mahjong (jogo chinês de peças) e festa no corredor, e os dois não dormem.
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Na manhã seguinte, sentados no muro do hotel diante do mar, Shukichi e Tomi decidem voltar para casa antes do prazo. Chegam ao salão de Shige sem avisar, e a filha, com uma reunião marcada naquela noite, deixa claro que não há onde os dois dormirem.
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O casal se separa na rua. Tomi vai dormir no apartamento de Noriko e, no escuro, pede à nora que se case de novo e não fique presa à memória de Shoji.
Shukichi procura dois amigos antigos de Onomichi, Numata e Hattori. Os três bebem saquê num bar e trocam queixas sobre os filhos. Tarde da noite, um policial ajuda Shukichi e Numata a chegarem bêbados ao salão de Shige.
Na viagem de volta, Tomi passa mal no trem, e o casal desce em Osaka, onde mora Keizo, o filho mais novo, funcionário da ferrovia. Ela melhora e seguem até Onomichi.
Dias depois, chega a Tóquio o telegrama de Kyoko, a caçula, professora que mora com os pais: Tomi está muito doente. Koichi, Shige e Noriko pegam o trem. Tomi morre durante a madrugada, sem acordar.
Depois do enterro, Shige pede o quimono de linho da mãe como lembrança, e os filhos voltam no primeiro trem. Noriko fica mais uns dias. Shukichi dá a ela o relógio de Tomi e diz que ela foi mais gentil com eles do que os próprios filhos.
O filme termina com Shukichi sozinho na sala, abanando-se, enquanto um navio passa no porto.
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II Se a Noite Pedir Outra Coisa
II, Uma filha que não quer casar e um casal que perde a casa
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As duas saídas desta noite contam famílias que se desfazem sem briga, uma pelo casamento de uma filha, outra pela conta do banco.
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Se a noite pedir mais Ozu, o programa é Pai e Filha, título original Banshun (fim de primavera), filme de 1949, 108 minutos, com edições em disco e em lojas digitais. Play às 20h30 e ponto final às 22h18.
Chishu Ryu faz o professor Shukichi Somiya, viúvo de Kamakura. Setsuko Hara faz Noriko, a filha de 27 anos que cuida dele e não quer sair de casa. A tia arranja um pretendente, e o pai finge que vai casar de novo para empurrar a filha para o próprio casamento.
A ponte com o programa principal está no elenco e no nome. Ozu usou Chishu Ryu e Setsuko Hara de novo, e chamou a personagem de Hara de Noriko nas duas histórias. A cena final de Pai e Filha, o pai sozinho em casa depois da festa descascando uma maçã, prepara o homem abanando-se na sala de Onomichi.
Se a noite pedir a história que inspirou Ozu, o programa é A Cruz dos Anos, título original Make Way for Tomorrow (abram caminho para o amanhã), filme americano de Leo McCarey de 1937, 91 minutos, encontrado em edições em disco. Play às 20h30 e ponto final às 22h01.
Barkley e Lucy Cooper (Victor Moore e Beulah Bondi) perdem a casa para o banco depois de cinquenta anos de casamento. Os cinco filhos não conseguem abrigar os dois juntos, e o casal é separado: ela vai para a sala de um filho em Nova York, ele para o sofá de uma filha em outra cidade.
O roteirista Kogo Noda, parceiro de Ozu, tinha visto o filme de McCarey e propôs adaptar a premissa ao Japão do pós-guerra. No filme americano o último encontro do casal é uma tarde em Nova York, revisitando o hotel da lua de mel, até o trem que leva Barkley para a Califórnia.
McCarey ganhou o Oscar de direção em 1938 por Cupido É Moleque Teimoso. No palco, disse que a Academia tinha premiado o filme errado.
Regra de bolso: se a casa quer ver o mesmo Ozu em escala menor, com humor e casamento, vá de Pai e Filha. Se a casa aguenta um choro americano direto, sem a distância da câmera parada, vá de A Cruz dos Anos.
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