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Experimento caseiro que sai do controle, em 121 minutos.
O programa de hoje é Ícaro, de Bryan Fogel, na Netflix, 121 minutos. Play às 21h e créditos às 23h01. O filme tem legenda e dublagem em português, e boa parte dos diálogos acontece em russo, então a legenda resolve mais do que a dublagem.
A premissa começa pequena. Bryan Fogel é ciclista amador e disputa a Haute Route, uma prova de sete dias nos Alpes que quem faz por esporte descreve como a versão sofrida do Tour de France.
Ele quer provar uma tese incômoda. Se o controle antidoping do esporte é tão bom quanto anuncia, ele não deveria conseguir se dopar, competir e passar limpo pelos exames.
O plano é virar a própria cobaia. Fogel se filma aplicando as injeções em casa, com a câmera apoiada na bancada da cozinha, e registra cada exame de sangue como quem anota gasto de supermercado.
O primeiro consultor recua. O médico americano que aceitaria orientá-lo se afasta do projeto e indica outro nome, um cientista russo que, segundo ele, sabe o assunto melhor do que qualquer pessoa viva.
O outro nome é Grigory Rodchenkov, diretor do laboratório antidoping de Moscou. Ele atende as chamadas de vídeo de casa, de camiseta, com o cachorro passando no quadro, e trata o experimento com o entusiasmo de quem finalmente achou um aluno.
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"Se você quer guardar um segredo, você precisa escondê-lo também de si mesmo."
George Orwell, 1984, 1949
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A troca de assunto acontece diante da câmera. Em maio de 2016, uma reportagem do New York Times publica a acusação de que o laboratório chefiado por Rodchenkov operava um esquema de Estado para trocar amostras de urina de atletas russos.
O consultor vira personagem central. Rodchenkov sai da Rússia às pressas, chega aos Estados Unidos e passa a contar, para a mesma câmera que filmava a bicicleta, como o esquema funcionava por dentro.
O método é o detalhe que a sala não esquece. Nos Jogos de Inverno de Sochi, em 2014, os frascos supostamente invioláveis eram passados por um buraco aberto na parede entre duas salas, abertos com uma ferramenta desenvolvida por agentes de inteligência e devolvidos cheios de urina limpa guardada meses antes.
A conta que veio depois é pública. O relatório de Richard McLaren, encomendado pela agência mundial antidoping, apontou mais de mil atletas russos beneficiados entre 2011 e 2015, e a Rússia foi impedida de competir sob a própria bandeira nos Jogos seguintes.
O filme cobra atenção emocional na reta final. Rodchenkov entra em programa de proteção a testemunhas, e dois dirigentes da agência antidoping russa foram encontrados sem vida em duas semanas de dezembro de 2015, coisa que o documentário registra sem transformar em suspense barato.
O acabamento explica o Oscar. Ícaro levou a estatueta de melhor documentário em 2018, a primeira da Netflix na categoria, e foi comprado no Festival de Sundance por uma cifra na casa dos milhões.
Para a sexta, o encaixe é exato. O filme abre engraçado, entrega a virada com a sala já sentada e devolve a noite às 23h01, com o sábado inteiro pela frente para digerir o que acabou de acontecer.
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