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O Auto da Compadecida cabe na quinta em 104 minutos
A comédia do sertão que resolve a quinta sem exigir concentração: play às 21h05 no Globoplay, créditos às 22h49, e duas saídas por humor.
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A dupla do sertão antes do primeiro golpe
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São 21h de uma quinta. O jantar já saiu da mesa, a semana ainda tem um dia inteiro pela frente e a vontade que sobra depois de quatro dias seguidos não dá para um programa que cobra atenção. A noite existe, mas ela chega com a bateria no fim.
Quinta tem um problema que sábado não tem: a cota de decisão já foi gasta. Das oito da manhã às seis da tarde foram dezenas de escolhas pequenas, e a fileira de capas do aplicativo pede mais uma bem na hora em que ninguém quer decidir nada.
O aplicativo não ajuda. Ele abre com trailer tocando sozinho, empilha capa em cima de capa e devolve a decisão para quem sentou justamente para não decidir. Meia hora escolhendo vira um filme começando às dez para quem levanta às seis na sexta.
E existe um segundo custo, menos óbvio. Programa que exige concentração na quinta cobra duas vezes: você para no meio para lembrar quem é quem, volta dez minutos atrás e termina bem mais tarde do que tinha planejado quando sentou.
Existe um formato que resolve a quinta melhor que os outros, e ele não é o filme de trama fechada. É a comédia de golpe: um trapaceiro pobre, uma cidade pequena e uma sequência de armações curtas, cada uma com começo, meio e fim dentro dela mesma.
A vantagem prática está na atenção que o formato cobra. Cada golpe se resolve em dez ou quinze minutos. Se você olhar o celular no meio de um, o próximo começa limpo, e nada do que ficou para trás faz falta na cena seguinte.
O programa de hoje é um desses, e ele nasceu de uma peça de teatro escrita em 1955 no interior da Paraíba: dois pobres do sertão, um cachorro enterrado em latim, um gato vendido como máquina de fazer dinheiro e um julgamento no fim que troca o tom da história inteira. Está no Globoplay e cabe na quinta com folga.
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I O Programa de Hoje
O cachorro enterrado em latim
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Dois pobres do sertão e uma sequência de armações curtas. Veja por que o programa devolve a sala às 22h49.
O programa de hoje é O Auto da Compadecida, de Guel Arraes, no Globoplay, 104 minutos. Play às 21h05 e créditos às 22h49. Quem não assina o serviço encontra o filme para alugar no Prime Video, na Apple TV e no YouTube, com 48 horas de prazo depois do primeiro play.
João Grilo e Chicó são dois pobres de Taperoá, cidade pequena no sertão da Paraíba, e vivem de armação miúda. Matheus Nachtergaele faz o primeiro, Selton Mello faz o segundo, e a dupla carrega o filme do primeiro ao último minuto.
A história vem de uma peça de Ariano Suassuna, escrita em 1955, que juntou três histórias do cordel nordestino num auto só. Guel Arraes assina o roteiro com Adriana Falcão e João Falcão.
O primeiro golpe é o mais lembrado de todos. O padeiro e a mulher querem enterro de gente para o cachorro de estimação, com padre, latim e testamento lido em voz alta, e João Grilo monta a cena inteira em cima da vaidade dos dois.
O segundo golpe é um gato vendido como máquina: o bicho, segundo o vendedor, devolve moeda em vez de sujeira. Denise Fraga e Diogo Vilela fazem o casal que compra a história sem pestanejar.
Marco Nanini entra como Major Antônio Morais, o dono de quase tudo na cidade, e cada poderoso de Taperoá vira alvo de uma armação diferente.
O terceiro golpe é o que vira o jogo. Quando Severino de Aracaju chega com o bando, João Grilo inventa uma gaita que traz gente de volta, e a mentira funciona por tempo demais até para o gosto de quem contou.
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"Não sei, só sei que foi assim."
Chicó, em O Auto da Compadecida, 2000
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O último terço muda de registro sem avisar. A história sai de Taperoá e vai parar num julgamento, com o Encourado na acusação e Nossa Senhora na defesa, e Fernanda Montenegro faz a Compadecida do título.
Antes do cinema, a história foi ao ar na televisão em quatro capítulos, em janeiro de 1999, com filmagem em Cabaceiras, na Paraíba. A versão que estreou nas salas em setembro de 2000 é a montagem enxuta do mesmo material, e passou de dois milhões de espectadores.
A duração trabalha a favor da quinta por um motivo estrutural. Os 104 minutos guardam o ritmo de capítulo: cada golpe abre e fecha em bloco curto, e a atenção reinicia várias vezes ao longo do filme.
Um aviso honesto antes do play: o sotaque é fechado e o diálogo corre rápido. Quem não tem ouvido treinado no falar do sertão resolve ligando a legenda em português.
Para as quintas, ele entrega exatamente o que a noite pede: piada curta, nada para decorar e créditos às 22h49, com a sexta inteira ainda de pé.
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II Se a Noite Pedir Outra Coisa
Lisbela ou Central do Brasil
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A quinta é a última noite útil da semana, e quem escolhe o programa não é o gosto, é a energia que sobrou de quatro dias seguidos. A conta muda a escolha inteira: leve devolve você cedo para o travesseiro, pesado usa a hora extra e cobra atenção que a quinta talvez não tenha.
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Se a quinta pedir leve, o programa é Lisbela e o Prisioneiro, do mesmo Guel Arraes, no Globoplay, 106 minutos. Play às 21h05 e créditos às 22h51.
Leléu é um contador de vantagem que roda o interior de Pernambuco atrás de plateia e de mulher bonita. Selton Mello faz o papel, e o personagem é primo direto do Chicó do programa de hoje.
Lisbela, vivida por Débora Falabella, passa as tardes no cinema da cidade e está prometida em casamento a um rapaz correto que ela não escolheu. O encontro dos dois desarruma a cidade toda.
Marco Nanini entra como Frederico Evandro, matador de aluguel contratado para acertar as contas com Leléu, e o filme transforma a perseguição numa comédia de estrada.
A peça original é de Osman Lins, de 1961, e o filme estreou em 2003. Passou de três milhões de espectadores nas salas, e a trilha ficou tocando no rádio o ano inteiro.
Serve para a quinta em que a semana já cobrou o bastante. Dá para olhar o celular no meio e voltar sem perder o fio da história.
Se a quinta pedir pesado, o programa é Central do Brasil, de Walter Salles, no Globoplay, 113 minutos. Play às 21h05 e créditos às 22h58.
Dora escreve cartas para quem não sabe escrever, numa mesinha da estação central do Rio de Janeiro, e joga fora boa parte do que recebe para postar. Um menino de nove anos fica sozinho na estação, e ela acaba levando o garoto para o sertão atrás do pai.
Fernanda Montenegro faz Dora, e ela é a ponte entre os dois programas: a mesma atriz que aparece como a Compadecida no julgamento do filme de hoje.
O filme levou o Urso de Ouro no Festival de Berlim de 1998, com Urso de Prata de melhor atriz para ela, e chegou ao Oscar de 1999 em duas categorias, atriz e filme estrangeiro.
A tensão aqui é de estrada e de afeto, e não de ação. Ninguém corre atrás de ninguém, mas o filme cobra presença do começo ao fim.
A diferença entre os dois está na saída, e nunca na qualidade. Lisbela devolve você para o travesseiro rindo e com energia sobrando. Central do Brasil termina às 22h58 e rende meia hora de conversa depois dos créditos.
Uma regra de bolso para hoje: se a vontade é de não pensar, vá de Lisbela. Se a quinta é daquelas em que o sono só chega tarde de qualquer jeito, Central do Brasil aproveita a hora extra e devolve alguma coisa em troca.
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