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O bombardeiro que a sala de guerra não consegue chamar de volta
Stanley Kubrick, 1964, 95 minutos: play às 20h30 e Peter Sellers em 3 papéis.
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Peter Sellers como o cientista na sala de guerra
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Na sala de guerra do Pentágono, sob um anel de lâmpadas pendurado sobre uma mesa redonda enorme, o presidente Merkin Muffley vê um general e o embaixador soviético se atracarem e diz: "Senhores, vocês não podem brigar aqui. Esta é a sala de guerra." Quem fala não está brincando. Muffley é sério, cansado, de óculos, e tenta segurar o mundo pelo telefone. A graça mora em tudo que ele não percebe. Pouco antes, numa base aérea americana, o general Jack D. Ripper decidiu sozinho que os soviéticos envenenavam o país com flúor na água. Mandou a ala inteira de bombardeiros B-52 atacar a União Soviética, fechou a base, cortou os telefones e guardou para si o único código capaz de chamar os aviões de volta. O filme se chama Dr. Fantástico, título original Dr. Strangelove or: How I Learned to Stop Worrying and Love the Bomb (ou como aprendi a parar de me preocupar e amar a bomba), lançado em 1964 pela Columbia. Tem 95 minutos, é em preto e branco e foi dirigido por Stanley Kubrick. Peter Sellers faz três papéis. É o presidente Muffley, careca e contido. É o capitão Lionel Mandrake, oficial da Real Força Aérea inglesa preso na sala de Ripper. E é o próprio Dr. Fantástico, cientista alemão numa cadeira de rodas, com uma mão de luva preta que se levanta sozinha. George C. Scott faz o general Buck Turgidson, chefe do Estado-Maior que mastiga chiclete e conta baixas como quem conta pontos num jogo. Sterling Hayden faz Ripper. Slim Pickens faz o major T. J. Kong, piloto texano de um dos bombardeiros. A sala de guerra foi desenhada por Ken Adam, o cenógrafo dos primeiros filmes de James Bond: um salão triangular, chão preto brilhante e um mapa-múndi onde as rotas dos aviões avançam em linhas de luz. Quem aperta o play às 20h30 chega aos créditos às 22h05, com a cantora Vera Lynn prometendo um reencontro num dia de sol. O Programa de Hoje acompanha as três frentes da história, a base fechada, a sala de guerra e a cabine do avião que perdeu o rádio, até a última bomba. Continue lendo ↓ |
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I O Programa de Hoje
I, Três salas e um rádio quebrado
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O programa desta noite é Dr. Fantástico, comédia de Stanley Kubrick de 1964, 95 minutos, disponível para aluguel e compra nas lojas digitais de filmes e em edições em DVD e Blu-ray. Play às 20h30 e ponto final às 22h05.
A frente da base aérea se passa em Burpelson. Ripper manda os soldados atirarem em qualquer um que se aproxime, tropas americanas inclusive, e recolhe os rádios particulares da tropa. Mandrake acha um aparelho esquecido tocando música comum e percebe que não há guerra nenhuma lá fora.
Trancado com o general, o capitão inglês tenta arrancar o código com calma britânica. Ripper explica a teoria dele: o flúor da água é um plano comunista para contaminar os fluidos preciosos do corpo, e ele percebeu a ameaça pelo cansaço que sentia depois do amor.
Na sala de guerra, Turgidson admite ao presidente que o plano R (ordem de ataque que um comandante de base pode dar sozinho numa emergência) existe justamente para que ninguém acima dele consiga impedir. E sugere aproveitar o embalo para atacar com tudo.
Muffley chama o embaixador Alexei de Sadesky e telefona para o premiê soviético Dimitri Kissoff, que está bêbado. A conversa é o grande número de Sellers: um presidente se desculpando, com voz de quem consola um amigo, pelo avião que vai destruir o país do outro.
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Do outro lado da linha vem a notícia que muda o filme. A União Soviética montou a Máquina do Juízo Final, uma rede de bombas que dispara sozinha se o país for atingido e que ninguém consegue desligar. O anúncio estava guardado para o congresso do partido, na segunda-feira seguinte.
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O Dr. Fantástico, assessor de armas do presidente, explica o erro: a máquina só assusta o inimigo se o inimigo souber que ela existe. Enquanto fala, o braço dele insiste em fazer a saudação nazista, e a mão enluvada tenta estrangular o próprio dono.
Tropas americanas tomam Burpelson, e Ripper se tranca no banheiro e atira contra si mesmo. Mandrake decifra o código nos rabiscos do general, as letras OPE, e precisa ligar para o Pentágono de um telefone público. Falta moeda. O coronel Bat Guano atira numa máquina de Coca-Cola para arrancar os trocados.
O código chega, e os aviões dão meia-volta. Todos menos um.
A cabine do major Kong é a terceira frente. Um míssil soviético danificou o rádio e o aparelho que filtra as mensagens, e por isso o avião não ouve a ordem de volta. Sem combustível para o alvo original, Kong escolhe outro. A porta do compartimento emperra, e o major desce montado na bomba, agitando o chapéu de caubói.
Na sala de guerra, o Dr. Fantástico propõe salvar uma parte da população em minas profundas, com dez mulheres para cada homem, durante cem anos. Levanta-se da cadeira, dá dois passos e grita que consegue andar. As explosões enchem a tela ao som de Vera Lynn.
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II Se a Noite Pedir Outra Coisa
II, Um presidente sem piada e um ducado minúsculo
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As duas saídas desta noite ficam com metades de Dr. Fantástico: uma com o medo, a outra com o ator.
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Se a noite pedir a mesma crise sem riso, o programa é Limite de Segurança, título original Fail Safe (à prova de falhas), de Sidney Lumet, 1964, 112 minutos, com edições em disco e em lojas digitais. Play às 20h30 e ponto final às 22h22.
Henry Fonda faz o presidente americano. Uma falha mecânica, e não um general delirante, manda um grupo de bombardeiros contra Moscou. Fonda passa o filme num abrigo subterrâneo com um intérprete, vivido por Larry Hagman, falando com o premiê soviético pela linha direta.
Os dois filmes nasceram quase juntos. Limite de Segurança adapta o romance de Eugene Burdick e Harvey Wheeler, de 1962, e Kubrick e Peter George, autor do livro que originou Dr. Fantástico, processaram os produtores pela semelhança da trama. A Columbia comprou o filme de Lumet e lançou meses depois do de Kubrick.
O desfecho de Lumet é o mais duro dos dois. Para provar aos soviéticos que o ataque foi um acidente, o presidente aceita bombardear Nova York com aviões americanos, em troca de Moscou.
Se a noite pedir mais Sellers multiplicado, o programa é O Rato que Ruge, título original The Mouse That Roared, comédia inglesa de Jack Arnold, 1959, 83 minutos, encontrada em edições em disco. Play às 20h30 e ponto final às 21h53.
Sellers faz três papéis também aqui: a grã-duquesa Gloriana, o primeiro-ministro Mountjoy e o guarda-florestal Tully Bascombe. Grand Fenwick, ducado minúsculo dos Alpes quebrado pela concorrência de um vinho americano, declara guerra aos Estados Unidos para perder e receber ajuda.
O exército de Tully desembarca em Nova York com arco e flecha, encontra a cidade vazia por causa de um treino antiaéreo e volta para casa com um cientista e a bomba experimental dele. Grand Fenwick vence a guerra que queria perder.
A ponte é a bomba e o ator. Cinco anos antes de Kubrick, Sellers já trocava de corpo dentro do mesmo filme, e a guerra atômica já servia de piada.
Regra de bolso: se a casa quer sair de Kubrick com o estômago apertado, vá de Limite de Segurança. Se prefere rir mais leve, com o mesmo ator em três figurinos, vá de O Rato que Ruge.
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