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O buraco de 1982 na memória de Ari Folman

Valsa com Bashir, de Ari Folman, 2008, 90 minutos: um documentário desenhado atrás da lembrança de uma guerra.

Soldados desenhados saindo do mar à noite, sob um céu de sinalizadores amarelos.

O mar de Beirute sob os sinalizadores

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Num bar de Tel Aviv, no inverno de 2006, Boaz Rein-Buskila contou ao amigo Ari Folman um sonho repetido: “São 26 cães. Eles correm pela rua, param embaixo da minha janela e latem para mim.” Boaz sabia o número exato porque tinha contado os animais na guerra.

Em 1982, no sul do Líbano, os soldados da unidade dele entravam nas aldeias de madrugada, e os cães latiam e avisavam os moradores. Boaz não conseguia atirar em gente. Os oficiais deram a ele a tarefa de calar os cães. Foram 26, e ele lembrava o focinho de cada um.

Folman ouviu a história e percebeu um vazio. Ele também tinha servido no Exército de Israel naquele ano, aos 19 anos, na mesma guerra. Tentou lembrar e não encontrou nada: nenhum rosto, nenhuma rua, nenhum tiro.

Na mesma noite, já sozinho, veio uma imagem só. Ele e dois soldados boiando no mar de Beirute, nus, de madrugada. Acima deles, o céu aceso por sinalizadores amarelos, os foguetes de luz que o exército disparava para iluminar o terreno. Os três saem da água, vestem a farda e caminham para a cidade.

Folman não sabia se a cena tinha acontecido. Sabia só onde ela ficava: perto dos campos de refugiados palestinos de Sabra e Chatila, em Beirute, onde centenas de civis foram mortos em setembro de 1982.

Diretor de cinema e roteirista de televisão, ele resolveu procurar quem estava lá. Ligou para antigos colegas de farda, marcou entrevistas, gravou as conversas em vídeo e transformou o material num filme.

O resultado saiu em 2008 com o nome de Valsa com Bashir. É um documentário, com gente real contando o que viveu, mas cada quadro foi desenhado. Os entrevistados aparecem animados, com a própria voz, e os sonhos ganham a mesma textura das lembranças.

A animação deixa Folman filmar o que câmera nenhuma registrou: o sonho dos cães, o mar iluminado, os dias apagados da cabeça dele.

O Programa de Hoje começa na casa de Ori Sivan, o amigo de infância a quem Folman pediu ajuda.

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I  O Programa de Hoje

A busca começa na sala de Ori Sivan

A resposta de ontem

Qual conto de Lusa Silvestre virou o filme Estômago?

Presos pelo Estômago. O conto de Lusa Silvestre contava a vida de um cozinheiro preso que ganha poder na cela pela comida. Marcos Jorge leu o texto, chamou o autor para o roteiro e escreveu com ele, com Cláudia da Natividade e com Fabrizio Donvito a versão que virou o filme de 2007.

Hoje a tela recebe Valsa com Bashir, documentário animado israelense escrito e dirigido por Ari Folman, lançado em 2008, com 90 minutos. Play às 20h e créditos finais às 21h30.

Ori Sivan, amigo de infância de Folman e terapeuta, escuta a cena do mar e não tenta adivinhar o significado. Diz só que a memória guarda o necessário e descarta o resto, e que o único teste possível para a imagem é perguntar a quem estava na praia.

Folman faz a lista. Começa por Carmi Cna'an, colega de unidade que deixou Israel e foi morar na Holanda, onde ficou rico vendendo falafel (bolinho frito de grão-de-bico).

Carmi não lembra da praia. Lembra de outra viagem: o barco que levou a tropa até o Líbano, onde ele, com 19 anos, vomitava de medo. Deitado no convés, sonhou com uma mulher gigante saindo da água, que o carregou nos braços enquanto o barco explodia atrás deles.

Uma feira onde ninguém foi

A explicação científica vem de Zahava Solomon, psicóloga israelense especializada em trauma de guerra, também entrevistada no filme. Ela conta um experimento sobre lembranças falsas.

Os pesquisadores mostraram a voluntários fotos da infância deles, misturadas com uma montagem: o rosto da pessoa colado numa feira de diversões onde ela nunca tinha estado. Boa parte dos voluntários “lembrou” da feira e chegou a descrever o passeio.

A memória não funciona como arquivo: ela tapa o buraco com o que parece real, e a pessoa passa a jurar pela versão inventada.

Os entrevistados seguintes trazem pedaços. Ronny Dayag, ex-soldado de tanque, lembra de ter nadado sozinho, à noite, para longe de uma emboscada na beira do mar, enquanto os colegas o davam como desaparecido.

Shmuel Frenkel, comandante de um grupo de infantaria, dá o título ao filme. Numa rua de Beirute cercada por atiradores, ele pega a metralhadora de um colega, corre para o cruzamento e dispara rodopiando, como quem dança uma valsa, embaixo de cartazes gigantes de Bashir Gemayel.

Bashir Gemayel era o líder cristão libanês aliado de Israel, eleito presidente do Líbano em agosto de 1982. Nove dias antes da posse, em 14 de setembro, foi assassinado numa explosão em Beirute.

A animação cuida do resto. O diretor de arte David Polonsky desenhou os personagens, e o animador Yoni Goodman montou o movimento em Flash, programa de computador que anima recortes digitais peça por peça. Antes, a equipe gravou as entrevistas em vídeo, num estúdio, para servir de base aos desenhos.

“A luta do homem contra o poder é a luta da memória contra o esquecimento.” (Milan Kundera, em O Livro do Riso e do Esquecimento, 1979)

O escritor tcheco pensava na censura do regime comunista. Folman trava a mesma luta dentro da própria cabeça e confere cada lembrança com quem viveu junto.

 
 

II  Se a Noite Pedir Outra Coisa

O Irã de Satrapi e o tanque de Samuel Maoz

Duas alternativas seguem o fio de Folman: guerra contada por quem estava lá, com o olhar preso num ponto de vista só.

Se a noite pedir outra animação, o programa é Persépolis, de Marjane Satrapi e Vincent Paronnaud, 2007, com 96 minutos. Play às 20h e ponto final às 21h36.

O filme adapta os quadrinhos autobiográficos de Satrapi, lançados na França em quatro volumes, entre 2000 e 2003. Marjane é menina em Teerã quando a Revolução Islâmica de 1979 derruba o xá (o monarca do Irã), e o país entra em guerra com o Iraque no ano seguinte.

Os pais mandam a filha estudar em Viena, aos 14 anos. Ela volta ao Irã adulta, casa, se separa e acaba deixando o país para sempre, rumo a Paris.

O desenho é quase todo em preto e branco, com traço grosso, igual ao dos quadrinhos. A cor só aparece nas cenas do presente, com Marjane adulta num aeroporto francês.

Persépolis dividiu o Prêmio do Júri do Festival de Cannes de 2007 e concorreu ao Oscar de animação. Na versão francesa, Chiara Mastroianni dá voz a Marjane, e Catherine Deneuve, mãe da atriz na vida real, dá voz à mãe da personagem.

A ponte com Valsa com Bashir está no método: os dois filmes usam o desenho para contar memória pessoal de guerra, e os dois disputaram Cannes em anos seguidos.

Se a noite pedir a mesma guerra sem desenho, o programa é Líbano, de Samuel Maoz, 2009, com 93 minutos. Play às 20h e ponto final às 21h33.

Maoz tinha 20 anos em junho de 1982 e era atirador de um tanque israelense no primeiro dia da invasão. Escreveu o roteiro mais de duas décadas depois, a partir do que lembrava daquele dia.

O filme inteiro se passa dentro do tanque. O espectador só vê o lado de fora pela mira do canhão, como os quatro soldados lá dentro: um rosto, uma casa, um burro, um homem pedindo para não atirarem.

Folman desenha a guerra que esqueceu; Maoz tranca o espectador numa caixa de aço com a guerra que nunca conseguiu esquecer.

Líbano ganhou o Leão de Ouro, o prêmio principal do Festival de Veneza, em 2009. Foi o primeiro filme israelense a levar o troféu.

Para escolher: quem quer outra memória desenhada vai de Persépolis; quem quer 1982 visto de dentro do tanque vai de Líbano.

 

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III  Sai do Catálogo

Os segundos finais sem desenho

Valsa com Bashir entra e sai dos catálogos de streaming no Brasil. Busque pelo título em português e confira Ari Folman e 2008 antes do play; o título original, em hebraico, é Vals Im Bashir (valsa com Bashir), e em inglês, Waltz with Bashir.

O filme estreou na competição do Festival de Cannes de 2008. No começo de 2009, ganhou o Globo de Ouro de melhor filme em língua estrangeira e concorreu ao Oscar da mesma categoria, que ficou com o japonês A Partida.

A trilha original é do compositor alemão-britânico Max Richter. Ela acompanha a cena do mar, que volta várias vezes no filme, sempre com a mesma luz amarela.

Folman ainda procura Ron Ben-Yishai, repórter da televisão israelense que cobria a guerra em Beirute. Ben-Yishai conta ter ligado, na noite de 17 de setembro de 1982, para o ministro da Defesa, Ariel Sharon, para avisar de uma matança nos campos. Pelo relato dele, Sharon agradeceu e desligou.

O que Folman descobre

Juntando os relatos, Folman acha o lugar dele naquela semana. Depois da explosão que matou Bashir, o Exército de Israel cercou Sabra e Chatila e deixou entrar a Falange, milícia cristã libanesa ligada a Gemayel. A unidade de Folman disparava sinalizadores para iluminar os campos durante a noite.

A luz amarela da cena do mar vinha dali. Ori Sivan oferece a leitura: aos 19 anos, filho de sobreviventes de Auschwitz, Folman se viu no anel de soldados em volta de um massacre, e a memória apagou a cena para ele não ter de carregá-la.

O total de vítimas nunca foi fechado. A Comissão Kahan, criada por Israel para investigar o caso, concluiu em 1983 que Ariel Sharon tinha responsabilidade pessoal por não ter impedido a matança, e ele deixou o Ministério da Defesa.

Na última cena desenhada, Folman se vê andando com os colegas pelas vielas do campo, na manhã de 18 de setembro, enquanto mulheres palestinas saem gritando na direção deles.

Ali o desenho acaba. A tela passa para imagens reais de televisão, gravadas naquela manhã: as mesmas mulheres, os escombros, os corpos na rua. Não há trilha nem narração por cima, e os créditos sobem logo depois.

1. No começo, conte os cães do sonho de Boaz: são 26.

2. Na metade, repare na valsa de Frenkel embaixo dos cartazes de Bashir.

3. Nos minutos finais, compare a cor dos sinalizadores com a luz da cena do mar.

Play às 20h, 90 minutos de desenho e um final em imagem real.

Folman guardou o arquivo para o fim de propósito. Depois de uma hora e meia de traço, quem assiste perde a chance de dizer que aquilo era só animação.

 
 
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