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O detetive de Busan na sala da viúva

Decisão de Partir, de Park Chan-wook, 2022, 138 minutos: um detetive sem sono vigia a viúva de um alpinista.

Detetive de binóculo observa uma janela acesa à noite.

O detetive Hae-jun e o binóculo da vigília

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Na sala de interrogatório da delegacia de Busan, o detetive Jang Hae-jun pergunta à viúva por que ela não chora. Song Seo-rae responde, num coreano aprendido em novelas: “Meu coreano não é tão bom.” Ela mexe no relógio do marido, que acaba de ser encontrado ao pé de uma montanha, e não desvia os olhos.

O marido se chamava Ki Do-soo, era funcionário da imigração e escalava sozinho aos sábados. Caiu do topo de um pico rochoso nos arredores da cidade. A polícia acha marcas de unha na pedra e nenhuma testemunha. A viúva, chinesa, trabalha como cuidadora de idosos e tem álibi para a manhã da queda.

Hae-jun sofre de insônia há anos. Pinga colírio a cada hora, mora longe da esposa, Jung-an, que trabalha numa usina nuclear na cidade costeira de Ipo, e passa as noites dentro do carro, de binóculo, olhando a janela do apartamento de Seo-rae.

É aqui que Park Chan-wook brinca com a montagem. Num plano, o detetive está no banco do motorista. No plano seguinte, está de pé na cozinha dela, a meio metro, enquanto ela come sorvete e fuma diante da televisão. Ele não está lá. O filme coloca o desejo dele dentro da sala.

Seo-rae sabe que é vigiada. Às vezes olha direto para a rua, como quem confere se o carro continua parado ali embaixo. O jogo entre os dois cresce em silêncio: ela cozinha para ele, ele arruma o quarto da delegacia para ela dormir.

No segundo interrogatório, os dois pedem sushi caro, comem frente a frente e limpam a mesa juntos, dobrando os guardanapos em sincronia. O parceiro de Hae-jun, Soo-wan, observa do outro lado do vidro e acha estranho.

A primeira parte da edição acompanha o caso da montanha e o que o relógio de Seo-rae guardou.

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I  O Programa de Hoje

A vigília do detetive Hae-jun

Hoje a tela recebe Decisão de Partir, policial romântico dirigido por Park Chan-wook, lançado em 2022, com 138 minutos. Começa às 20h30 e os créditos sobem às 22h48.

Hae-jun é Park Hae-il, ator coreano conhecido de Memórias de um Assassino, de Bong Joon-ho. Seo-rae é Tang Wei, atriz chinesa que estreou no cinema em Desejo e Perigo, de Ang Lee. O roteiro Park escreveu com Jeong Seo-kyeong, parceira dele desde Lady Vingança.

Park contou em entrevistas que partiu de duas fontes: os romances policiais suecos de Maj Sjöwall e Per Wahlöö, com o detetive Martin Beck, e a canção coreana Névoa, gravada por Jung Hoon-hee em 1967. A música toca várias vezes no filme, no carro, na cozinha e no fim.

O relógio que contou os passos

Seo-rae diz ter passado a manhã cuidando de uma senhora idosa. O que a trai é o relógio inteligente que usava no pulso. Hae-jun descobre que o aparelho registrou a subida de um morro inteiro, degrau por degrau, na hora exata da queda de Do-soo.

Ela tinha subido a montanha pelo outro lado. Empurrou o marido, que a agredia e a ameaçava com a deportação. Hae-jun prova o crime sozinho, de madrugada, refazendo a trilha com o próprio relógio.

O detetive resolve o caso e, no mesmo gesto, decide esconder a prova.

Ele leva Seo-rae até a beira do mar e pede que ela jogue o celular na água, para ninguém achar as gravações. Pede também que ela nunca mais o procure. Depois pede transferência para Ipo, onde vive a esposa, e diz a si mesmo que está “destruído”.

Treze meses depois, Seo-rae aparece no mercado de Ipo, de braço dado com um novo marido. Ele é Im Ho-shin, um investidor que deve dinheiro a gente perigosa. Dias depois, Ho-shin aparece sem vida na piscina de casa, e Hae-jun volta a vigiar a mesma mulher.

Na fala mais lembrada do filme, Seo-rae conta que o amor dela começou no momento em que ele se disse destruído (Decisão de Partir, roteiro de Park Chan-wook e Jeong Seo-kyeong, 2022).

A frase explica o filme inteiro. Para Seo-rae, o homem que escondeu a prova por ela fez a única declaração de amor que importava.

Park filma essa relação quase sem toque. Os dois trocam olhares pelo vidro da sala de interrogatório, mensagens curtas pelo celular e receitas de comida chinesa. A tensão mora nos objetos: o colírio, o relógio, o binóculo, o guardanapo dobrado. Quem espera cena de cama sai sem ela, e o filme ganha com a ausência.

 
 

II  Se a Noite Pedir Outra Coisa

Dois homens olhando janelas

Se a noite pedir outro clima, dois filmes mais antigos fazem o mesmo movimento de Park: um homem que observa uma mulher de longe e acaba preso no que vê.

O primeiro é Um Corpo que Cai, de Alfred Hitchcock, 1958, com 128 minutos. Começa às 20h30 e termina às 22h38.

John Ferguson, vivido por James Stewart, é um detetive aposentado de São Francisco com medo de altura. Um velho colega o contrata para seguir a esposa, Madeleine, papel de Kim Novak. Ferguson passa dias atrás do carro dela, por cemitérios, museus e pela baía.

Ele se apaixona, perde Madeleine numa torre de igreja e, meses depois, encontra na rua uma moça idêntica, Judy. Passa a vesti-la e pentear o cabelo dela até ficar igual à morta. A trama esconde um golpe que Judy confessa numa carta e depois rasga.

Park cita Hitchcock como mestre. A montanha de Decisão de Partir faz eco à torre de Um Corpo que Cai: nos dois, uma queda abre o caso, e o detetive sobe atrás da resposta com vertigem.

Em Hitchcock, o homem refaz a mulher; em Park, a mulher refaz o homem.

O segundo é Amor à Flor da Pele, de Wong Kar-wai, 2000, com 98 minutos. Começa às 20h30 e termina às 22h08.

Em Hong Kong, em 1962, Chow Mo-wan, vivido por Tony Leung, e Su Li-zhen, papel de Maggie Cheung, moram em quartos alugados vizinhos. Descobrem que os próprios cônjuges têm um caso entre si. Passam a se encontrar para ensaiar como o adultério teria começado.

Nunca se tocam de fato. Cruzam-se na escada estreita, comprando macarrão, sob a chuva, ao som de uma valsa de violino. Tony Leung ganhou o prêmio de ator em Cannes em 2000.

No fim, Chow viaja ao Camboja e sussurra um segredo num buraco de uma parede de Angkor Wat, depois tapa o buraco com barro. O público nunca ouve o que ele diz.

Wong Kar-wai rodou o longa ao longo de quinze meses, sem roteiro fechado, inventando as cenas na véspera. Filmou dezenas de encontros entre Chow e Su que não entraram na montagem final, e deixou o casal mais perto do que nunca nas cenas que sobraram.

Para escolher: quem quer suspense clássico e uma reviravolta vai de Hitchcock; quem quer silêncio, cor e um amor que fica só no gesto vai de Wong Kar-wai.

 

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III  Sai do Catálogo

A maré no litoral de Ipo

Decisão de Partir costuma mudar de plataforma de streaming no Brasil. Busque pelo título e confira Park Chan-wook e 2022 antes do play; o nome original coreano, Heojil Kyolshim, significa algo próximo de “decisão de se separar”.

O longa estreou na competição do Festival de Cannes em maio de 2022 e deu a Park o prêmio de melhor direção. Foi o filme escolhido pela Coreia do Sul para disputar uma vaga no Oscar internacional e chegou à lista de quinze pré-selecionados, sem entrar entre os cinco finalistas.

A segunda metade

Em Ipo, Hae-jun investiga a queda de Ho-shin e descobre que Seo-rae guardou o celular antigo em vez de jogá-lo ao mar. Nele estão gravadas, pelo relógio dela, as falas em que o detetive confessava o que sentia. Ela as ouviu centenas de vezes, traduzindo palavra por palavra num aplicativo.

Seo-rae não matou Ho-shin. Quem o matou foi a mãe de um homem que ele tinha arruinado. Mas ela sabe que o caso vai reabrir o primeiro e que Hae-jun, honesto, não aguentaria escondê-la de novo.

Por fim, ela vai à praia na maré baixa, cava um buraco na areia, entra nele e deixa a água subir. Hae-jun chega minutos depois, grita por ela, corre pela beira sob o vento. O espectador vê onde ela está; ele não vê.

O filme termina com o detetive procurando. Park nunca mostra o corpo nem diz se ele a encontra. Seo-rae escolheu virar um caso sem solução, o único que um detetive de insônia nunca conseguiria largar.

O roteiro sustenta esse gesto desde a primeira hora. Hae-jun confessa a Seo-rae que guarda na parede de casa as fotos dos casos não resolvidos, e que só eles o fazem perder o sono. Ela ouve, anota e, perto do fim, usa a confissão contra ele com a precisão de quem estudou cada palavra.

1. No começo, repare no colírio de Hae-jun: ele pinga o líquido toda vez que olha demais.

2. Na metade, acompanhe o relógio no pulso de Seo-rae, que grava passos e vozes.

3. No fim, ouça a canção Névoa tocando enquanto a maré cobre a praia.

Às 20h30, 138 minutos entre a névoa de Busan e a maré de Ipo.

Quem assiste sai com uma pergunta que o filme responde sem dizer: o amor dos dois começou quando ele desistiu de ser policial por ela, e terminou quando ela desistiu de ser achada por ele.

 
 
Quiz da edição

Qual objeto comprova a Hae-jun que Seo-rae subiu a montanha pelo outro lado no momento exato da queda do marido?

AO binóculo que ele usava para vigiar o apartamento dela
BO guardanapo dobrado em sincronia no jantar de sushi
CO relógio inteligente que registrou a subida da montanha degrau por degrau
DA letra da canção Névoa tocando no carro

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