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O falso cineasta que reencenou o próprio golpe
Abbas Kiarostami, 1990, 98 minutos: play às 20h30 e um julgamento real no meio do filme.
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Hossain Sabzian diante da lente fechada
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Hossain Sabzian disse à senhora do banco vizinho, num ônibus de Teerã, no outono de 1989: "O autor desse livro sou eu." A senhora era Mahrokh Ahankhah, e o livro no colo dela era o roteiro publicado de O Ciclista, filme de 1987 de Mohsen Makhmalbaf, um dos diretores mais conhecidos do Irã. Sabzian, desempregado, divorciado e com pouco dinheiro, nunca tinha dirigido nada. Ela acreditou. Dias depois, o falso Makhmalbaf estava na sala da família, numa casa confortável do norte da cidade, prometendo rodar o próximo filme ali dentro, com os filhos dela no elenco. Voltou várias vezes. Ensaiou cenas com os rapazes, pediu para mudar os móveis de lugar e pegou dinheiro emprestado. O pai, Abolfazl Ahankhah, desconfiou, chamou um jornalista e a polícia, e Sabzian saiu da casa preso. O jornalista Hossain Farazmand publicou o caso na revista Sorush. Abbas Kiarostami leu a reportagem, largou o filme que preparava e foi atrás da história com uma câmera. O resultado é Close-Up, de 1990, com 98 minutos. Kiarostami filmou o julgamento verdadeiro de Sabzian e convenceu todos os envolvidos, o acusado, a família, o jornalista e o próprio Makhmalbaf, a reencenar diante da câmera o que tinham vivido meses antes. Ninguém ali é ator. A mãe interpreta a mãe, o filho interpreta o filho, e o homem que fingiu ser cineasta finge de novo, agora para um cineasta de verdade. O pai aceita sentar outra vez na sala onde foi enganado. Quem aperta o play às 20h30 chega aos créditos às 22h08 e passa boa parte do caminho sem saber se está diante do fato ou da reencenação. O filme não avisa. O Programa de Hoje mostra como Kiarostami costura as duas camadas, do táxi que abre o filme até a garupa de uma moto com um vaso de flores. Continue lendo ↓ |
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I O Programa de Hoje
I, Um tribunal, um táxi e uma lata de spray
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O programa desta noite é Close-Up, título original Nema-ye Nazdik (plano fechado, em persa), drama iraniano de 1990, 98 minutos, com edição restaurada pela Criterion Collection e aluguel nas lojas digitais de filmes. Play às 20h30 e ponto final às 22h08.
O filme abre pela prisão, e sem o preso. Farazmand, o jornalista, atravessa Teerã num táxi com dois policiais, a caminho da casa dos Ahankhah, e conversa com o motorista sobre a matéria que vai render.
A câmera não entra na casa com ele. Fica na rua, com o taxista, que espera entediado, junta flores de um monte de folhas secas e chuta uma lata de spray vazia ladeira abaixo. A lata rola por um bom tempo, e o plano acompanha até ela parar.
Quando a cena volta para dentro, Sabzian já está detido. A prisão em si nunca aparece: Kiarostami troca o momento esperado por um homem comum olhando o meio-fio.
Depois vem o tribunal. Kiarostami pediu autorização ao juiz para filmar a audiência, e conseguiu. Montou duas câmeras: uma aberta, que mostra a sala, e uma fechada, com lente longa, apontada só para o rosto do acusado.
A câmera fechada dá nome ao filme. Kiarostami avisa Sabzian, no começo da audiência, que aquela lente é dele: o que ele quiser dizer e o juiz não entender, pode dizer para ela.
Sabzian fala por longos minutos. Conta que amava cinema, que tinha visto O Ciclista várias vezes e que o filme de Makhmalbaf contava a vida dele, a de um homem pobre fazendo de tudo por dinheiro. Diz que, na casa dos Ahankhah, pela primeira vez se sentiu respeitado.
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A família não pede vingança. Na frente do juiz, os Ahankhah aceitam retirar a queixa, e Sabzian sai do processo sem pena de prisão, depois de pedir desculpas ao pai.
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Entre as sessões, o filme volta no tempo e mostra as reencenações. O primeiro encontro no ônibus, as visitas à sala, os ensaios com os filhos: tudo refeito pelas mesmas pessoas, nos mesmos lugares, meses depois.
O filho Mehrdad Ahankhah conta no tribunal que desconfiou quando o falso diretor pediu dinheiro e prometeu um papel. O pai mostra a revista com a foto do verdadeiro Makhmalbaf, que não se parecia com o homem da sala.
O fim é uma saída de cadeia. Na porta da prisão, o próprio Mohsen Makhmalbaf espera Sabzian, e os dois se abraçam. Sabzian chora.
Makhmalbaf põe Sabzian na garupa de uma moto, compra um vaso de flores e os dois rodam pela cidade até a casa dos Ahankhah, para pedir desculpas pessoalmente.
O som falha no caminho. Ouve-se a equipe reclamando de um microfone com mau contato, e o diálogo dos dois some em pedaços. Anos depois, Kiarostami admitiu que a falha foi montada: ele quis deixar a conversa só para os dois.
Na porta da casa, o pai recebe as flores. A câmera fica longe, e o filme termina num quadro congelado.
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II Se a Noite Pedir Outra Coisa
II, Um caderno trocado e um policial esfaqueado
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As duas saídas desta noite são filmes iranianos que fazem o mesmo jogo entre o que aconteceu e o que se filma, um do próprio Kiarostami e outro de Makhmalbaf.
Se a noite pedir uma história pequena, o programa é Onde Fica a Casa do Meu Amigo?, de Abbas Kiarostami, 1987, 83 minutos, encontrado em edições em disco e no aluguel digital. Play às 20h30 e ponto final às 21h53.
Ahmad, um menino de 8 anos da aldeia de Koker, no norte do Irã, leva para casa por engano o caderno do colega Mohammad Reza Nematzadeh. O professor já avisou: se Nematzadeh fizer o dever fora do caderno mais uma vez, será expulso.
Ahmad sai escondido da mãe e atravessa um morro em zigue-zague até a aldeia vizinha, Poshteh, para devolver o caderno. Pergunta de porta em porta e não acha a casa.
Ninguém dos adultos ouve o menino. A mãe manda ele cuidar do irmão, o avô fala de disciplina, os vizinhos dão endereços errados. Escurece, e Ahmad volta com o caderno na mochila.
À noite, ele faz o dever duas vezes: no caderno dele e no do colega. Na manhã seguinte entrega o caderno de Nematzadeh ao professor, que dá visto. Entre as folhas, uma flor que um velho de Poshteh deu a Ahmad.
Se a noite pedir o outro lado do espelho, o programa é Um Instante de Inocência, título original Nun va Goldoon (o pão e o vaso), de Mohsen Makhmalbaf, 1996, 78 minutos, disponível no aluguel digital. Play às 20h30 e ponto final às 21h48.
Aos 17 anos, em 1974, Makhmalbaf militava contra o xá, o rei que governava o Irã, e esfaqueou um policial numa ação de rua. Passou quase cinco anos preso. Duas décadas depois, o policial, Mirhadi Tayebi, procurou o diretor querendo trabalhar como ator.
Makhmalbaf propôs um filme sobre o dia da facada. Cada um dos dois escolhe um rapaz para interpretar a si mesmo quando jovem, e cada um ensaia o seu jovem para contar a sua versão.
As duas versões se chocam no último plano, na mesma esquina, com o pão e o vaso de flores do título no lugar da faca e da arma.
Regra de bolso: se a casa quer silêncio e paisagem, vá de Onde Fica a Casa do Meu Amigo?. Se quer ver Makhmalbaf reencenar a própria história, como Sabzian fez com ele, vá de Um Instante de Inocência.
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