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O filho que acusa o pai no brinde de 60 anos

Thomas Vinterberg, 1998, 105 minutos: play às 20h30 e um jantar dinamarquês filmado com câmera na mão, sem luz extra.

Uma família de traje de gala ao redor de uma mesa de jantar à luz de velas.

O jantar de 60 anos de Helge

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No salão do hotel da família, no interior da Dinamarca, Christian bate na taça, mostra duas folhas ao pai e pergunta: “Qual discurso você prefere, o verde ou o amarelo?”

Helge, o pai, completa 60 anos naquela noite. Sorri, acha graça do jogo e escolhe o verde. Os convidados, de terno e vestido longo, esperam uma lembrança de infância e uma piada sobre o aniversariante.

Christian começa devagar. Fala da casa grande, do banho que o pai gostava de dar nos filhos gêmeos, ele e a irmã Linda, e do escritório onde Helge trancava a porta antes de tirar a camisa.

Ninguém se mexe. Linda tirou a própria vida meses antes, no mesmo hotel, e o almoço do enterro ainda está fresco na memória da mesa.

Christian termina o discurso, ergue a taça e brinda ao pai, “que matou minha irmã”. Depois senta e pega o garfo.

O mestre de cerimônias anuncia o prato seguinte. A mãe, Else, comenta que o filho sempre teve imaginação. O irmão caçula, Michael, bebe mais um copo. A irmã, Helene, olha para a toalha.

Gbatokai, o namorado de Helene e único convidado negro da festa, pergunta baixinho se aquilo é costume dinamarquês. Ninguém responde.

A festa segue. Esse é o choque do filme: a família inteira escolhe continuar comendo.

Na cozinha, a garçonete Pia e o chef Kim, amigo de infância de Christian, decidem que ninguém vai embora antes do fim do jantar. Escondem as chaves dos carros de todos os convidados.

A câmera corre atrás de cada um deles pelos corredores, tremendo, sem tripé e sem refletor. A imagem granulada parece vídeo caseiro de aniversário, e a sensação é de estar sentado à mesa, sem saída.

O Programa de Hoje começa pela regra que mandou filmar assim e pelos atores que seguraram a noite inteira dentro de um hotel real.

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I  O Programa de Hoje

Um manifesto de 10 regras e um hotel sem refletor

O programa desta noite é Festa de Família, título original Festen, filme dinamarquês de 1998, 105 minutos, dirigido por Thomas Vinterberg, com Ulrich Thomsen, Henning Moritzen, Thomas Bo Larsen, Paprika Steen e Birthe Neumann. Play às 20h30 e ponto final às 22h15.

Thomas Vinterberg tinha 28 anos quando rodou o filme. Três anos antes, em março de 1995, ele e Lars von Trier assinaram em Copenhague o Dogma 95, manifesto que propunha limpar o cinema dos truques de estúdio.

O texto trazia um Voto de Castidade com 10 regras. Filmar só em locação real, sem cenário montado. Som gravado junto com a imagem, sem trilha acrescentada. Câmera na mão. Nenhuma luz especial. Nada de arma, assassinato em cena ou filme de gênero. E o diretor não assina os créditos.

Festa de Família foi o primeiro filme do movimento e leva na abertura o certificado Dogme #1 (Dogma número 1, em dinamarquês). Sem a assinatura de Vinterberg nos créditos, quem aparece é o elenco.

O diretor de fotografia Anthony Dod Mantle filmou com uma câmera de vídeo doméstica da Sony, do tamanho de uma mão aberta. As cenas foram depois transferidas para película de 35 milímetros, que deu ao filme o grão estourado.

A locação foi o Skjoldenæsholm, um solar transformado em hotel na ilha da Zelândia, a cerca de uma hora de carro de Copenhague. Elenco e equipe ficaram hospedados no próprio prédio durante as filmagens.

Ulrich Thomsen faz Christian, o filho mais velho, que mora em Paris e tem restaurante lá. Henning Moritzen, veterano do teatro dinamarquês, faz Helge, o pai. Thomas Bo Larsen faz Michael, o caçula que grita com a mulher e bate nos garçons.

Sem luz extra, o jantar acontece à luz das velas e dos lustres do salão, e o rosto de cada convidado aparece e some da imagem conforme a pessoa se inclina para a mesa.

Paprika Steen faz Helene, a irmã que chega com o namorado, Gbatokai, e passa a noite tentando salvar a festa. Birthe Neumann faz Else, a mãe, que sobe ao púlpito para pedir que Christian se desculpe.

Vinterberg contou em entrevistas que a ideia nasceu de um relato ouvido num programa de rádio dinamarquês, de um homem que dizia ter acusado o pai num aniversário. Mais tarde, o diretor soube que o homem tinha inventado a história.

O próprio Vinterberg admitiu ter quebrado uma regra: numa cena, cobriu uma janela com pano para controlar a claridade. A confissão virou parte do folclore do movimento.

 
 

II  Se a Noite Pedir Outra Coisa

Um professor acusado e quatro amigos medindo o copo

As duas saídas desta noite são do mesmo diretor: um filme sobre uma acusação falsa e outro sobre quatro professores que bebem todo dia por método.

Se a noite pedir tensão, o programa é A Caça, título original Jagten, de Thomas Vinterberg, 2012, 115 minutos, disponível no aluguel digital. Play às 20h30 e ponto final às 22h25.

Mads Mikkelsen faz Lucas, professor de jardim de infância numa cidade pequena da Dinamarca. Klara, filha do melhor amigo dele, inventa uma história de abuso depois de ganhar um fora do professor.

A diretora acredita na menina, avisa os pais e a cidade se fecha contra Lucas. Ele perde o emprego, o filho é hostilizado e o cachorro dele aparece morto na porta de casa.

A Caça é o espelho de Festa de Família. Lá, a família não quer ouvir uma acusação verdadeira; aqui, a cidade não quer ouvir a inocência. Vinterberg filma os dois com o mesmo olho para o grupo que se protege.

Mads Mikkelsen ganhou o prêmio de melhor ator no Festival de Cannes em 2012 pelo papel de Lucas.

Se a noite pedir riso amargo, o programa é Mais uma Rodada, título original Druk, de Thomas Vinterberg, 2020, 117 minutos, disponível no aluguel digital. Play às 20h30 e ponto final às 22h27.

Quatro professores de um colégio de Copenhague testam uma ideia atribuída ao psiquiatra norueguês Finn Skårderud: viver com um pouco de álcool no sangue deixaria a pessoa mais solta e criativa.

Eles anotam as doses num caderno, como experiência científica. As aulas melhoram, os alunos se animam, e o grupo decide aumentar a quantidade. A partir dali, o casamento de Martin, papel de Mads Mikkelsen, começa a rachar.

Ida, a filha de Vinterberg, ia atuar no filme e sofreu um acidente de carro quatro dias após o início das filmagens. O diretor reescreveu o roteiro em homenagem a ela.

Mais uma Rodada venceu o Oscar de melhor filme internacional em abril de 2021. A cena final, com Mikkelsen dançando no cais do porto, virou a imagem mais conhecida da carreira dele.

Regra de bolso: se a casa quer suspense de cidade pequena, vá de A Caça. Se quer rir e se assustar com quatro amigos de meia-idade, vá de Mais uma Rodada.

 

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III  Sai do Catálogo

A carta no abajur e o café da manhã sem o pai

Festa de Família entra e sai dos catálogos de streaming no Brasil, e o aluguel digital também muda de mês a mês. Busque por Festen, o título original, e confira Thomas Vinterberg, 1998 e 105 minutos antes do play.

Em maio de 1998, o filme levou o Prêmio do Júri em Cannes, dividido com A Classe de Neve, de Claude Miller. Foi a primeira vez que o festival premiou um filme rodado em vídeo de mão.

Volte ao jantar. Depois do primeiro brinde, Christian é posto para fora do hotel por Michael e outros convidados, que o amarram a uma árvore no bosque. Ele se solta e volta para a mesa.

No mesmo intervalo, Helene brinca de “quente ou frio” com a garçonete Pia no antigo quarto de Linda. As duas acham uma carta escondida dentro do abajur do banheiro.

A carta é de Linda, escrita antes de morrer. Helene a esconde no bolso e tenta seguir com a festa. Christian insiste, e ela acaba lendo o texto para todos, na mesa principal.

A carta confirma o discurso. Linda conta que voltara a sonhar com o pai após anos e que não aguentaria. Helge se levanta, deixa o salão e sai sem resposta.

Nem a revelação encerra a noite. Michael canta uma música racista para provocar Gbatokai, e parte da mesa acompanha o refrão. Os convidados dançam até tarde.

Na manhã seguinte, todos tomam o café na mesma sala. Helge entra, pede licença para falar e diz que errou com os filhos. Michael responde por todos:

“Pai, você tem que sair da mesa agora.” (Michael, personagem de Thomas Bo Larsen, em Festa de Família, 1998)

Helge obedece e sai do salão. Christian convida Pia para ir com ele morar em Paris, e ela aceita.

O espírito do filme está numa linha do manifesto que Vinterberg ajudou a escrever:

“A câmera deve ser segurada na mão.” (Voto de Castidade, manifesto Dogma 95, 1995)

1. Confira direção, ano e duração antes do play: Thomas Vinterberg, 1998 e 105 minutos.

2. No primeiro brinde, repare nas folhas verde e amarela: a escolha do pai decide o resto do jantar.

3. Nas cenas da cozinha, siga as chaves dos carros: elas explicam por que ninguém vai embora.

Play às 20h30, um brinde de 60 anos e uma família que decide continuar comendo.

“Na sua casa, quem teria coragem de bater na taça e contar o que todos calam?”

Na próxima edição: Os Incompreendidos, de François Truffaut, 1959, e o menino de Paris que foge para ver o mar.

 
 

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