|
|
| {{subiu_orn | }} |
{{subiu_num | }} |
{{subiu_orn | }} |
{{subiu_caps | }}
{{subiu_linha | }}
|
|
O menino de camiseta listrada que sai atrás do pai
São 80 minutos: play às 20h30, ponto final às 21h50, e um desenho brasileiro que a mesa acompanha sem ler legenda.
|
O menino, a estrada e o trem que parte
|
| ▼ |
| |
Alê Abreu explicou a escolha do idioma numa mesa do festival de Annecy, na França, em junho de 2014, diante de uma plateia que não falava uma palavra de português: "Gravamos as falas em português e tocamos a fita invertida, para ninguém entender o texto e todo mundo entender a cena." A sala riu, e logo depois o filme dele levou o Cristal, o prêmio principal da mostra de longas. O programa se chama O Menino e o Mundo, tem direção e roteiro de Alê Abreu, produção brasileira, 80 minutos. A animação foi desenhada à mão, com lápis de cor, giz de cera, caneta esferográfica e recorte de revista colado por cima, e o traço tem a precisão de um caderno de criança de propósito. A história começa numa casa de tábuas no campo. O menino brinca sozinho com um cata-vento e escuta a música que o pai toca; numa manhã, o pai arruma uma trouxa e embarca no trem que leva trabalhador para a cidade grande. O menino guarda uma fotografia dentro de uma caixinha, atravessa o portão e sai atrás dele. O que ele encontra pelo caminho é o país inteiro em corte transversal: a lavoura de algodão com os colhedores curvados, o caminhão que leva a saca, a tecelagem com os teares ligados dia e noite, o porto com os contêineres empilhados e o navio que leva tudo embora. A trilha sustenta metade do trabalho. Ruben Feffer e Gustavo Kurlat assinam a música, há bloco de carnaval, frevo de banda de rua e uma faixa de Emicida numa das paradas da viagem, e a fala invertida vira mais um instrumento no meio dessa mistura. O programa de hoje tem um cata-vento de papel, três velhos que carregam o menino nas costas, uma lavoura que vira tecido, um pássaro colorido contra um pássaro de ferro e uma fotografia que atravessa oitenta minutos dentro de uma caixa. Continue lendo ↓ |
|
|
|
I O Programa de Hoje
I, Oitenta minutos de um país visto da altura de uma criança
|
|
O programa de hoje é O Menino e o Mundo, disponível em serviço por assinatura e também por aluguel avulso nas lojas digitais, 80 minutos. Play às 20h30 e ponto final às 21h50. Direção e roteiro de Alê Abreu, produção brasileira de 2013.
O protagonista se chama Cuca, um garoto de camiseta listrada e calça curta que mora com os pais numa casa isolada, cercada de mato, morro e linha de trem. A mãe cozinha e estende roupa no varal; o pai toca uma melodia de três notas numa flauta improvisada, e essa melodia volta em cada etapa da viagem como pista de que o homem passou por ali.
O enredo se arma em três movimentos. No primeiro, o pai embarca e o menino decide segui-lo, carregando uma foto da família numa caixinha de lata. No segundo, ele atravessa a lavoura de algodão e é adotado pela turma de colhedores, gente que dorme em alojamento coletivo e é dispensada quando a máquina chega. No terceiro, ele chega à cidade portuária, dorme embaixo de viaduto e vê o algodão que colheram virar rolo de tecido e depois carga de navio.
A narrativa não usa frase legível em nenhum momento. Os personagens emitem sons de conversa, a fita gravada em português é reproduzida invertida, e o entendimento vem do desenho: quem manda e quem obedece aparece na diferença de tamanho, o cansaço aparece na curvatura das costas.
|
A virada chega pela escala. Enquanto o menino é pequeno, o mundo é feito de flores, bichos e fitas de cor; conforme ele desce para a lavoura e para a fábrica, a página se enche de carimbo cinza, engrenagem e propaganda recortada de revista velha. Alê Abreu chega a interromper o traço e inserir imagens reais de derrubada de mata e de caminhão de carga, numa sequência curta que quebra o desenho por dentro.
|
Os três velhos da estrada funcionam como contrapeso. Um colhedor de algodão, um tecelão e um pescador aposentado acolhem o garoto em etapas diferentes, cada um perde o próprio emprego para uma máquina nova, e nenhum deles reclama em cena: a perda aparece na mala arrumada e no ônibus que sai.
A disputa dos pássaros é a parte mais comentada. Um pássaro de penas coloridas, montado com retalhos de papel, enfrenta um pássaro escuro feito de chapa, hélice e fumaça, e a briga se resolve em pleno céu sobre a cidade portuária, com o povo olhando de baixo.
O desfecho vira o filme do avesso, e é justo contar o que ele esconde. O menino reencontra a casa de tábuas, tira a fotografia da caixa de lata e a imagem mostra três figuras adultas em vez do casal que a memória guardava. O velho de barba branca que aparece nos primeiros minutos, sentado sozinho numa varanda, é o próprio Cuca envelhecido, e a viagem toda é lembrança dele. O pai nunca reaparece em cena: o filme não diz se ele voltou, se morou no porto ou se seguiu em outro trem, e Alê Abreu manteve a lacuna nas entrevistas de lançamento, dizendo que o destino do homem importa menos que o país que o menino viu no caminho.
|
|
|
|
|
II Se a Noite Pedir Outra Coisa
II, Uma ilha sem nenhuma palavra ou um urso que acolhe uma ratinha
|
|
Nem toda mesa aceita lavoura, fábrica e porto às nove da noite. As duas saídas de hoje mantêm o desenho à mão e a dispensa de legenda: uma troca a estrada por uma praia deserta, a outra troca a denúncia por uma amizade entre dois bichos que deveriam se odiar.
|
Se a noite pedir silêncio e mar, o programa é A Tartaruga Vermelha, disponível em serviço por assinatura, 80 minutos. Play às 20h30 e ponto final às 21h50.
Michaël Dudok de Wit dirige em 2016 a história de um náufrago que acorda numa ilha tropical sem gente, constrói uma jangada de bambu três vezes e três vezes vê a embarcação ser destruída por uma tartaruga gigante de casco vermelho. A produção é franco-japonesa, com o Studio Ghibli entre os parceiros, e não existe uma única linha de diálogo no filme inteiro: o som é vento, onda, pássaro e dois ou três gritos.
A ponte com o programa principal está no jeito de contar. Cuca entende o mundo pelo tamanho das coisas; o náufrago entende a ilha pela repetição dos gestos, e nos dois casos a plateia recebe a informação pelos olhos.
Se a noite pedir leveza e risada, o programa é Ernest e Celestine, disponível em serviço por assinatura e por aluguel avulso, 79 minutos. Play às 20h30 e ponto final às 21h49.
Benjamin Renner, Stéphane Aubier e Vincent Patar dirigem em 2012 a amizade entre um urso músico que passa fome no inverno e uma ratinha dentista que se recusa a viver no subterrâneo com as outras. A aquarela é aplicada direto sobre fundo branco, sem contorno duro, e o roteiro adapta os livros infantis da belga Gabrielle Vincent. A versão dublada em português resolve a mesa com criança pequena que ainda não lê.
Regra de bolso para a noite: se a casa aceita ritmo lento, plano longo e um final que dói em silêncio, vá de A Tartaruga Vermelha. Se a mesa tem criança de seis anos e alguém cansado do trabalho, Ernest e Celestine entrega 79 minutos de piada visual e reconciliação.
|
| |
|