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O prédio de Copacabana onde 276 portas se abriram para a câmera
São 110 minutos: play às 20h30, ponto final às 22h20, e um documentário que nunca põe o pé fora do corredor do prédio.
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O corredor, as portas numeradas e a luz acesa
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Eduardo Coutinho resumiu o próprio método numa mesa de debate do festival É Tudo Verdade, no Rio de Janeiro, em 2002, diante de uma plateia de documentaristas: "Eu não filmo sobre as pessoas, filmo com elas, e o filme só começa quando a porta abre." O longa que ele acabara de montar tinha sido rodado inteiro dentro de um prédio residencial de Copacabana, sem uma única saída para a calçada. O programa se chama Edifício Master, tem direção de Eduardo Coutinho, produção brasileira da Videofilmes, 110 minutos. A fotografia é de Walter Carvalho, não existe narração em off nem trilha composta para o filme, e a câmera não registra nenhuma imagem da praia que batiza o bairro. O prédio guarda 276 apartamentos conjugados, quarto e sala no mesmo cômodo, cozinha de dois passos, janela para a rua ou para o poço de ventilação. São cerca de quinhentos moradores empilhados em andares ligados por um corredor estreito e por dois elevadores que quase nunca sobem vazios. A equipe se instalou no lugar por uma semana. Pesquisadores bateram nas portas antes, conversaram com quem aceitou conversar e montaram a lista dos apartamentos; depois a câmera entrou, sentou de frente para o morador e ficou ligada enquanto a conversa durasse. O que sai dali é uma fila de vidas contadas em primeira pessoa, na própria cama, no próprio sofá, com a televisão desligada atrás: o porteiro que conhece cada morador pela voz no interfone, a mulher que cria a neta sozinha, o aposentado que ocupa a mesma quitinete há duas décadas, o rapaz que ensaia música de madrugada e pede para o vizinho não reclamar. O programa de hoje tem 276 portas iguais, dois elevadores, uma semana de gravação, zero plano de rua e uma pergunta repetida apartamento por apartamento: quem é você? Continue lendo ↓ |
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I O Programa de Hoje
I, Uma semana de filmagem entre o elevador e a porta da sala
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O programa de hoje é Edifício Master, disponível em serviço por assinatura de catálogo brasileiro e também por aluguel avulso nas lojas digitais, 110 minutos. Play às 20h30 e ponto final às 22h20. Direção de Eduardo Coutinho, produção brasileira de 2002.
Eduardo Coutinho chegou ao prédio de Copacabana com vinte anos de conversa filmada nas costas. Ele já tinha assinado Cabra Marcado para Morrer, terminado em 1984 depois de uma interrupção de quase duas décadas, e Santo Forte, de 1999, rodado numa favela carioca. A cadeira de frente para o entrevistado virou a ferramenta dele, e aqui a cadeira desce de andar em andar.
A regra do filme é severa e fácil de conferir: a câmera não sai do prédio. Não há imagem aérea, não há avenida, não há mar. O espectador entra pela portaria, sobe de elevador, caminha pelo corredor de lâmpada fraca e entra nos apartamentos, e a cidade inteira chega apenas pela boca de quem mora ali.
A conversa também tem regra. Coutinho pergunta pouco, quase sempre em voz baixa e fora de quadro, deixa o silêncio esticar e não corrige ninguém. Quando um morador conta uma versão generosa da própria biografia, o filme não vai atrás de documento nem de contraprova: o que interessa é a pessoa falando na frente da lente, agora.
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A virada chega pela repetição da planta. Todos os apartamentos têm a mesma metragem, a mesma pia, a mesma janela, e nenhuma das vidas contadas dentro deles se parece com a do vizinho de parede. O filme empilha depoimentos até que a igualdade do imóvel vire o contraste mais forte da tela, e o prédio deixa de ser cenário para virar argumento.
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O que aparece nessas salas é o inventário de uma classe média que encolheu. Casamento desfeito e recomeçado no andar de cima, emprego que acabou, filho que mora longe, dívida quitada com orgulho, amor de juventude lembrado nome por nome, plano de carreira que ficou no meio do caminho. Cada morador escolhe o que conta, e a escolha já diz muito.
O filme recusa a via do especialista. Não existe sociólogo explicando Copacabana, tabela de renda, gráfico de ocupação nem historiador falando sobre a verticalização do bairro nos anos 1950. A tese, se existe, é montada pelo espectador enquanto os depoimentos se acumulam, e Coutinho corta as próprias perguntas sempre que a resposta se sustenta sozinha.
O encerramento não entrega destino de ninguém, e é justo dizer o que fica em aberto. O filme termina no prédio, com o corredor e as portas fechadas, sem cartela informando quem se mudou, quem ficou, quem casou ou quem perdeu o emprego depois da filmagem. Coutinho defendia em entrevistas de lançamento que o encontro morava dentro daquela semana e que acompanhar personagem depois da gravação transformaria o trabalho em reportagem de acompanhamento, que ele não queria fazer. O prêmio de melhor documentário brasileiro no festival É Tudo Verdade de 2002 veio por esse recorte, não apesar dele.
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II Se a Noite Pedir Outra Coisa
II, Uma sala cheia de santos invisíveis ou um palco de histórias trocadas
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Nem toda mesa aceita gente desconhecida contando a própria vida por 110 minutos. As duas saídas de hoje mantêm o mesmo diretor e a mesma cadeira de frente para o entrevistado: uma troca o prédio por salas onde se fala de santo e de aparição, a outra embaralha quem viveu a história e quem a interpreta.
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Se a noite pedir mistério doméstico, o programa é Santo Forte, disponível em serviço por assinatura, 80 minutos. Play às 20h30 e ponto final às 21h50.
Eduardo Coutinho dirige em 1999 uma rodada de conversas com moradores de uma favela do Rio de Janeiro sobre fé cotidiana. Católicos, evangélicos e gente de terreiro contam aparição na cozinha, promessa paga com sacrifício, conversa com parente que já partiu e briga com o santo que demorou a responder. A fotografia é de Walter Carvalho, a mesma do prédio de Copacabana.
A ponte com o programa principal está na posição da câmera. Nos dois casos o cômodo é apertado, o entrevistado escolhe o que revela e o diretor aceita a versão que recebe, sem narrador para arbitrar.
Se a noite pedir jogo de espelhos, o programa é Jogo de Cena, disponível em serviço por assinatura e por aluguel avulso, 105 minutos. Play às 20h30 e ponto final às 22h15.
Coutinho publica em 2007 um anúncio de jornal convocando mulheres com histórias para contar, senta as que apareceram num teatro vazio do Rio de Janeiro e filma cada depoimento no palco. Depois chama atrizes, entre elas Fernanda Torres, Marília Pêra e Andréa Beltrão, para repetir as mesmas falas na mesma cadeira. Em pouco tempo a plateia perde a fronteira entre a mulher que viveu a história e a atriz que a reconstrói, e o filme não devolve a fronteira no final.
Regra de bolso para a noite: se a casa quer conversa quente, risada e susto, vá de Santo Forte, que mistura devoção e humor em 80 minutos. Se a mesa gosta de discutir depois, Jogo de Cena rende uma hora de argumento na cozinha sobre o que é verdade dita para uma câmera.
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