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O rato na cozinha de Paris e o prato de comida pobre

São 111 minutos entre uma casa de campo e o restaurante mais temido de Paris: play às 20h30 e ponto final às 22h21.

Cozinha profissional de um restaurante em Paris, com a brigada em serviço e um rato escondido embaixo do chapéu do cozinheiro.

A cozinha do Gusteau's, Paris, 2007

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“Qualquer um pode cozinhar", diz Auguste Gusteau da capa do próprio livro, na cozinha de uma casa de campo a poucas horas de Paris, enquanto um rato de olfato apurado assiste pela televisão ligada no canto. A frase leva três segundos e organiza os 111 minutos seguintes, porque ela cobra caro: se qualquer um pode, ninguém tem desculpa de origem.

Animação com bicho falante costuma tratar cozinha como cenário de piada. A panela vira brinquedo, o molho voa na parede, o chef grita de bigode torto, e a plateia adulta assiste de longe porque nada ali exige atenção. Quando a produção usa a comida só como pretexto de gag, o prato nunca dá fome de verdade.

A escolha aqui é a oposta e explica por que adulto sai da sessão querendo cozinhar. A câmera trata a cozinha profissional como oficina de gente cansada, com brigada dividida por posto, comanda cantada em voz alta, queimadura no antebraço e hierarquia militar. Um erro de tempero custa a praça de alguém, e o roteiro trata essa pressão como assunto adulto, não como travessura.

Existe uma decisão de produção que sustenta o resto e custou tempo. A equipe da Pixar passou temporadas em Paris, estagiou em cozinha de restaurante para copiar movimento de brigada e chamou o cozinheiro americano Thomas Keller para desenhar a versão do prato que dá título ao filme, o confit byaldi, servido em rodelas finas num espiral. Os animadores também mantiveram ratos vivos no estúdio por meses para estudar pelo, patas e nariz.

Para a mesa de casa, vale um aviso de expectativa. O primeiro terço anda rápido e é engraçado, mas a última meia hora muda de registro e vira uma conversa dura sobre quem tem direito de julgar o trabalho dos outros. Criança ri no começo e fica quieta no fim, geralmente porque entendeu.

O programa de hoje tem um rato conduzindo um cozinheiro desastrado pelos cabelos, uma brigada inteira ameaçando pedir demissão, um inspetor de saúde a caminho e o crítico mais temido da cidade sentado numa mesa vazia esperando para destruir a casa.

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I  O Programa de Hoje

Cento e onze minutos e uma colherada de comida de camponês

O programa de hoje é Ratatouille, disponível em serviço por assinatura e também por aluguel avulso nas lojas digitais, 111 minutos. Play às 20h30 e ponto final às 22h21. Direção de Brad Bird, produção americana de 2007, com dublagem brasileira disponível e faixa original em inglês e francês.

A história começa no telhado. Remy é um rato de olfato fora do comum que vive numa colônia dedicada a roubar restos de lixo, e recusa o cardápio da família porque consegue distinguir cogumelo, açafrão e queijo pelo cheiro. A colônia inteira acha o dom dele um problema de convivência.

Uma enchente separa Remy do bando e o joga no esgoto de Paris, onde ele emerge embaixo do restaurante que já foi o mais premiado da cidade e hoje corre atrás do próprio nome. O fundador morreu, a casa perdeu estrela de guia e o cardápio virou linha de congelados com a cara do chef estampada na embalagem.

Dentro da cozinha, Remy encontra Linguini, um rapaz recém contratado para lavar chão que estraga uma sopa por acidente. O rato conserta a panela às escondidas, a sopa sai da cozinha antes que alguém perceba e o cliente elogia. A partir daí os dois montam um acordo esquisito: Remy se esconde embaixo do chapéu e conduz os braços do rapaz puxando tufos de cabelo.

A brigada não é figuração. Colette é a única mulher da linha e explica em voz alta o que custou entrar ali, Skinner administra a casa como executivo de marca e o restante da equipe carrega passado de presídio, de barco pesqueiro e de contrabando. Cada um defende a própria praça com ferocidade de quem levou anos para conquistá-la.

O antagonista de verdade escreve. Anton Ego é o crítico que derrubou a casa anos antes com uma resenha e volta para conferir o burburinho, com cara de urubu e uma sala de trabalho em formato de caixão. A ameaça dele é econômica e concreta: uma coluna ruim fecha a porta e manda quinze pessoas para a rua.

"Nem todos podem se tornar grandes artistas, mas um grande artista pode vir de qualquer lugar."

Brad Bird, Ratatouille, 2007

O prato que decide a história é o mais barato do cardápio. Ratatouille é comida de camponês do sul da França, legume cortado e cozido devagar, e Remy serve exatamente essa receita ao crítico numa noite em que a casa esperava técnica de alta gastronomia. A primeira garfada devolve Ego à cozinha da mãe dele, numa cena de dez segundos que troca a luz, o som e a idade do personagem.

O texto que Ego escreve depois vale a sessão inteira. Ele admite em público que a profissão dele arrisca pouco e vive de julgar o risco alheio, e assume a consequência do que assinou. A resenha fecha com a frase de Gusteau interpretada de outro jeito, e o final não devolve o restaurante premiado ao personagem, cobra um preço.

Para a noite, o encaixe é fácil. São 111 minutos com ritmo constante, trilha de Michael Giacchino puxando acordeão e sopro, e uma sequência de perseguição no meio que segura a atenção de quem tem sono. O filme levou o Oscar de melhor animação em fevereiro de 2008.

 
 

II  Se a Noite Pedir Outra Coisa

Um balcão de sushi em Tóquio ou uma chapa quente em Miami

Nem toda mesa quer legenda e animação na mesma noite. As duas saídas de hoje ficam no mesmo território, gente que cozinha para viver, e trocam a temperatura: uma mostra a obsessão levada ao limite, a outra mostra o recomeço depois da queda.

Se a noite pedir cozinha de verdade e nenhum roteiro, o programa é Jiro Dreams of Sushi, disponível em serviço por assinatura e por aluguel avulso, 81 minutos. Play às 20h30 e créditos às 21h51.

O documentário acompanha Jiro Ono, então com oitenta e cinco anos, dono de um balcão de dez lugares dentro de uma estação de metrô em Tóquio que servia menu único e cobrava caro. David Gelb dirige, e a câmera passa mais tempo no aprendiz que massageia polvo por quarenta minutos do que no próprio chef. O filho mais velho aparece esperando a vez de assumir a casa, aos cinquenta anos.

O contraste com o programa principal é direto. A animação diz que talento pode nascer em qualquer lugar, e o documentário responde que talento sem trinta anos de repetição não chega a lugar nenhum. As duas produções tratam de excelência, e quem assiste as duas fica com a discussão inteira na mesa.

Se a noite pedir algo leve, com comida bonita e nenhuma tensão, o programa é Chef, disponível em serviço por assinatura e por aluguel avulso, 114 minutos. Play às 20h30 e créditos às 22h24.

Jon Favreau dirige e protagoniza a história de um chef de restaurante caro que briga com um crítico na internet, perde o emprego e compra uma van velha para vender sanduíche de queijo quente pela estrada, entre Miami e Los Angeles, com o filho de dez anos na copa. Roy Choi, cozinheiro de rua de Los Angeles, assinou a consultoria dos pratos, e as cenas de preparo foram filmadas sem corte para valer.

A proximidade com o programa principal está no assunto que ninguém gosta de discutir. As duas produções colocam um crítico no centro da trama e perguntam quanto vale a opinião de quem escreve sobre trabalho que não faz. A diferença é de tom, porque a animação perdoa o crítico e o filme americano prefere brigar com ele.

Regra de bolso para hoje: se a mesa quer silêncio, legenda em japonês e imagem bonita, vá de Jiro Dreams of Sushi. Se quer rir, ver comida boa e dormir de bom humor, Chef entrega o mesmo tema pelo lado leve.

 

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III  Sai do Catálogo

Filme de estúdio dono da vitrine quase não sai, mas o áudio muda

Ratatouille está numa situação de catálogo confortável e por um motivo estrutural: o estúdio que produziu o filme também opera o serviço por assinatura que o exibe. Não existe negociação de licença entre duas empresas, então o título não tem prazo de contrato correndo contra ele, e a saída depende de decisão interna, o que é raro.

Só que a estabilidade do título não vale para as faixas de áudio. Filme de animação de 2007 recebeu dublagem em vários idiomas ao longo de duas décadas, e a versão brasileira nem sempre acompanha o arquivo em todas as regiões e em todas as resoluções, principalmente quando o serviço substitui o master por uma remasterização.

Existe também a camada do plano contratado. Serviço por assinatura com faixa mais barata e com anúncio costuma limitar resolução, som multicanal e download para assistir fora de casa, e o mesmo filme, na mesma conta, aparece diferente em duas televisões da mesma sala.

O aluguel avulso continua sendo a saída de emergência porque é vendido por transação. A loja digital paga o detentor a cada compra, então o título fica na prateleira mesmo quando some do serviço, e a página costuma oferecer aluguel e compra definitiva lado a lado.

A informação de idioma fica na ficha do título, junto com a lista de faixas e de legendas. Vale abrir essa ficha com a televisão ligada e a mesa ainda de pé, porque descobrir a ausência da dublagem com criança de seis anos sentada estraga a noite.

1. Confira na ficha se a dublagem em português está listada, e não apenas a legenda. Criança pequena não acompanha legenda, e a sessão trava nos primeiros dez minutos se a família precisar ler em voz alta.

2. Teste o áudio nos primeiros trinta segundos, porque parte do filme se apoia em som ambiente de cozinha, com panela, exaustor e comanda cantada ao fundo, e caixa de televisão em modo padrão engole essa camada.

3. Se o serviço exibir apenas em resolução baixa por causa do plano com anúncio, resolva pelo aluguel avulso nas lojas digitais, na faixa de dez a vinte reais por 48 horas, que entrega a versão em alta definição sem interrupção comercial.

A confusão de idioma acontece porque cada região do serviço monta o pacote de faixas separadamente, porque remasterização troca o arquivo sem aviso, e porque o plano barato corta recurso antes de cortar catálogo.

Play às 20h30, ponto final às 22h21, e um crítico que precisou de uma garfada de legume cozido para admitir por escrito o tamanho do estrago que a caneta dele já fez.

"Quanto de um prato é a receita e quanto é a lembrança de quem está comendo?"

 
 

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