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Os 2 infiltrados de Hong Kong que caçavam um ao outro

Andrew Lau e Alan Mak, 2002, 101 minutos: play às 20h30 e dois espiões trocados entre polícia e máfia.

Dois homens de terno num terraço de Hong Kong, um deles apontando uma pistola para o outro.

Chan e Lau no terraço do prédio

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No terraço de um prédio comercial de Hong Kong, o policial Chan Wing-yan encosta o cano de uma pistola na cabeça do inspetor Lau Kin-ming e diz, sem levantar a voz: “Desculpe, eu sou policial.”

A frase parece óbvia. Lau também é policial, tem distintivo, sala própria e uma promoção recente na divisão de inteligência da polícia local. Quem segura a arma é o sujeito que passou dez anos fichado como bandido.

Chan, vivido por Tony Leung Chiu-wai, foi expulso da academia de polícia aos olhos de toda a turma. A expulsão era encenação: ele virou agente infiltrado na quadrilha de Hon Sam, chefão das tríades (as máfias chinesas de Hong Kong).

Lau, vivido por Andy Lau, fez o caminho contrário. Entrou na mesma academia, no mesmo ano, mandado pelo próprio Hon Sam. Subiu por mérito, prendeu rivais do chefe e ganhou a confiança dos superiores, que nunca desconfiaram da ficha limpa dele.

Os dois não sabem da existência um do outro. Cada lado descobre, numa mesma noite, que tem um espião dentro de casa, e cada um dos infiltrados recebe a tarefa de achar o traidor.

Lau é encarregado de caçar o informante da polícia na quadrilha. Chan recebe do chefe da máfia a ordem de farejar o informante da quadrilha na polícia. Um procura o outro sem saber o rosto que procura.

O terraço vem perto do final, e a arma na cabeça de Lau ainda não resolve nada. Antes dela há uma loja de som, uma carga de cocaína jogada no mar, um superintendente que despenca do alto de um prédio e uma mensagem batida com a ponta dos dedos.

O Programa de Hoje volta a 1991, ao templo onde Hon Sam escolheu os rapazes que mandaria para a academia, e segue os dez anos de mentiras paralelas.

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I  O Programa de Hoje

I, Dez anos de crachá trocado e uma carga no fundo do mar

O programa desta noite é Conflitos Internos, título original Mou Gaan Dou, lançado em inglês como Infernal Affairs, filme de Hong Kong de 2002, 101 minutos, dirigido por Andrew Lau e Alan Mak, com Andy Lau, Tony Leung Chiu-wai, Anthony Wong e Eric Tsang. Play às 20h30 e ponto final às 22h11.

A abertura mostra Hon Sam, vivido por Eric Tsang, num templo budista, cercado de garotos recém-recrutados. Ele explica que cada um vai estudar na academia de polícia e trabalhar para ele por dentro. Lau é um deles.

Na academia, o superintendente Wong Chi-shing, vivido por Anthony Wong, escolhe o cadete Chan para a missão oposta. Expulsa o rapaz diante da turma, apaga o histórico oficial e só ele e mais uma pessoa da corporação conhecem a missão.

O filme salta para 2002. Chan carrega dez anos de prisões, brigas e tatuagens. Faz sessões obrigatórias com a psiquiatra Lee Sum-yee, vivida por Kelly Chen, e conta a ela que dorme mal e tem medo de esquecer quem é.

Lau mora num apartamento novo, está noivo da escritora Mary, vivida por Sammi Cheng, e acaba de ser promovido. A vida dele é a que Chan deveria ter tido.

Os dois se cruzam pela primeira vez sem saber. Numa loja de equipamento de som, Lau testa um par de caixas com uma canção da cantora Tsai Chin, e Chan, que trabalha no balcão como fachada, recomenda um cabo melhor.

Pouco depois, a polícia monta uma operação para flagrar a quadrilha numa entrega de cocaína no porto. Chan está no grupo de Hon Sam e passa a Wong, por código Morse batido com os dedos, a hora e o local da carga.

Lau está na sala de comando ao lado de Wong. Ouve tudo pelo rádio e manda mensagens de texto escondidas para Hon Sam. O chefe manda jogar a droga no mar antes da abordagem, e a polícia chega a um barco limpo.

A operação termina sem prisão e sem prova. Pela primeira vez, Wong e Hon Sam entendem, cada um do seu lado, que o inimigo tem um homem infiltrado dentro de casa.

A partir dali o roteiro vira uma corrida de duas mãos. Hon Sam reúne os capangas e pede a cada um o número do documento de identidade, para que o infiltrado da polícia escreva o próprio nome.

Wong, por sua vez, dá a Lau a missão de achar o espião da máfia. Lau recebe a ordem de caçar a si mesmo e passa a usar a investigação para descobrir também quem é o infiltrado da polícia.

Wong marca um encontro com Chan no terraço de um prédio para tirá-lo da missão. Os homens de Hon Sam, guiados pelas pistas de Lau, sobem as escadas. Wong distrai os capangas para Chan fugir e é jogado do alto do prédio. Cai sobre o capô de um táxi, diante de Chan.

Andrew Lau, que também fotografou o filme, usa vidro, espelho e reflexo em quase toda cena dos dois protagonistas. A dupla de diretores conta a história em 101 minutos, sem cena de ação longa: a tensão vem de telefones, pastas e corredores.

 
 

II  Se a Noite Pedir Outra Coisa

II, Um remake em Boston e um agente do FBI na família Bonanno

As duas saídas desta noite giram em torno de um policial vivendo dentro do crime, uma refilmagem americana premiada e um caso real que durou seis anos.

Se a noite pedir a versão de Hollywood, o programa é Os Infiltrados, título original The Departed, de Martin Scorsese, 2006, 151 minutos, disponível no aluguel digital. Play às 20h30 e ponto final às 23h01.

O roteiro de William Monahan leva a trama para Boston. Leonardo DiCaprio é Billy Costigan, o policial infiltrado na quadrilha irlandesa. Matt Damon é Colin Sullivan, o protegido do mafioso que cresce dentro da polícia estadual.

Jack Nicholson vive Frank Costello, o chefão, inspirado no gângster real de Boston James Whitey Bulger. Scorsese mantém a espinha da história de Hong Kong, mas acrescenta uma hora de filme, mais violência e uma psiquiatra que namora os dois infiltrados.

Os Infiltrados ganhou 4 Oscars na cerimônia de 2007: melhor filme, direção, roteiro adaptado e montagem. Foi a primeira estatueta de Scorsese depois de cinco indicações anteriores como diretor.

Quem vê os dois na mesma semana repara nas trocas. A versão de Boston fala mais, explica mais e dá ao chefão um papel maior. A de Hong Kong é seca e deixa o peso nos olhos de Tony Leung.

Se a noite pedir um caso real, o programa é Donnie Brasco, de Mike Newell, 1997, 127 minutos, disponível no aluguel digital. Play às 20h30 e ponto final às 22h37.

Johnny Depp vive Joseph Pistone, agente do FBI que entre 1976 e 1982 viveu com o falso nome de Donnie Brasco dentro da família Bonanno, uma das cinco famílias da máfia de Nova York.

Al Pacino é Lefty Ruggiero, matador de carreira cansado e mal pago que adota o rapaz como afilhado. O filme se apoia na amizade da dupla: Pistone sabe que, quando a missão acabar, Lefty pagará pela confiança que depositou nele.

O roteiro de Paul Attanasio adapta o livro que o próprio Pistone escreveu com Richard Woodley e publicou em 1988. As provas que Pistone juntou sustentaram processos contra dezenas de chefes da máfia nova-iorquina.

Regra de bolso: se a casa quer ritmo, elenco grande e tiroteio, vá de Os Infiltrados. Se quer saber quanto custa a amizade com quem você está enganando, vá de Donnie Brasco.

 

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III  Sai do Catálogo

III, Um envelope na mesa e um elevador que fecha a porta

Conflitos Internos aparece no aluguel digital, e o catálogo de streaming muda de mês a mês. Confira Andrew Lau, Alan Mak, 2002 e 101 minutos antes do play: as continuações de 2003, Conflitos Internos 2 e 3, costumam surgir na mesma busca.

O título original, Mou Gaan Dou, quer dizer caminho sem intervalo, em cantonês. Assim se chama o Avici, o inferno budista contínuo, onde o sofrimento não tem pausa. O filme abre com essa definição na tela.

Volte ao final. Lau dispara contra Hon Sam num estacionamento e passa por herói. Chan, convocado para depor na delegacia, vê sobre a mesa de Lau um envelope com a mesma letra do envelope que Hon Sam usava para receber informações da polícia.

Chan foge com o envelope. Lau, sozinho na sala, apaga do sistema o arquivo que prova a identidade de Chan como policial. Sem o arquivo, Chan volta a ser, no papel, só um bandido.

Os dois se encontram no terraço do começo da edição. Lau pede uma chance e diz que quer recomeçar limpo. Chan prepara a prisão e leva o inspetor algemado para o elevador.

No elevador, o inspetor Lam, vivido por Gordon Lam, dispara contra Chan pelas costas. Lam era outro infiltrado de Hon Sam. Lau atira em Lam e sai do prédio como o único policial que restou em pé.

A psiquiatra Lee Sum-yee guarda no computador a ficha de Chan e a entrega à polícia. Chan é enterrado como policial, com honras. Lau bate continência no enterro, livre e infeliz.

Na versão exibida na China continental, a censura exigiu outro desfecho: Lau é preso no estacionamento. Em Hong Kong e no resto do mundo ficou o final em que ele escapa.

O filme venceu 7 prêmios no Hong Kong Film Awards de 2003, entre eles melhor filme, e o próprio Tony Leung levou o de melhor ator.

No terraço, antes da algema, Lau tenta convencer Chan a deixá-lo partir:

“Eu quero ser uma pessoa boa.” (Lau Kin-ming, personagem de Andy Lau, em Conflitos Internos, 2002)

1. Confira direção, ano e duração antes do play: Andrew Lau, Alan Mak, 2002 e 101 minutos.

2. Na loja de som, repare quem recomenda o cabo: os dois protagonistas dividem a cena sem saber.

3. Na operação do porto, observe os dedos de Chan sobre a mesa: é ali que passa o código Morse.

Play às 20h30, dois crachás trocados e um elevador que decide quem sai do prédio.

“Na sua casa, quem aguentaria dez anos vivendo como o oposto do que é?”

Na próxima edição: Oldboy, de Park Chan-wook, 2003, e o corredor de martelo filmado num plano só.

 
 
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No porto, como o infiltrado Chan avisa o superintendente Wong sobre a hora e o local da carga de cocaína?

APor um bilhete escondido na manga da jaqueta
BPor código Morse batido com os dedos
CPor uma ligação de telefone público
DPor mensagens de texto escondidas

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