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Os 2 vizinhos que ensaiaram a conversa que nunca tiveram
Wong Kar-wai, 2000, 98 minutos: play às 20h30 e um casal traído que ensaia a briga.
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Su Li-zhen e Chow Mo-wan na escada da barraca
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Su Li-zhen diz a Chow Mo-wan, numa mesa de restaurante de Hong Kong, em 1962: "Nós não vamos ser como eles." Eles são os cônjuges dos dois. O marido de Su viaja a trabalho pelo Japão, a esposa de Chow faz plantão no hotel onde trabalha, e os dois ausentes, descobrem os vizinhos, viajam juntos. A descoberta vem pelos objetos. Su carrega uma bolsa que o marido trouxe de fora, e a esposa de Chow tem uma igual. Chow usa uma gravata que ganhou da mulher, e o marido de Su tem a mesma. Os quatro moram em quartos alugados, porta com porta, num prédio de famílias vindas de Xangai. Chow e Su se mudaram na mesma manhã, com os carregadores trocando as caixas de um apartamento pelo do outro no corredor estreito. A partir dali, a vida dos dois vira uma soma de encontros curtos. Ela desce de vestido justo para comprar macarrão na barraca da esquina, ele sobe com a marmita, e os dois se cruzam na escada sem trocar mais que um aceno. O filme é Amor à Flor da Pele, de Wong Kar-wai, com 98 minutos. Quem aperta o play às 20h30 chega aos créditos às 22h08. O marido e a esposa traidores quase não aparecem. Wong filma os dois de costas, de longe ou só pela voz atrás de uma porta, e o espectador nunca vê o rosto de nenhum. O resto do filme é ensaio. Chow e Su encenam, numa sala fechada, como teria começado o caso dos cônjuges, quem convidou quem, quem pediu o quê. Depois ensaiam a conversa em que ela confronta o marido, e Chow faz o papel do traidor. Ela não aguenta a resposta que já sabia. Chora no ensaio, e o confronto real, com o marido em carne e osso, não acontece em cena nenhuma. O Programa de Hoje mostra como Wong conta um caso de amor só com quem foi deixado de fora dele, do corredor do prédio até um buraco numa parede do Camboja. Continue lendo ↓ |
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I O Programa de Hoje
I, Uma barraca de macarrão e duas portas vizinhas
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O programa desta noite é Amor à Flor da Pele, título original Fa yeung nin wa (os anos em flor, em cantonês), drama de Hong Kong de 2000, 98 minutos, com Maggie Cheung e Tony Leung, restaurado em 4K pela Criterion Collection. Play às 20h30 e ponto final às 22h08.
Tony Leung é Chow Mo-wan, editor de um jornal. Maggie Cheung é Su Li-zhen, secretária numa empresa de navegação. O prédio pertence à senhora Suen, uma senhoria que joga mahjong (jogo chinês de peças, para quatro pessoas) até de madrugada e repara em tudo.
O vigia da história é o próprio prédio. Os corredores são tão estreitos que dois vizinhos não passam sem se encostar, e Wong filma quase sempre por uma fresta: o batente de uma porta, uma cortina, o reflexo de um espelho.
Maggie Cheung troca de vestido a cada cena. São mais de 20 qipaos (vestido chinês justo, de gola alta), e cada troca marca um dia diferente. O espectador percebe a passagem do tempo pela estampa, sem nenhuma legenda de data.
A música repete o mesmo trecho. O Tema de Yumeji, uma valsa para cordas de Shigeru Umebayashi, toca cada vez que os dois se cruzam em câmera lenta, a caminho da barraca de macarrão. No rádio, Nat King Cole canta boleros em espanhol, gravados por ele em 1958 com sotaque carregado.
Chow escreve romances de capa e espada para o jornal e pede ajuda a Su. Os dois alugam o quarto 2046 de um hotel para escrever juntos, longe da senhoria. Nada acontece no quarto além do texto.
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O beijo nunca aparece. Wong filmou cenas de intimidade entre os dois e cortou todas na montagem, e o filme deixa a dúvida aberta de propósito.
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A pressão vem dos vizinhos. A senhora Suen avisa Su que uma mulher casada não sai toda noite sozinha. Su para de ir ao quarto 2046, e Chow aceita um emprego em Singapura.
Ele pede que ela vá junto. Ela chega atrasada ao quarto, ele já partiu. Em 1963, em Singapura, Su entra no apartamento de Chow enquanto ele está fora, fuma um cigarro e leva um par de chinelos dela que ele guardava. O cigarro com batom vermelho fica no cinzeiro.
Em 1966, Su volta ao prédio antigo com um menino pela mão e aluga o quarto de antes. Chow visita o andar dias depois, pergunta pelos vizinhos e ouve que uma mulher com o filho mora ali. Os dois não se encontram.
O filme fecha em Angkor Wat, o templo de pedra do Camboja, no mesmo ano. Chow sussurra um segredo num buraco da parede e tapa a fenda com barro, como num costume antigo que ele mesmo tinha contado a um amigo. O segredo nunca é revelado ao espectador.
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II Se a Noite Pedir Outra Coisa
II, Uma lata de abacaxi e uma estação de trem
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As duas saídas desta noite contam amores que não se cumprem, uma do próprio Wong Kar-wai e outra de um clássico britânico de 1945.
Se a noite pedir Hong Kong com mais pressa, o programa é Amores Expressos, de Wong Kar-wai, 1994, 102 minutos, disponível no aluguel digital e na edição da Criterion. Play às 20h30 e ponto final às 22h12.
São duas histórias de policiais largados. O policial 223, vivido por Takeshi Kaneshiro, compra uma lata de abacaxi por dia com validade para 1º de maio, o dia do aniversário dele e do fim do namoro. Se a moça não voltar até lá, ele decide esquecer.
O policial 663, de Tony Leung, frequenta uma lanchonete onde trabalha Faye, vivida pela cantora Faye Wong. Ela consegue a chave do apartamento dele e entra escondida para arrumar, trocar os peixes do aquário e as etiquetas das latas.
Faye toca California Dreamin', do grupo The Mamas and the Papas, no volume máximo o filme inteiro. No fim ela vira aeromoça, volta um ano depois e encontra 663 dono da lanchonete.
Wong rodou o filme em cerca de dois meses, numa pausa da produção de outro longa dele. A pressa aparece na câmera na mão e nas cores saturadas.
Se a noite pedir o mesmo silêncio em preto e branco, o programa é Desencanto, título original Brief Encounter (encontro breve), de David Lean, 1945, 86 minutos, disponível no aluguel digital. Play às 20h30 e ponto final às 21h56.
Laura Jesson, dona de casa vivida por Celia Johnson, tira um cisco do olho na estação de Milford com a ajuda do médico Alec Harvey, de Trevor Howard. Os dois, casados, passam a se ver toda quinta-feira no café da plataforma.
O roteiro é de Noël Coward, adaptado da peça Still Life, de 1936. A trilha é o Concerto para Piano nº 2 de Rachmaninoff, que volta a cada encontro.
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Alec aceita um emprego na África do Sul, e a despedida é interrompida por uma conhecida tagarela que senta à mesa. Laura volta para casa, e o marido, sem saber de nada, agradece por ela ter voltado.
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Regra de bolso: se a casa quer cor, música alta e humor, vá de Amores Expressos. Se quer ver o mesmo amor contido de Chow e Su numa estação inglesa, vá de Desencanto.
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