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Os pedreiros de Dakar que voltam do mar no corpo das noivas

Mati Diop, 2019, 105 minutos: play às 20h30 e os rapazes que o oceano levou cobrando o salário de madrugada.

Uma jovem senegalesa de vestido claro diante do mar de Dakar ao entardecer.

Ada diante do mar de Dakar

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No canteiro de uma torre espelhada nos arredores de Dakar, o pedreiro Souleiman e os colegas cercam o capataz da obra e cobram, todos juntos: “São três meses sem salário.”

O capataz responde que o dinheiro não chegou do patrão, o empresário N'Diaye. A torre, batizada de Muejiza, sobe à beira do oceano Atlântico como um anúncio de futuro, e quem carrega o cimento volta para casa de bolso vazio.

Naquela noite, Souleiman encontra Ada, de 17 anos, num bar de praia. Os dois se beijam escondidos. Ada está prometida pela família a Omar, rapaz rico que trabalha na Itália e mandou erguer uma casa nova para o casamento.

Souleiman não se despede. De madrugada, ele e os colegas embarcam numa piroga (o barco comprido de pesca da costa do Senegal) rumo à Espanha, atrás de um emprego que pague em dia.

Ada descobre a partida pelo celular das amigas. A mensagem que ele deixou chega tarde, e o mar não manda notícia.

O casamento com Omar acontece mesmo assim. Na noite de núpcias, a cama do casal pega fogo sem ninguém no quarto. Uma testemunha jura ter visto Souleiman no corredor da casa nova.

Ninguém acredita nela. Omar fica sem noite de núpcias, a família dele exige explicação e a vizinhança passa a olhar Ada como culpada mesmo sem prova nenhuma.

A polícia manda o jovem inspetor Issa investigar o incêndio. Ele desconfia de Ada, aperta as amigas dela e passa a acordar com febre, suando, com a sensação de que alguém dorme dentro dele.

Ao mesmo tempo, as moças do bairro começam a sair de casa de madrugada com os olhos brancos, sem pupila, e caminham em fila até a mansão de N'Diaye.

O Programa de Hoje começa pela diretora, pela praia e pelo casamento, e segue o caminho que leva os rapazes do canteiro ao fundo do mar e de volta à cidade.

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I  O Programa de Hoje

I, Uma torre sem salário e uma cama em chamas

O programa desta noite é Atlantique, título original em francês que quer dizer Atlântico, filme franco-senegalês de 2019, 105 minutos, dirigido por Mati Diop, com Mame Bineta Sane, Ibrahima Traoré, Amadou Mbow e Nicole Sougou. Play às 20h30 e ponto final às 22h15.

Mati Diop nasceu em Paris em 1982, filha do músico senegalês Wasis Diop e sobrinha do cineasta Djibril Diop Mambéty. Atlantique é o primeiro longa de ficção dela, depois de anos como atriz e diretora de curtas.

A ideia veio de um curta documental que ela filmou em Dakar em 2009, Atlantiques, com rapazes que contavam diante da câmera a travessia de piroga até as Ilhas Canárias, território espanhol na costa da África.

No longa, a travessia vira assombração. O filme quase não mostra o barco: fica em terra, com as mulheres que ficaram, e deixa o oceano em quadro como uma parede que respira.

Ada, vivida por Mame Bineta Sane, mora com os pais num bairro pobre de Dakar. A família aposta no casamento com Omar para sair do aperto. A amiga Dior, vivida por Nicole Sougou, toca o bar da praia onde os casais se encontram.

Mame Bineta Sane nunca tinha atuado. Mati Diop a encontrou na rua, num bairro da cidade, após meses de testes com moças de Dakar. Quase todo o elenco é amador e fala uolofe (a língua mais falada no Senegal), além de francês.

O casamento ocupa o primeiro terço do filme. Omar chega com presentes, a casa nova tem cama de casal ainda embrulhada em plástico, e Ada olha o celular a cada minuto, à espera de notícia do barco.

A cama pega fogo na noite de núpcias, e o filme troca de gênero sem aviso: o romance de praia vira investigação policial, e a investigação vira história de fantasma.

Issa, vivido por Amadou Mbow, é o policial encarregado. Interroga Ada numa sala abafada, recolhe o celular dela e acompanha o exame de virgindade que a família de Omar exige para manter o casamento de pé.

As febres de Issa pioram a cada noite. O roteiro, escrito por Mati Diop com Olivier Demangel, deixa o espectador perceber antes do personagem que o corpo dele também está ocupado.

A diretora de fotografia Claire Mathon filmou o mar de Dakar em quase todas as transições, sempre na luz azulada do começo da noite. A trilha eletrônica da compositora kuwaitiana Fatima Al Qadiri completa o clima de cidade em suspenso.

 
 

II  Se a Noite Pedir Outra Coisa

II, Uma moto com chifre de boi e um rei que volta ao Benim

As duas saídas desta noite ficam em família: o filme que o tio de Mati Diop rodou em Dakar em 1973 e o documentário que deu a ela o maior prêmio de Berlim.

Se a noite pedir a raiz, o programa é Touki Bouki, de Djibril Diop Mambéty, 1973, 85 minutos, disponível em plataformas de filmes clássicos. Play às 20h30 e ponto final às 21h55.

Mory, um vaqueiro, e Anta, uma estudante, cruzam Dakar numa moto com um chifre de boi preso ao guidão. Querem pegar o navio para Paris e aplicam pequenos golpes para pagar a passagem.

O título, em uolofe, quer dizer a viagem da hiena. Mambéty montou o filme aos saltos, com sons fora de lugar e cortes bruscos, e a obra virou referência do cinema africano.

Atlantique conversa direto com ele. Em Touki Bouki, os jovens sonham em partir; em Atlantique, partiram e voltaram como espírito. Em 2013, Mati Diop dirigiu o média-metragem Mil Sóis, sobre Magaye Niang, o ator que fez Mory, quarenta anos após as filmagens.

A cópia restaurada de Touki Bouki, feita pela World Cinema Foundation de Martin Scorsese, estreou em Cannes em 2008 e devolveu o filme às salas da Europa e dos Estados Unidos.

Se a noite pedir história real, o programa é Dahomey, de Mati Diop, 2024, 68 minutos, disponível no aluguel digital. Play às 20h30 e ponto final às 21h38.

O documentário acompanha 26 tesouros reais do antigo reino de Daomé, levados por tropas francesas em 1892 e devolvidos pela França ao Benim em novembro de 2021.

Uma das peças, a estátua do rei Ghezo, narra o filme em fon (língua do sul do Benim), numa voz grave sobre a tela escura. Ela fala do exílio no porão de um museu em Paris e da viagem de volta num caixote.

Depois, estudantes da Universidade de Abomey-Calavi discutem em sala se 26 peças bastam diante dos milhares de objetos que continuam em museus franceses. A conversa é o coração do filme.

Dahomey venceu o Urso de Ouro, prêmio principal do Festival de Berlim, em fevereiro de 2024. Foi o segundo grande prêmio europeu de Mati Diop em cinco anos.

Regra de bolso: se a casa quer ritmo, moto e cidade em movimento, vá de Touki Bouki. Se quer entender quem guarda a história de um povo, vá de Dahomey.

 

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III  Sai do Catálogo

III, Os olhos brancos e a dívida cobrada em covas

Atlantique está na Netflix, que comprou os direitos mundiais após Cannes, e o catálogo de streaming muda de mês a mês. Confira Mati Diop, 2019 e 105 minutos antes do play: Atlantics, o título em inglês, aparece na mesma busca.

Em maio de 2019, o filme levou o Grande Prêmio do Júri em Cannes, abaixo só da Palma de Ouro, que foi para Parasita. Mati Diop era a primeira diretora negra a disputar a competição principal do festival.

Volte às moças de olhos brancos. Elas entram na mansão de N'Diaye de madrugada e falam com a voz dos pedreiros. Contam que a piroga afundou e que todos se afogaram no Atlântico.

Os espíritos cobram os três meses de salário. N'Diaye paga, e eles exigem mais: que ele cave as covas que os corpos nunca tiveram. O filme se apoia na crença do djinn (espírito do folclore islâmico que toma corpos) sem explicar regra nenhuma.

Issa se olha no espelho do banheiro da delegacia e vê os próprios olhos brancos. Souleiman está no corpo dele. O incêndio também se explica: o fogo veio dos espíritos, e a testemunha viu Souleiman de fato.

Ada vai ao bar de Dior e encontra Souleiman dentro do corpo do inspetor. Os dois passam a noite juntos. De manhã ele vai embora para sempre, e Ada se recusa a voltar para Omar.

N'Diaye, a essa altura, já cavou as covas no quintal da mansão, de pá na mão, sob o olhar das moças possuídas.

O filme fecha com Ada diante do espelho, olhando para a câmera, dona do próprio destino pela primeira vez:

“Eu sou Ada, aquela a quem o futuro pertence.” (Ada, personagem de Mame Bineta Sane, em Atlantique, 2019)

1. Confira direção, ano e duração antes do play: Mati Diop, 2019 e 105 minutos.

2. No canteiro da abertura, guarde o rosto de Souleiman: ele volta em outro corpo.

3. Nas cenas de madrugada, repare nos olhos das moças: a pupila some quando o espírito entra.

Play às 20h30, uma torre sem salário e um mar que devolve os rapazes de madrugada.

“Na sua casa, quem cobraria uma dívida mesmo após ter partido?”

Na próxima edição: Retrato de uma Jovem em Chamas, de Céline Sciamma, 2019, e o quadro pintado de memória numa ilha da Bretanha.

 
 
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