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Perfect Days resolve o domingo em 124 minutos
Faxineiro de banheiros de Tóquio, fita cassete no carro e um dia que se repete: play às 20h30 no Mubi e ponto final às 22h34.
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A fita cassete escolhida antes da partida
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Um banheiro público de Tóquio tem menos de quatro metros quadrados, e quem limpa entra ali várias vezes por dia sabendo que ninguém vai reparar no serviço bem feito. O cenário mais ignorado da cidade é justamente o que a câmera resolve olhar de perto.
Domingo à noite tem um problema parecido. O dia inteiro foi de descanso no papel, mas a segunda já está encostada na porta, e a sala não quer nada que exija fôlego novo às nove da noite.
Por causa dessa hora estranha, o filme de rotina encaixa melhor no domingo do que qualquer trama de reviravolta. Não existe promessa a cumprir nem nó a desatar: o filme mostra um dia, mostra outro parecido, e deixa a diferença por conta de quem olha.
O gênero tem regra própria, e a regra é o oposto da que a sala está acostumada. Yasujiro Ozu passou a carreira filmando gente sentada em casa, com a câmera parada na altura de quem senta no tatame, e nunca precisou de perseguição para segurar a plateia.
Levada para o cinema de agora, a regra vira um teste de paciência curto. A primeira meia hora entrega a mesma sequência de manhã duas vezes, quase sem diálogo, e a sala precisa aceitar que a repetição é o assunto, não um erro de montagem.
O preço aparece cedo. Quem senta esperando conflito acha o começo devagar, porque o conflito só chega pela porta lateral, na forma de gente que invade a rotina alheia sem pedir licença.
Em troca, o formato entrega a coisa mais rara de uma noite de domingo: nenhuma dívida. Não existe episódio seguinte cobrando terça, nem arco de temporada guardado, nem aquela sensação de ter aberto uma obra grande demais para a última noite livre.
O programa de hoje leva a regra ao limite. Um homem acorda com o som da vassoura da vizinha, dobra o futon, escolhe uma fita cassete antes de dar a partida, e o filme repete essa abertura até a sala parar de esperar que algo aconteça.
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I O Programa de Hoje
Um faxineiro, uma fita cassete, um dia
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Um dia inteiro repetido até virar descanso, em 124 minutos.
Crime aberto e resolvido na mesma sessão, em 114 minutos.
O programa de hoje é Perfect Days, no Mubi, 124 minutos. Play às 20h30 e ponto final às 22h34. O filme é falado em japonês, com legenda em português, e a legenda importa pouco: o protagonista fala menos de vinte frases no filme inteiro.
A direção é de Wim Wenders, alemão que já tinha filmado Tóquio antes, e o roteiro é dele com Takuma Takasaki. Koji Yakusho interpreta Hirayama e levou o prêmio de melhor ator em Cannes em 2023 por um papel construído quase inteiro em gesto.
A origem do projeto explica o resultado. Uma fundação japonesa reformou dezessete banheiros públicos no bairro de Shibuya com arquitetos conhecidos e chamou Wenders para filmar os prédios. Ele respondeu com um longa-metragem de ficção sobre o homem que limpa os prédios.
A rotina aparece inteira nos primeiros minutos. Hirayama acorda antes do sol, dobra o futon, escova os dentes, apara o bigode, pega a lata de café na máquina da esquina e entra na van de trabalho olhando o céu por dois segundos, sempre os mesmos dois segundos.
O carro é onde o filme respira. Ele escolhe uma fita cassete da caixa do banco do passageiro e roda a cidade com música gravada em plástico dos anos setenta, num aparelho que já não se fabrica.
O trabalho é filmado sem nojo e sem heroísmo. Ele carrega um espelho de cabo comprido para enxergar a parte de baixo do vaso, esfrega o que ninguém vê, e sai de cena quando um usuário chega, porque o serviço dele não é feito para ser assistido.
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"A próxima vez é a próxima vez. Agora é agora."
Wim Wenders e Takuma Takasaki, Perfect Days, 2023
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O que quebra a repetição vem de fora e sempre pequeno. Um colega de trabalho pede dinheiro emprestado, uma sobrinha foge de casa e aparece na porta, um desconhecido deixa um jogo da velha começado num papel escondido atrás do vaso.
A câmera cuida de um detalhe que quase ninguém nota. Wenders filma quase tudo na altura de quem está sentado no chão, herança direta de Ozu, e as únicas tomadas em movimento acontecem dentro da van, quando o personagem também está se movendo.
Nas folgas, o filme mostra o que sustenta a semana. Hirayama fotografa a copa das árvores com uma máquina de filme, revela os rolos numa loja de bairro, guarda as fotos boas em latas datadas e joga fora as que não prestam, sem cerimônia.
Para a noite de domingo, o encaixe é limpo. A sessão começa às 20h30, o dia do personagem se repete até virar descanso em vez de tarefa, e a sala apaga a luz às 22h34 sem nenhuma temporada aberta no colo.
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II Se a Noite Pedir Outra Coisa
Cozinha de doce ou ônibus de Paterson
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Nem todo domingo aguenta silêncio de duas horas. O humor da sala decide o programa, e as duas saídas de hoje puxam para lados diferentes: uma pede lenço na mesa, a outra pede humor seco.
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Se o domingo pedir doçura, o programa é Toque Especial, de Naomi Kawase, no Mubi, 113 minutos. Play às 20h30 e créditos às 22h23.
Um homem que vende dorayaki numa banca minúscula de Tóquio contrata uma senhora de setenta e seis anos que aparece pedindo trabalho. Ela cozinha o recheio de feijão doce em fogo baixo por horas, conversando com a panela, e a banca vazia começa a ter fila.
O filme se apoia numa profissão inteira. A câmera acompanha o preparo do doce como se fosse cena de ação, com o vapor, o barulho da colher e o tempo real de cozimento ocupando minutos que outro roteiro cortaria.
A virada não é gentil e o texto avisa cedo. A senhora carrega um passado de isolamento forçado por hanseníase, tema que o Japão tratou com lei própria até os anos noventa, e o filme cobra da plateia uma reação que não é só ternura.
A conta da noite é confortável: são 113 minutos, os créditos sobem às 22h23 e a segunda começa inteira. Saída para o domingo em que a sala aceita chorar um pouco antes de dormir.
Se o domingo pedir humor seco, o programa é Paterson, de Jim Jarmusch, no Prime Video, 118 minutos. Play às 20h30 e créditos às 22h28.
Um motorista de ônibus de Paterson, em Nova Jersey, acorda perto das seis e quinze todo dia, dirige a mesma linha, escuta a conversa dos passageiros e escreve poemas num caderno durante o almoço. A mulher dele muda de projeto de vida uma vez por semana, sempre com convicção total.
A estrutura é uma semana marcada na tela. O filme abre um cartão para cada dia, de segunda a segunda, e a graça está em comparar a mesma cena em dias diferentes, com uma frase trocada de lugar.
O humor é a diferença de exigência. Jarmusch enche o roteiro de coincidência boba, gêmeos que aparecem em toda esquina e um cachorro inglês que carrega o papel de vilão doméstico, e a sala pode rir sem perder o fio.
Regra de bolso para hoje: se a mesa aceita emoção aberta e uma história com passado pesado, vá de Toque Especial. Se a sala prefere sorrir de canto de boca sem se envolver demais, Paterson chega mais perto do programa de hoje, com a mesma lógica de dia repetido que muda por dentro.
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