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Quinze minutos na cabeça de John Malkovich e uma vala em Nova Jersey

São 112 minutos: play às 20h30, ponto final às 22h22, e uma passagem atrás da parede do escritório com hora marcada para expulsar quem entra.

Corredor de escritório de teto muito baixo com um arquivo afastado da parede.

A porta atrás do arquivo e quinze minutos

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“Tem uma porta atrás daquele arquivo", diz Craig Schwartz para Maxine Lund no bar em frente ao edifício Mertin Flemmer, em Nova York, com o copo na mão e o terno amassado do dia inteiro de trabalho. Ele acabou de descobrir o que torna o escritório de teto baixo do sétimo andar e meio um bom lugar para se estar.

Quero Ser John Malkovich passou primeiro no Festival de Veneza, em setembro de 1999, e chegou às salas dos Estados Unidos em 29 de outubro daquele ano, dirigido por Spike Jonze a partir de roteiro de Charlie Kaufman. São 112 minutos que cabem numa frase: um artista de bonecos sem plateia arruma emprego de arquivista, acha uma passagem que leva por quinze minutos para dentro da cabeça de um ator famoso e resolve cobrar ingresso.

O relógio de quinze minutos comanda tudo. Quem entra pelo túnel enxerga pelos olhos de John Malkovich, ouve o que ele ouve, acompanha o café da manhã dele sem poder mexer num dedo, e no fim do prazo é cuspido numa vala de terra à beira da via expressa de Nova Jersey. A volta para a cidade se faz de carona.

O andar onde a porta fica tem pé-direito de pouco mais de um metro e meio, e todo funcionário trabalha curvado. O elevador nem para ali: o jeito de chegar é travar as portas com um pé de cabra entre o sétimo e o oitavo, e o filme gasta uma cena inteira ensinando a manobra antes de explicar qualquer coisa sobre a passagem.

O próprio ator do título quase saiu da história. Procurado para autorizar o uso do nome, John Malkovich achou o texto muito bom e sugeriu que filmassem com outro ator no lugar dele; a produção respondeu que a graça toda dependia de ser ele, e ele acabou aceitando fazer uma versão pública de si mesmo.

O programa de hoje tem um boneco de tamanho humano dançando numa calçada, uma recepcionista que entende errado toda frase dita, um chimpanzé com trauma de infância, um restaurante em que todo cliente tem a mesma cara e uma fila de gente pagando duzentos dólares por quinze minutos de vida alheia.

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I  O Programa de Hoje

I, Cento e doze minutos entre um teatro de bonecos e uma vala de estrada

O programa de hoje é Quero Ser John Malkovich, disponível em serviço por assinatura e também por aluguel avulso nas lojas digitais, 112 minutos. Play às 20h30 e ponto final às 22h22. Direção de Spike Jonze, roteiro de Charlie Kaufman, produção norte-americana de 1999, quase sempre em versão legendada.

John Cusack faz Craig Schwartz, titereiro (o artista que manipula bonecos de fio e de vara) sem público e sem dinheiro. Cameron Diaz faz Lotte, mulher dele, que cuida de um pequeno zoológico dentro do apartamento. Catherine Keener faz Maxine Lund, colega de escritório de língua afiada, Orson Bean faz o doutor Lester, dono da empresa, e John Malkovich faz uma versão pública de si mesmo.

A abertura gasta cinco minutos com bonecos. Craig apresenta na rua a Dança do Desespero e Desilusão, número adulto demais para a calçada, e apanha do pai de uma criança que assistiu. O filme avisa logo que o assunto da próxima hora e meia é gente manipulando gente.

O emprego vem por causa dos dedos. A LesterCorp contrata Craig para arquivar fichas pela rapidez das mãos, a recepcionista Floris entende errado cada frase que ouve e ninguém no andar acha estranho trabalhar curvado oito horas por dia.

A cena que organiza o filme inteiro dura pouco mais de um minuto. Craig empurra um arquivo, entra de barriga num túnel úmido atrás da parede, é sugado para dentro e abre os olhos vendo as mãos de John Malkovich segurarem o jornal no café da manhã. Quinze minutos depois ele cai na vala ao lado da via expressa de Nova Jersey, com terra na roupa e nenhuma prova do que viveu.

Maxine monta o negócio na mesma noite. Ela cobra duzentos dólares por visita, e a fila se forma no corredor do andar sete e meio depois do expediente. Cada cliente sobe para ser outra pessoa por um quarto de hora e volta reclamando do trajeto de Nova Jersey de madrugada.

Lotte entra no túnel e sai decidida a viver como homem. Maxine se interessa por ela justamente quando Lotte está dentro do ator, e o triângulo passa a funcionar com três pessoas e um corpo só. Craig, que treinou a vida inteira para mover bonecos, descobre que consegue comandar os braços e a boca de Malkovich, e deixa de ser passageiro para virar condutor.

O doutor Lester explica a regra do corpo. Ele tem 105 anos, já mudou de pele outras vezes, e conta que um receptáculo (o corpo que serve de porta) só aceita hóspede novo na véspera do aniversário de 44 anos do dono; quem entrar depois da hora fica preso lá dentro, enxergando tudo sem comandar nada. Ele e um grupo de idosos reservaram lugar no ator.

Carter Burwell escreveu a trilha, e Charlie Sheen aparece como ele mesmo, ouvindo as queixas do amigo sobre a passagem sem acreditar numa palavra. O filme teve três indicações ao Oscar em 2000, por direção, roteiro original e atriz coadjuvante para Catherine Keener, e saiu sem estatueta.

O fim cumpre a regra à risca. Craig larga o corpo do ator para correr atrás de Maxine, perde a hora e o grupo do doutor Lester toma o lugar; ele acorda atrás dos olhos de Emily, filha pequena de Lotte e Maxine, condenado a ver a vida dela crescer sem mover um músculo. A última imagem é a menina numa piscina, vista por dentro.

 
 

II  Se a Noite Pedir Outra Coisa

II, Uma memória apagada por encomenda ou uma cidade inteira de mentira

Nem toda mesa aceita chimpanzé com trauma e túnel atrás do arquivo às nove da noite. As duas saídas de hoje pegam o mesmo desconforto por caminhos mais fáceis de acompanhar: uma mantém o roteirista e troca o corpo alheio pela memória, a outra troca a cabeça do ator pela vida inteira de um homem transmitida ao vivo.

Se a noite pedir outro roteiro de Charlie Kaufman, o programa é Brilho Eterno de uma Mente sem Lembranças, disponível em serviço por assinatura, 108 minutos. Play às 20h30 e ponto final às 22h18.

Michel Gondry dirige em 2004 um homem calado, vivido por Jim Carrey, que descobre que a namorada pagou uma clínica para apagar a memória do relacionamento e contrata o mesmo serviço por vingança. Kate Winslet faz Clementine, e quase tudo acontece dentro do cérebro dele enquanto a máquina trabalha, com cenários que se desfazem conforme cada lembrança some.

A ponte com o programa principal está no cérebro tratado como imóvel alugado. Jonze e Kaufman põem o visitante do lado de dentro de outra pessoa; Gondry e Kaufman põem o dono da casa correndo pelos próprios cômodos para esconder o que não quer perder. Os dois filmes acabam quando o protagonista aceita que controle e afeto não andam juntos.

Se a noite pedir algo mais leve para a sala, o programa é O Show de Truman, disponível por aluguel avulso nas lojas digitais, 103 minutos. Play às 20h30 e ponto final às 22h13.

Peter Weir dirige em 1998 um corretor de seguros que não sabe ser o protagonista de um programa de televisão transmitido 24 horas por dia desde o nascimento dele. Jim Carrey faz Truman Burbank, Ed Harris faz o diretor que comanda o céu e a chuva de uma sala de controle, e Laura Linney faz a atriz contratada para viver de esposa.

Regra de bolso para a noite: se a mesa gosta de quebra-cabeça emocional e aguenta narrativa que anda de trás para frente, vá de Brilho Eterno. Se a casa prefere história na ordem, O Show de Truman entrega o mesmo mal-estar de vida controlada por outro sem exigir mapa.

 

Quem banca a edição de hoje

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III  Sai do Catálogo

III, Um filme de estúdio pequeno que muda de porta sem avisar

O filme nasceu fora dos grandes estúdios, e o vaivém vem daí: a produção saiu pela Propaganda Films com distribuição da USA Films, casa absorvida em 2002 e com o catálogo repartido, então os direitos de exibição no Brasil trocam de dono a cada temporada e o título aparece num aplicativo, some e reaparece em outro.

O nome em português complica a busca. O original chama Being John Malkovich, e o título brasileiro devolve em alguns catálogos documentário e entrevista do ator antes do longa de 1999. A ficha certa traz Spike Jonze na direção.

Não existe versão do diretor para procurar, e vale saber antes de perder tempo. Jonze nunca lançou montagem alternativa; o que circula como extra é material de bastidor, incluindo o falso documentário sobre a carreira do doutor Lester, gravado para a edição em disco da Criterion lançada em 2012.

O cuidado aqui é com o áudio. O filme circula quase sempre só legendado, e a dublagem em português, quando aparece, vem de uma versão antiga de televisão a cabo, com boa parte das piadas de escritório reescrita. Confira a faixa antes de chamar todo mundo para sentar.

O aluguel avulso continua sendo a saída estável, pelo motivo de sempre: a loja repassa ao detentor a cada transação, então a página fica de pé mesmo quando a assinatura do momento perdeu o título. Costuma sair na faixa de sete a vinte reais pelas 48 horas, em alta definição.

Vale ainda olhar a sala de cinema. O longa volta em mostras de repertório com cópia restaurada, e o corredor de teto baixo, filmado em cenário de mobília reduzida, rende mais em tela grande.

1. Confira a duração na ficha antes do play: 112 minutos separam o longa de 1999 dos programas de entrevista que a busca mistura com ele.

2. Escolha a faixa de áudio na primeira cena, porque a dublagem antiga reescreve piada de escritório, e trocar depois de quinze minutos custa a atenção de quem está na sala.

3. Se a assinatura da vez perdeu o título, resolva pelo aluguel avulso, que mantém a página de pé e evita descobrir às nove da noite que a licença venceu na semana passada.

A instabilidade tem causa contratual, não técnica: catálogo repartido entre herdeiros de distribuidora extinta muda de endereço rápido, e o filme some da lista salva de quem nunca soube do contrato.

Play às 20h30, ponto final às 22h22, e um cronômetro de quinze minutos que devolve todo visitante à mesma vala de estrada.

"O que assusta mais na história, viver pelos olhos de outra pessoa por quinze minutos ou ficar preso lá dentro para sempre?"

Na próxima edição: o faroeste rodado na Espanha cuja trilha sonora foi gravada antes das cenas.

 
 
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