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Documentário que abre como anedota. Veja por que a terça inteira aguenta os 96 minutos.
O programa de hoje é Três Estranhos Idênticos, de Tim Wardle, na Netflix, 96 minutos. Play às 21h e ponto final às 22h36. O filme está com legenda e dublagem em português, e não tem cena gráfica: o peso dele é de assunto.
A premissa cabe em duas frases. No fim de 1980, Robert Shafran, de 19 anos, chega para o primeiro dia de aula numa faculdade comunitária no interior de Nova York.
A recepção não faz sentido. Gente que ele nunca viu bate nas costas dele e o chama de Eddy, e uma moça o beija no corredor sem se apresentar.
Um veterano faz a conta antes de qualquer adulto. Ele pergunta a data de nascimento de Robert, escuta 12 de julho de 1961, pergunta se ele é adotado, ouve que sim, e sai dirigindo com ele até a casa de Eddy Galland.
A foto dos dois na imprensa resolve a outra metade da conta. David Kellman abre o jornal na casa da família, reconhece o próprio rosto duas vezes na mesma página e liga para a redação no mesmo dia.
O que vem depois é uma temporada inteira de fama. Os três aparecem em programa de auditório, viram capa, fazem um cameo em Procura-se Susan Desesperadamente, de 1985, e em 1988 abrem um restaurante em Nova York batizado de Triplets.
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"Quando eu conto a minha história, as pessoas não acreditam. Eu mesmo não acreditaria, se outra pessoa estivesse contando."
Robert Shafran, em Três Estranhos Idênticos, 2018
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A virada de registro chega quando os pais adotivos vão juntos até a agência que cuidou das três adoções. Eles saem de lá com uma resposta protocolar e sem explicação para o fato de ninguém ter sido avisado de que existiam trigêmeos.
A apuração encontra um estudo. Um psiquiatra de Nova York, Peter Neubauer, acompanhava crianças separadas na adoção, e os três bebês foram colocados de propósito em três famílias de faixas de renda diferentes.
As visitas dos pesquisadores estavam à vista. Câmera de filmar, teste com bloco de montar, pergunta anotada em prancheta, tudo apresentado às famílias como acompanhamento de rotina de criança adotada.
O estudo nunca foi publicado. Os papéis foram parar na Universidade Yale, lacrados até 2065, e só depois do filme cerca de dez mil páginas com trechos apagados chegaram às mãos dos irmãos.
A produção explica o acabamento. É o primeiro longa de Tim Wardle na direção, feito pela produtora britânica RAW, e estreou em Sundance em 2018 levando o prêmio especial do júri de narrativa.
O desempenho é raro para o gênero. O filme passou de doze milhões de dólares em bilheteria, número que quase nenhum documentário alcança.
O detalhe que importa para a terça é a forma. Os três contam a própria história de frente para a câmera, com material de arquivo entrando por cima, e cada informação nova chega antes de a anterior sair da cabeça.
Um aviso honesto antes do play: a segunda metade fecha o cerco e cobra atenção emocional. Quem senta esperando só o reencontro engraçado termina a noite em outro lugar.
Para a terça, ele entrega o que a noite pede: pergunta declarada nos primeiros dez minutos, nada para decorar e ponto final às 22h36, com tempo de sobra antes das onze.
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