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Um ano de visitas diárias à toca de uma polvo na África do Sul
São 85 minutos: play às 20h30, ponto final às 21h55, e um mergulhador que desce sem cilindro para reencontrar a mesma fêmea.
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A polvo, as conchas e a floresta de algas
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Craig Foster diz a frase olhando para a lente, na entrevista gravada em casa, na península do Cabo, na África do Sul, para o documentário que o fez conhecido: "Ela me ensinou que eu faço parte deste lugar, e não sou um visitante." A tal professora é uma fêmea de polvo com o corpo do tamanho de uma mão aberta, dona de uma toca entre pedras a poucos metros da praia. O programa se chama Professor Polvo, título original My Octopus Teacher, com direção de Pippa Ehrlich e James Reed, 85 minutos, produção sul-africana do Sea Change Project lançada pela Netflix em 2020. A narração é do próprio Foster, e quase toda imagem subaquática saiu da câmera dele. Por volta de 2010, Foster era um documentarista esgotado. Tinha passado anos filmando os povos San no deserto do Kalahari, perdido o prazer pelo ofício e se afastado do filho, Tom. A saída que encontrou foi voltar ao mar gelado da infância, em False Bay, a baía larga que fica ao sul da Cidade do Cabo. Ele decidiu entrar na água todo dia, sem roupa de neoprene e sem cilindro de ar, em apneia (o mergulho feito só com o fôlego preso). A água ali oscila entre oito e quinze graus. O corpo reclama nas primeiras semanas, e depois se acostuma. O cenário é uma floresta de kelp, a alga-gigante marrom que cresce presa às rochas e sobe até a superfície em fitas compridas. Entre as fitas vivem tubarões pequenos, lagostas, peixes de fundo e bichos que se escondem na areia. Numa das descidas, Foster viu um monte de conchas se mexer sozinho no fundo. Quando chegou perto, as conchas caíram e revelaram um polvo, que fugiu para dentro de uma fenda. Ele voltou no dia seguinte ao mesmo ponto, e no outro, e no outro. O programa de hoje tem uma fêmea de polvo, um mergulhador de fôlego curto, cerca de um ano de encontros diários e uma dúvida que a primeira seção resolve: o que um bicho de oito braços aceita ensinar a um homem que não para de voltar? Continue lendo ↓ |
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I O Programa de Hoje
I, Um mergulhador sem cilindro e uma toca entre as algas
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O programa de hoje é Professor Polvo, filme original da Netflix disponível no catálogo da plataforma em todo o Brasil, 85 minutos. Play às 20h30 e ponto final às 21h55. Direção de Pippa Ehrlich e James Reed, produção sul-africana de 2020.
Craig Foster começa desconfiado, e a polvo também. Nas primeiras semanas ela se esconde na toca assim que a sombra dele aparece. Ele insiste no horário, no trajeto e na distância, sem tocar em nada, até que numa manhã um braço sai da fenda, encosta na mão dele e a examina ventosa por ventosa.
A partir daí o filme vira diário de convivência. Foster acompanha a caça dela a caranguejos e lagostas, as trocas de cor em segundos, a textura da pele que imita pedra e alga, e a mudança de toca quando o predador descobre o endereço.
O predador tem nome e aparece bastante: o tubarão-pijama, espécie listrada de corpo fino que caça no fundo da baía. Num ataque, ele arranca um braço inteiro da polvo. Ela se refugia na toca por semanas e, para surpresa de Foster, o braço cresce de novo, primeiro fino e claro, depois com ventosas completas.
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A virada chega no ataque seguinte. Encurralada em campo aberto, a polvo gruda conchas e pedras no próprio corpo até virar um monte imóvel no fundo. Quando o tubarão insiste, ela salta nas costas dele e fica ali, fora do alcance da boca, até o caçador desistir. O filme mostra a manobra sem trilha dramática, e a cena dispensa explicação.
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Cabe perguntar quanto de inteligência há ali. Peter Godfrey-Smith, filósofo australiano e mergulhador, escreveu em Outras Mentes, livro de 2016, que o polvo carrega cerca de 500 milhões de neurônios, dois terços deles espalhados pelos braços. Ele resume a estranheza assim:
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"Se queremos entender outras mentes, as mentes dos cefalópodes são as mais outras de todas." (Peter Godfrey-Smith, Outras Mentes, 2016)
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O final da história não é segredo biológico, e o filme o conta sem rodeio. Fêmeas de polvo dessa espécie vivem por volta de um ano. Depois de acasalar, ela põe os ovos no teto da toca, para de comer e passa as semanas seguintes limpando e ventilando a ninhada. Quando os filhotes eclodem, o corpo dela se desfaz, e um tubarão-pijama leva o que sobrou.
Foster filma a cena inteira e não interfere. O filme termina com ele de volta à água com o filho Tom, agora mergulhador também, e com um polvo pequeno, talvez filhote dela, pousado na mão dele. Se era mesmo cria daquela fêmea, ninguém tem como confirmar, e o próprio Foster admite a dúvida na narração.
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II Se a Noite Pedir Outra Coisa
II, Corais que desbotam na tela ou um oceano filmado em série
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Nem toda sala topa 85 minutos de mergulho em água gelada com um homem falando da própria crise. As duas saídas de hoje ficam no oceano, mas trocam o diário íntimo por um alerta científico ou por um espetáculo de natureza filmado com dezenas de equipes.
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Se a noite pedir urgência, o programa é Em Busca dos Corais, título original Chasing Coral, disponível em serviço por assinatura, 89 minutos. Play às 20h30 e ponto final às 21h59.
Jeff Orlowski dirige em 2017 uma equipe de fotógrafos e cientistas que tenta registrar o branqueamento de corais, o desbotamento que acontece quando a água aquece e o coral expulsa as algas que o alimentam. O grupo instala câmeras programadas no fundo do mar e descobre que elas falham justamente quando o evento começa.
A solução é filmar à mão, mergulho após mergulho, na Grande Barreira de Corais da Austrália. A sequência que se forma mostra o mesmo recife colorido, depois branco, depois coberto de alga marrom. O filme ganhou o prêmio do público no Festival de Sundance de 2017.
A ponte com o programa principal está no método: nos dois filmes, uma pessoa volta ao mesmo trecho de mar muitas vezes, porque só a repetição mostra a mudança.
Se a noite pedir escala, o programa é Nosso Planeta, título original Our Planet, série documental da Netflix narrada por David Attenborough, lançada em 2019, com episódios de cerca de 50 minutos. Play às 20h30 com o episódio dos mares costeiros, e ponto final perto das 21h20.
A série foi produzida pela Silverback Films em parceria com a organização ambiental WWF, e cada episódio salta de continente em continente: leões-marinhos, cardumes, recifes e florestas de alga filmados por equipes diferentes. Não há personagem humano; quem conduz é a voz de Attenborough.
Regra de bolso para a noite: se a casa quer discutir o futuro do mar depois dos créditos, vá de Em Busca dos Corais. Se a casa quer imagem bonita e ritmo tranquilo, com a opção de parar num episódio só, Nosso Planeta resolve em 50 minutos.
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