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Um cozinheiro, 2 cozinhas e 1 cela

Estômago, de Marcos Jorge, 2007, 100 minutos: Raimundo Nonato, o boteco, a cantina italiana e a cela onde a comida manda.

Cozinheiro magro mexendo uma panela num fogareiro dentro de uma cela de cadeia.

Nonato e a panela, na cela de Bujiú

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Numa cela lotada de uma cadeia paulista, o preso Bujiú prova o molho do recém-chegado, larga a colher e pergunta: “Quem te ensinou a fazer esse molho?” O recém-chegado é Raimundo Nonato, um nordestino magro que até a semana anterior fritava salgado num boteco.

A cena abre Estômago, longa brasileiro dirigido por Marcos Jorge e lançado em 2007. Nonato chegou à cadeia sem dinheiro, sem nome e sem amigo. Na hierarquia da cela, ocupava o pior lugar, no chão, perto da privada.

Bujiú manda na cela. Escolhe quem dorme na cama de cima, quem lava a roupa e quem fica calado. Até provar o molho, ele nem sabia o nome do novato.

Depois da colher, Nonato ganha um apelido, Alecrim, e uma função. Cozinha com o que entra escondido na cadeia: alho, cebola, um pedaço de carne, uma lata de extrato. Cada prato bem feito sobe Nonato um degrau na cela.

O filme corre em duas linhas de tempo. Numa, Nonato está preso e cozinha para sobreviver. Na outra, ele desce do ônibus na cidade grande, com fome, e começa a vida como faxineiro do boteco de Zulmiro.

As duas histórias se alternam até o fim. O espectador sabe desde a primeira cena que Nonato foi preso, mas só descobre o motivo nos últimos minutos, quando as duas linhas se encontram.

O ator João Miguel faz Nonato nas duas épocas. Ele já tinha chamado atenção em Cinema, Aspirinas e Urubus, de 2005, e aqui faz um homem quieto, quase sem fala, que se explica pela comida.

O roteiro saiu de um conto do escritor paulista Lusa Silvestre, que também assina o texto do filme com Marcos Jorge, Cláudia da Natividade e Fabrizio Donvito. A produção juntou Brasil e Itália, e a Itália aparece na tela em forma de massa, vinho e queijo.

O Programa de Hoje começa no balcão do boteco, com a primeira coxinha de Nonato.

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On the lineup:

  • Zaria Parvez, DoorDash

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October 21, 2026, 10 am – 5 pm ET.

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I  O Programa de Hoje

A coxinha do boteco e o gorgonzola de Giovanni

A resposta de ontem

Que doença interrompeu a última viagem de Koch-Grünberg?

Malária. Em 1924, Koch-Grünberg viajava pelo rio Branco, em Roraima, na expedição do americano Alexander Hamilton Rice, quando adoeceu e não resistiu, em Vista Alegre. Ele tinha 52 anos e nunca voltou à Alemanha. Os diários que deixou viraram a base do roteiro de Ciro Guerra e Jacques Toulemonde Vidal.

O programa desta noite é Estômago, drama brasileiro com humor negro dirigido por Marcos Jorge, lançado em 2007, com 100 minutos. Play às 20h e créditos finais às 21h40.

Nonato chega à cidade sem endereço e entra no boteco de Zulmiro para pedir comida. Sai de lá com emprego de faxineiro, um colchão no depósito e nenhum salário combinado.

Na primeira noite, ele frita uma leva de coxinhas. Os fregueses voltam no dia seguinte pedindo as mesmas, e Zulmiro passa Nonato da vassoura para a cozinha sem aumentar um centavo do que paga.

Zulmiro, vivido por Zeca Cenovicz, vende as coxinhas como se fossem receita da casa. Nonato não reclama: come de graça, dorme seco e, pela primeira vez, alguém pede mais do que ele faz.

A moça que come de boca cheia

No boteco aparece Íria, uma prostituta que a atriz Fabiula Nascimento faz no primeiro papel dela no cinema. Íria come com vontade, sem cerimônia, e Nonato se apaixona pelo jeito dela comer.

Ele paga os encontros com comida. Íria aceita, cobra o resto em dinheiro e não esconde que atende outros homens. Nonato finge não ouvir.

A relação dos dois tem regra clara desde o começo. Íria gosta da comida, não do cozinheiro, e Nonato aceita a troca porque é a única que conhece.

Nonato não sabe dizer o que sente, então cozinha: cada prato para Íria substitui uma frase que ele não fala.

O segundo salto vem quando Giovanni, dono de uma cantina italiana do bairro, prova a coxinha. O italiano é vivido pelo ator Carlo Briani e oferece a Nonato um lugar na cozinha dele.

A proposta tira Nonato do boteco. Zulmiro perde o cozinheiro, e o filme mostra o dono do boteco furioso, sem saber fritar as coxinhas que tinha vendido como suas.

Na cantina, Nonato aprende a fazer massa fresca, a reconhecer o gorgonzola (queijo azul italiano, de cheiro forte) e a abrir uma garrafa de vinho. Giovanni ensina a receita e também a pose: diz que cozinha é arte e que quem come mal vive mal.

Nonato passa a ganhar salário, a dormir num quarto e a levar para Íria pratos com nome em italiano. A cantina é o ponto mais alto da vida dele fora da cadeia.

O filme filma a comida de perto. O molho borbulha na panela, a gordura escorre do frango, e a câmera fica no prato o tempo suficiente para dar fome no espectador.

“Dize-me o que comes e te direi quem és.” (Jean Anthelme Brillat-Savarin, em A Fisiologia do Gosto, 1825)

O magistrado francês escreveu a frase sobre a mesa da burguesia. Estômago aplica a mesma lógica ao boteco, à cantina e à cela, e quem come a comida de Nonato passa a depender dele.

 
 

II  Se a Noite Pedir Outra Coisa

O ralo de Selton Mello e o pavilhão de Babenco

**As duas saídas desta noite ficam no cinema brasileiro da mesma década, com homens comuns presos a um balcão ou a uma grade.

Os três filmes saíram entre 2003 e 2007 e formam um recorte enxuto do cinema brasileiro daquela década, com orçamento modesto e elenco conhecido da televisão.**

Se a noite pedir outro humor negro, o programa é O Cheiro do Ralo, de Heitor Dhalia, 2006, com 112 minutos. Play às 20h e ponto final às 21h52.

Selton Mello faz Lourenço, dono de uma loja que compra objetos usados. Ele humilha cada vendedor no balcão e vive incomodado pelo cheiro que sobe do ralo do banheiro da loja.

O filme adapta o romance de Lourenço Mutarelli, quadrinista e escritor paulista, que também aparece em cena como segurança. A loja é o mundo inteiro do protagonista, como a cela é o de Nonato.

**Estômago e O Cheiro do Ralo mostram dois homens que mandam num lugar pequeno e perdem o controle de si mesmos.

Lourenço tem poder sobre quem entra na loja, mas não consegue tirar o cheiro do ralo do nariz. A obsessão dele cresce até engolir o negócio.**

Se a noite pedir a cadeia sem cozinha, o programa é Carandiru, de Hector Babenco, 2003, com 148 minutos. Play às 20h e ponto final às 22h28.

O roteiro parte do livro Estação Carandiru, do médico Drauzio Varella, que atendeu presos da Casa de Detenção paulista durante anos. O filme conta histórias de detentos e termina no massacre de 1992, quando a Polícia Militar invadiu o Pavilhão 9.

No elenco estão Rodrigo Santoro, Lázaro Ramos, Wagner Moura e Caio Blat. Babenco filmou parte das cenas dentro do presídio real, antes da demolição, em 2002.

Carandiru mostra a cadeia como cidade, com comércio, casamento e dívida. Estômago mostra a mesma economia reduzida a uma cela e a uma panela.

Regra de bolso: se a casa quer rir de nervoso, vá de O Cheiro do Ralo. Se quer o retrato da cadeia em grande escala, vá de Carandiru.

 

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III  Sai do Catálogo

A cela onde a panela manda

O catálogo dos serviços de streaming no Brasil troca filmes nacionais com frequência. Busque por Estômago e confira Marcos Jorge e 2007 antes do play; o título em inglês, Estomago: A Gastronomic Story, aparece em alguns serviços.

Marcos Jorge nasceu em Curitiba e estudou cinema na Itália. Estômago foi o primeiro longa de ficção dele, e a parceria com produtores italianos explica a cantina e os temperos da segunda metade do filme.

O filme estreou no Festival do Rio, em 2007, e saiu de lá com prêmios, entre eles o de melhor ator para João Miguel. Depois rodou festivais na Europa e na América Latina.

Na cela, o elenco de presos traz Babu Santana no papel de Bujiú. O ator, que anos depois viveria Tim Maia no cinema, faz um chefe de cela que manda pelo tamanho e obedece ao paladar.

A cadeia funciona como a cantina de Giovanni: quem cozinha bem sobe. Nonato troca o lugar no chão por uma cama de baixo e depois mira a cama de cima, que é de Bujiú.

A comida também compra proteção. Quando outro preso ameaça Nonato, Bujiú intervém, porque perder o cozinheiro seria perder o jantar da cela inteira.

O que se descobre no fim

Nos últimos minutos, as duas histórias se juntam. Nonato encontra Íria na cama com Giovanni, mata os dois com a faca da cozinha e prepara um prato com a carne dela. O filme sugere, sem mostrar, que ele comeu.

Na cela, Nonato serve a Bujiú uma refeição envenenada e herda a cama de cima. O homem que entrou calado termina mandando no espaço onde chegou dormindo no chão.

O filme não julga Nonato e não explica a violência dele com discurso. Deixa a comida falar até o fim, e o espectador sai com fome e desconforto ao mesmo tempo.

1. No começo, repare em Nonato engolindo a comida do boteco antes de ter emprego.

2. Na cantina, compare o jeito de Giovanni provar o vinho com o jeito de Nonato imitar.

3. No fim, olhe para onde Nonato se deita na última cena da cela.

Play às 20h, 100 minutos e duas cozinhas que viram uma só.

Marcos Jorge leu a história num conto curto e quis transformar aquelas poucas páginas num longa. Lusa Silvestre aceitou escrever o roteiro com ele e manteve o título que deu ao texto original.

Fica a pergunta  ·  até amanhã

Qual conto de Lusa Silvestre deu origem ao roteiro de Estômago?

 
 
Quiz da edição

Qual apelido Raimundo Nonato ganha na cela depois que Bujiú prova o molho dele?

ATemperinho
BAlecrim
CCoxinha
DGorgonzola

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