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Um desinfetante diluído 10 vezes em Bucareste

Coletivo, de Alexander Nanau, 2019, 109 minutos: repórteres da Gazeta Sporturilor seguem o incêndio até os hospitais.

A redação da Gazeta Sporturilor, em Bucareste, com repórteres ao telefone.

A redação da Gazeta Sporturilor em Bucareste

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Na entrevista coletiva em Bucareste, dias depois do incêndio, o ministro da Saúde da Romênia, Patriciu Achimaș-Cadariu, garantiu aos jornalistas: “Os feridos recebem nos nossos hospitais o mesmo tratamento que receberiam na Alemanha.”

Era novembro de 2015. Na noite de 30 de outubro, a banda Goodbye to Gravity tocava na casa noturna Colectiv, num antigo galpão industrial da capital. Os fogos de palco acenderam a espuma do teto. Em minutos, o salão se encheu de fumaça preta, e a única saída estreita prendeu centenas de jovens lá dentro.

Vinte e sete pessoas morreram no local. Mais de cento e oitenta saíram com queimaduras e foram distribuídas pelos hospitais públicos da cidade.

Nas semanas seguintes, a lista de vítimas continuou crescendo. Pacientes que tinham chegado conscientes, falando, com queimaduras tratáveis, pioravam e morriam nas enfermarias. O total subiu para 64. A maioria morreu já internada, sob os cuidados que o ministro comparava aos alemães.

As famílias pediam transferência para o exterior e ouviam que não havia necessidade. O governo repetia que tinha a situação sob controle. A imprensa política de Bucareste, em boa parte, repetia o governo.

Quem desconfiou foi uma redação improvável: a da Gazeta Sporturilor, o maior jornal esportivo do país, acostumado a cobrir futebol e corrupção em clubes. O editor Cătălin Tolontan começou a receber ligações de médicos e parentes. Todos contavam a mesma história de feridas que infeccionavam sem explicação.

O documentarista romeno Alexander Nanau ligou a câmera dentro dessa redação e ficou lá durante meses. Não há narrador, entrevista para a câmera ou letreiro explicativo. O espectador acompanha as reuniões, os telefonemas e as planilhas no ritmo em que os repórteres descobriam cada peça.

O Programa de Hoje começa pela apuração que levou a Gazeta até uma fábrica de produtos de limpeza hospitalar, e pelo laboratório que confirmou a suspeita.

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I  O Programa de Hoje

A redação que trocou o futebol pela saúde

O programa desta noite é Coletivo (Colectiv, no original romeno), documentário de Alexander Nanau lançado em 2019, com 109 minutos. Play às 20h30 e créditos finais às 22h19.

Nanau nasceu em Bucareste em 1979 e cresceu na Alemanha, para onde a família emigrou durante o regime comunista. Antes de Coletivo, dirigiu Toto e Suas Irmãs (Toto and His Sisters), de 2014, sobre três irmãos num bairro pobre da capital romena.

A primeira metade do filme pertence a Tolontan e a dois colegas, Mirela Neag e Răzvan Luțac. O trio cruza as notas fiscais dos hospitais com os rótulos dos desinfetantes que chegavam às enfermarias. Quase todos vinham da mesma fornecedora, a Hexi Pharma, que abastecia centenas de hospitais públicos romenos.

O laboratório que confirmou a suspeita

Os repórteres mandaram amostras para análise. O resultado, publicado pela Gazeta Sporturilor em maio de 2016, apontou produtos diluídos até dez vezes abaixo da concentração impressa no rótulo. Na prática, o líquido que limpava centros cirúrgicos e enfermarias de queimados não matava as bactérias que infectavam os pacientes.

A Hexi Pharma vendia ao Estado havia anos, e a reportagem mostrou diretores de hospital que recebiam comissão para comprar dela. O problema ia além de uma fábrica: dependia de gestores que aceitavam o produto sem testar e de um ministério que não fiscalizava.

Dan Condrea, dono da Hexi Pharma, morreu num acidente de carro poucos dias depois das primeiras reportagens, ao bater contra uma árvore numa estrada perto de Bucareste. A polícia tratou o caso como provável suicídio, e a investigação sobre a empresa perdeu o principal acusado.

Em Coletivo, um jornal de esportes encontra o que a imprensa política e o Ministério da Saúde deixaram passar, e a câmera registra cada passo enquanto ele acontece.

Tolontan resume o papel da redação numa entrevista à televisão romena:

“Quando a imprensa se curva diante das autoridades, as autoridades maltratam os cidadãos.” (Cătălin Tolontan, em Coletivo, 2019)

Nanau filma sem trilha sonora emocional. A luz é a das salas de redação e dos corredores de hospital, e o som que domina é o dos telefones. Quem espera um thriller de jornalismo com música crescente encontra o trabalho como ele acontece: lento, repetitivo e cheio de becos sem saída.

O filme também guarda espaço para quem sobreviveu. Tedy Ursuleanu, arquiteta que perdeu parte dos dedos no incêndio, aparece em sessões de fotos com as cicatrizes à mostra, aprendendo a usar as próteses das mãos. As cenas com ela cortam a apuração e lembram por quem os repórteres trabalham.

 
 

II  Se a Noite Pedir Outra Coisa

Boston em 2001 e Washington em 1972

As duas saídas desta noite contam outras redações que puxaram um fio até o topo do poder, ambas em ficção com atores.

Se a noite pedir a versão dramatizada do mesmo ofício, o programa é Spotlight: Segredos Revelados (Spotlight), de Tom McCarthy, 2015, 129 minutos, disponível no aluguel digital. Play às 20h30 e ponto final às 22h39.

O filme acompanha a equipe de reportagem investigativa do Boston Globe em 2001, quando o novo editor-chefe, Marty Baron, manda reabrir as denúncias de abuso sexual cometido por padres da Arquidiocese de Boston. A pergunta de Baron é simples: quem na Igreja sabia e escondeu.

Michael Keaton faz Walter Robinson, o chefe da equipe. Mark Ruffalo e Rachel McAdams fazem os repórteres Mike Rezendes e Sacha Pfeiffer, e Liev Schreiber faz Baron. A primeira reportagem saiu no começo de 2002 e rendeu ao Globe o Prêmio Pulitzer de Serviço Público em 2003.

Spotlight ganhou o Oscar de melhor filme e de melhor roteiro original na cerimônia de 2016. A direção de McCarthy segue a linha de Nanau: pouca música, muita pasta de arquivo, repórter batendo de porta em porta.

Coletivo filma a apuração enquanto ela acontece e não sabe como termina; Spotlight e Todos os Homens do Presidente reconstituem casos com desfecho conhecido.

Se a noite pedir o clássico do gênero, o programa é Todos os Homens do Presidente (All the President's Men), de Alan J. Pakula, 1976, 138 minutos, disponível no aluguel digital. Play às 20h30 e ponto final às 22h48.

Robert Redford e Dustin Hoffman fazem Bob Woodward e Carl Bernstein, os dois repórteres do Washington Post que investigaram o arrombamento da sede do Partido Democrata no edifício Watergate, em 1972. Jason Robards faz o editor Ben Bradlee.

A fonte anônima do Post, apelidada Garganta Profunda, orienta a dupla a seguir o dinheiro. Em 2005, Mark Felt, vice-diretor do FBI na época do caso, revelou ser ele. A apuração levou à renúncia do presidente Richard Nixon em agosto de 1974.

O filme ganhou quatro Oscars, entre eles o de roteiro adaptado, de William Goldman, e o de ator coadjuvante, para Robards. Termina antes da renúncia, com o barulho das máquinas de escrever na redação.

Regra de bolso: se a casa quer atores e uma história fechada em pouco mais de duas horas, vá de Spotlight. Se quer o filme que formou gerações de jornalistas, vá de Todos os Homens do Presidente.

 

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III  Sai do Catálogo

O ministro que chegou depois do incêndio

No Brasil, Coletivo circula no aluguel digital e em plataformas de cinema de arte, com áudio em romeno e legendas em português. O catálogo muda com frequência: busque pelo título e confira Alexander Nanau e 2019 antes do play.

Assista com legendas e sem pressa nos primeiros vinte minutos. Os nomes romenos se repetem, e vale guardar três: Tolontan, o editor; Condrea, o dono da fábrica; Voiculescu, o ministro.

A segunda metade troca de lado. Os protestos com o lema “A corrupção mata” derrubaram o governo do primeiro-ministro Victor Ponta em novembro de 2015. O gabinete técnico que assumiu nomeou para a Saúde Vlad Voiculescu, ex-ativista de direitos de pacientes, sem carreira política.

Voiculescu deixa Nanau filmar as reuniões do ministério. Ele descobre que os diretores de hospital são indicações partidárias, que parte do dinheiro de compra some em comissões e que o país não tinha uma unidade de grandes queimados à altura do desastre.

Um vídeo gravado dentro de um hospital chega às mãos do ministro: larvas de mosca nas feridas de um paciente queimado. Voiculescu decide divulgar as imagens, e a cena expõe a distância entre o discurso de 2015 e o que acontecia nas enfermarias.

O desfecho é amargo. Nas eleições parlamentares do fim de 2016, o Partido Social-Democrata, o mesmo grupo que governava antes do incêndio, venceu com folga. O gabinete técnico saiu, e as reformas de Voiculescu ficaram pela metade.

Voiculescu voltou ao ministério em 2020, num novo governo, e foi demitido em abril de 2021. O filme não acompanha essa segunda passagem.

Coletivo concorreu ao Oscar de melhor documentário e de melhor filme internacional na cerimônia de 2021. Foi a primeira produção romena indicada pela Academia de Hollywood.

1. Nos primeiros minutos, repare no vídeo amador do incêndio: ele mostra a espuma do teto pegando fogo.

2. Na metade do filme, acompanhe o rótulo da Hexi Pharma: a apuração gira em torno dele.

3. Na reta final, observe quem ocupa as cadeiras do ministério depois da eleição.

Play às 20h30, 109 minutos e uma redação de esportes que entrou nos hospitais da Romênia.

“Qual instituição da sua cidade você só conhece pelo que ela diz de si mesma?”

Na próxima edição: Ela Disse, de Maria Schrader, 2022, e as repórteres do New York Times que ouviram as atrizes acusadoras de Harvey Weinstein.

 
 
Quiz da edição

Segundo o texto, quantas pessoas morreram ao todo depois do incêndio na Colectiv, somando as mortes no local e as mortes posteriores nos hospitais?

AMais de 180, o mesmo número dos queimados
B27, todas ainda na noite do incêndio
C64, a maioria já internada nos hospitais
DCerca de 245, segundo o Ministério da Saúde

Veja o ranking de quem mais acerta →

 
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