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Um xamã, 2 cientistas e 31 anos no mesmo rio

O Abraço da Serpente, de Ciro Guerra, 2015, 125 minutos: o xamã Karamakate, duas expedições e a Amazônia em preto e branco.

Velho xamã indígena de pé numa canoa, num rio da floresta amazônica, em preto e branco.

Karamakate no rio, na Amazônia colombiana

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Na margem de um rio da Amazônia colombiana, o velho Karamakate encara o botânico americano que acabou de descer da canoa e diz: “Você é um chullachaqui.” Na língua do xamã, a palavra nomeia o duplo oco de uma pessoa, uma cópia vazia que anda pela floresta sem memória.

O americano chama-se Evan e veio em 1940 atrás de uma planta. Traz na bagagem o diário de outro homem, um etnógrafo alemão que subiu o mesmo rio em 1909, doente, carregado numa canoa, guiado por aquele mesmo xamã quando ele era jovem.

Karamakate não lembra do alemão. Diz que esqueceu os cantos, os nomes das plantas e o caminho até a última aldeia do seu povo. Sobrou nele a casca, a mesma palavra que acabou de usar contra o visitante.

O diretor colombiano Ciro Guerra montou o filme inteiro sobre essa troca. As duas viagens correm alternadas, uma em 1909, outra em 1940, e o rio é o único elemento que não muda de uma para outra.

Os dois cientistas existiram. O alemão Theodor Koch-Grünberg andou pela região do rio Negro e do Vaupés no começo do século 20 e publicou os relatos em livro. O americano Richard Evans Schultes, de Harvard, passou mais de dez anos estudando plantas sagradas dos povos da Amazônia colombiana.

Guerra leu os dois diários e percebeu um silêncio. Os textos falavam muito dos cientistas e quase nada dos homens que os guiavam rio acima. O filme inverte o ponto de vista e põe o guia no centro.

Rodado em preto e branco, falado em mais de nove línguas e com atores indígenas no papel dos indígenas, O Abraço da Serpente chegou à cerimônia do Oscar de 2016. Foi a primeira vez que a Colômbia teve um filme indicado.

O Programa de Hoje começa pela primeira canoa, a de 1909, e pelo alemão com febre.

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I  O Programa de Hoje

A canoa de 1909 e a planta yakruna

A resposta de ontem

Para onde foi a estátua de Rocky quando saiu da escadaria?

A estátua foi para o Spectrum, a arena esportiva do sul de Filadélfia, onde ficou por anos na calçada da entrada. Em setembro de 2006, a prefeitura a devolveu ao museu, agora num pedestal no pé da escadaria, à direita de quem sobe, onde os turistas fazem fila para a foto de braços erguidos.

O programa desta noite é O Abraço da Serpente (El Abrazo de la Serpiente), drama de aventura dirigido por Ciro Guerra, lançado em 2015, com 125 minutos. Play às 20h e créditos finais às 22h05.

Guerra tinha feito antes A Sombra do Caminhante, de 2004, e Os Viajantes do Vento, de 2009. O Abraço da Serpente foi o terceiro longa dele e o primeiro rodado na selva.

Na viagem de 1909, Theo (Jan Bijvoet), versão de cinema de Koch-Grünberg, chega à aldeia do jovem Karamakate (Nilbio Torres) quase sem forças. Quem o leva é Manduca (Yauenkü Miguee), um indígena que trabalhou nos seringais e aprendeu o espanhol dos patrões.

Karamakate desconfia dos dois. O povo dele foi atacado pelos seringueiros, e ele vive sozinho na floresta. Aceita guiar o alemão por um motivo: Theo diz saber onde ainda vivem sobreviventes da tribo do xamã.

A planta das flores brancas

O remédio para a febre de Theo, segundo Karamakate, é a yakruna, uma planta sagrada de flores brancas que só cresce no alto do rio. O roteiro inventou o nome e a espécie, mas o gesto é o de muitos povos da região: a planta é cultivada, guardada e nunca vendida.

Karamakate guia o alemão para salvar a vida dele e, ao mesmo tempo, recusa entregar a ele o saber da floresta.

A tensão aparece em pequenas cenas. Numa aldeia, Theo dá falta da bússola e exige de volta o objeto, que um morador pegou. Karamakate o repreende: aquele povo se orienta pelas estrelas e pelo vento, e com a bússola esqueceria o céu.

Em outra parada, Karamakate proíbe Theo de comer peixe fora da época certa. Theo, faminto, come escondido, e o xamã trata a desobediência como ofensa ao rio.

A viagem passa por uma missão católica onde um frade cria meninos órfãos dos seringais. Ele os proíbe de falar a própria língua e os castiga com chicote quando falam. Karamakate canta para os meninos na língua deles antes de seguir viagem.

Mais adiante, um seringueiro mutilado, sem um braço, pede ao grupo que o tire do sofrimento. A cena dura poucos minutos e resume o que a borracha fez com a região no começo do século 20.

O título vem da origem que Karamakate conta para o rio: a serpente que desceu da Via Láctea e deixou o corpo na terra. Na mitologia que o filme recria, os rios da Amazônia são o rastro dela.

Quando enfim chegam ao lugar da yakruna, a planta já foi tomada. O xamã vê o que os outros fizeram com ela e decide o destino das últimas flores com as próprias mãos.

“O conhecimento pertence a todos.” (Theo, em O Abraço da Serpente, 2015)

A frase é do alemão, e Karamakate responde a ela com o fogo. O filme não absolve nenhum dos dois.

 
 

II  Se a Noite Pedir Outra Coisa

Os Wayuu de Ciro Guerra e o navio de Herzog

As duas saídas desta noite ficam na mesma América do Sul de rios, contrabando e homens que querem dominar a floresta.

Se a noite pedir outro filme do mesmo diretor, o programa é Pássaros de Verão (Pájaros de Verano), de Ciro Guerra e Cristina Gallego, 2018, com 125 minutos. Play às 20h e ponto final às 22h05.

A história se passa entre os Wayuu, povo do deserto de La Guajira, no norte da Colômbia, entre o fim dos anos 1960 e o começo dos anos 1980. Rapayet (José Acosta), um jovem Wayuu, começa a vender maconha para americanos e funda uma família rica e violenta.

Gallego produziu O Abraço da Serpente e dividiu a direção de Pássaros de Verão com Guerra. O filme abriu a Quinzena dos Realizadores (mostra paralela do Festival de Cannes) em 2018 e organiza a trama em cantos, como uma canção Wayuu.

Pássaros de Verão mostra o dinheiro corroendo um povo por dentro; Fitzcarraldo mostra um europeu tentando dobrar a selva por fora.

Se a noite pedir a Amazônia vista pelos olhos do estrangeiro, o programa é Fitzcarraldo, de Werner Herzog, 1982, com 158 minutos. Play às 20h e ponto final às 22h38.

Klaus Kinski faz Brian Sweeney Fitzgerald, um irlandês fanático por ópera que sonha erguer um teatro em Iquitos, no Peru. Para pagar a obra, ele quer explorar um seringal isolado e, para chegar lá, decide arrastar um navio a vapor por cima de um morro.

Herzog fez a equipe puxar um navio real, de mais de 300 toneladas, pela encosta, com guinchos e centenas de trabalhadores indígenas. Não houve maquete. O filme deu a ele o prêmio de melhor direção em Cannes, em 1982.

O documentário O Fardo dos Sonhos (Burden of Dreams), de Les Blank, 1982, registra a filmagem, as brigas com Kinski e os acidentes no set. Serve de companhia para quem quiser esticar a noite.

Fitzcarraldo e O Abraço da Serpente partem da mesma época, o ciclo da borracha. O de Herzog fica com o patrão; o de Guerra, com quem foi expulso pelo patrão.

Regra de bolso: se a casa quer tensão de família e de crime, vá de Pássaros de Verão. Se quer o delírio de um homem contra o morro, vá de Fitzcarraldo.

 

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III  Sai do Catálogo

O preto e branco do Vaupés

O catálogo dos serviços de streaming no Brasil troca filmes estrangeiros todo mês. Busque por O Abraço da Serpente e confira Ciro Guerra e 2015 antes do play; o título original, El Abrazo de la Serpiente, também aparece em alguns serviços.

O filme foi rodado na selva do Vaupés, departamento colombiano na fronteira com o Brasil, em película de 35 milímetros. O diretor de fotografia David Gallego filmou em preto e branco porque a cor da floresta, segundo Guerra, nunca cabe na tela do jeito que o olho vê.

A referência veio das fotografias das próprias expedições. Koch-Grünberg levava câmera e chapas de vidro, e as imagens dos povos do rio Negro chegaram à Europa em preto e branco. O filme imita o tom dessas chapas.

A cor aparece uma vez só, perto do fim, quando Evan prova a yakruna. A sequência foi montada como uma viagem pelo céu e pelas cores que o resto do filme negou ao espectador.

Karamakate tem dois intérpretes. Nilbio Torres, o jovem, vivia no Vaupés e nunca tinha atuado. Antonio Bolívar, o velho, morava em Leticia e era um dos últimos falantes da língua do seu povo. Bolívar faleceu em 2020, em Leticia, vítima da covid-19.

O filme estreou na Quinzena dos Realizadores de Cannes em 2015 e ganhou o Art Cinema Award, prêmio da confederação dos cinemas de arte europeus. No Oscar de 2016, perdeu a estatueta de filme estrangeiro para O Filho de Saul, do húngaro László Nemes.

1. No começo, repare no rosto do jovem Karamakate pintado e no silêncio dele antes da primeira fala.

2. Na missão católica, compare a de 1909 com a mesma construção trinta e um anos depois.

3. No fim, conte as flores da yakruna que restam e veja quem as recebe.

Play às 20h, 125 minutos e uma única sequência em cor.

Schultes voltou da Colômbia e escreveu o livro O Cipó da Alma (The Vine of the Soul), com Robert Raffauf, em 1992. Koch-Grünberg não teve chance de revisar os próprios relatos: partiu numa última viagem pela Amazônia brasileira e não voltou dela.

Fica a pergunta  ·  até amanhã

Que doença interrompeu a última expedição de Theodor Koch-Grünberg, em 1924?

★ RARO

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Segundo o texto, que marca inédita O Abraço da Serpente alcançou na cerimônia do Oscar?

AFoi o primeiro filme amazônico exibido na Quinzena dos Realizadores de Cannes
BFoi o primeiro filme em preto e branco a vencer o Oscar de fotografia
CFoi a primeira vez que a Colômbia teve um filme indicado ao Oscar
DFoi o primeiro filme falado em mais de nove línguas a vencer o Oscar

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