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O programa de hoje é Corra Lola Corra, disponível em serviço por assinatura e também por aluguel avulso nas lojas digitais, 81 minutos. Play às 20h30 e ponto final às 21h51. Falado em alemão, com legenda e com faixa dublada em português, direção de Tom Tykwer, produção alemã de 1998.
A premissa cabe num telefonema. Manni, um pequeno entregador de dinheiro do submundo de Berlim, esqueceu uma sacola com cem mil marcos num vagão de metrô. Ele precisa entregar o valor ao chefe em vinte minutos, liga desesperado para a namorada e diz que, se ninguém aparecer com o dinheiro, ele vai assaltar o supermercado da esquina.
Lola desliga o telefone e começa a correr. Ela sai do apartamento, desce a escada do prédio, atravessa Berlim a pé em direção ao banco onde o pai trabalha, e a partir daí o filme é literalmente o que o título anuncia: uma mulher de cabelo vermelho correndo por vinte minutos de tempo narrativo, sem atalho e sem táxi.
O detalhe que muda tudo é o que acontece quando a primeira corrida termina. O filme volta ao apartamento, refaz o mesmo telefonema, refaz a mesma descida de escada, e altera um único elemento no caminho: quem estava parado onde, quem olhou para o lado, quantos segundos alguém demorou para sair da frente. A partir dessa alteração mínima, tudo se reorganiza e o fim é outro.
A escada do prédio funciona como o interruptor da história. Nas três corridas Lola desce o mesmo lance de degraus e encontra um vizinho com um cachorro. Na primeira ele resmunga, na segunda estica a perna, na terceira Lola desvia. Cada versão desse encontro de dois segundos empurra a corrida inteira para outro lugar, e o filme confia que o espectador vai reparar sozinho, sem nenhuma explicação em voz alta.
O ritmo é sustentado por batida eletrônica quase ininterrupta, composta pelo próprio diretor com Johnny Klimek e Reinhold Heil, num tempo próximo ao de um coração acelerado. A trilha não comenta a cena, ela marca o relógio, e a sala sente o prazo sem olhar as horas.
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"Ninguém entra duas vezes no mesmo rio."
Heráclito, Fragmentos, século V a.C.
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O acabamento visual junta técnicas que quase nenhum filme reúne na mesma hora e meia: trecho em animação, cena filmada em vídeo em vez de película e plano congelado que dispara uma sequência de fotos com o futuro inteiro de um figurante esbarrado por acaso na calçada.
O reconhecimento veio de fora da Alemanha. O filme passou por Veneza em 1998 e levou prêmio do público, repetiu a dose no Sundance do ano seguinte, e virou o filme alemão de maior circulação internacional daquela virada de década, com Franka Potente saindo dali para Hollywood.
O tom precisa de um aviso curto. Corra Lola Corra tem arma apontada, assalto a banco, morte em cena e corte rápido do começo ao fim, então a mesa que quer algo contemplativo numa quinta à noite vai encontrar oitenta minutos de adrenalina sem pausa.
Para a noite, o encaixe é o melhor possível em dia de semana. São 81 minutos corridos, sem prólogo longo e sem cena pós-crédito. Quem aperta o play às 20h30 termina às 21h51 e ainda tem sobra de noite para discutir qual das três corridas era a de verdade.
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