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Vinz passa 1 dia com o revólver perdido por um policial

O Ódio, de Mathieu Kassovitz: Vincent Cassel, Hubert Koundé e Saïd Taghmaoui atravessam o dia seguinte ao confronto no subúrbio.

Três rapazes em preto e branco num terraço de conjunto habitacional na periferia de Paris.

Vinz, Hubert e Saïd no terraço do conjunto

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No terraço de um prédio do conjunto La Noé, em Chanteloup-les-Vignes, a 30 quilômetros de Paris, Hubert olha para o amigo Vinz e repete a história que abre o filme: “Até aqui, tudo bem”. É a frase de um homem que cai de um prédio de 50 andares e, a cada andar, diz a si mesmo que ainda não bateu no chão.

O Ódio (La Haine, no original), de Mathieu Kassovitz, saiu em 1995 e dura 98 minutos. Kassovitz tinha 27 anos quando estreou o filme no Festival de Cannes.

A ideia nasceu de um caso real. Em 6 de abril de 1993, Makomé M'Bowolé, um rapaz de 17 anos nascido no Zaire, levou um tiro na cabeça dentro de uma delegacia do 18º distrito de Paris, durante um interrogatório. Kassovitz começou a escrever o roteiro naquela mesma semana.

No filme, o rapaz ferido se chama Abdel Ichaha. Ele foi espancado por policiais sob custódia e está em coma no hospital. Na noite anterior à primeira cena, o bairro inteiro saiu às ruas: carros queimados, vitrines quebradas, a delegacia cercada.

Os três amigos acordam no rescaldo. Vinz, judeu, vive com a avó e a irmã. Hubert, negro, é boxeador e viu a academia que montou com dinheiro próprio pegar fogo no confronto. Saïd, de família árabe, faz piada de tudo e serve de ponte entre os outros dois.

Os atores emprestaram os nomes aos personagens. Vincent Cassel virou Vinz, Hubert Koundé ficou Hubert e Saïd Taghmaoui ficou Saïd. Kassovitz quis que o público esquecesse a fronteira entre elenco e bairro.

O filme foi rodado no próprio conjunto, com moradores como figurantes, e montado em preto e branco. A cada troca de cena, um relógio ocupa a tela por alguns segundos e marca a hora exata. O primeiro marca 10h38 da manhã.

A seção I mostra o que Vinz carrega no bolso desde a madrugada, o que ele promete fazer se Abdel não sobreviver e como o relógio termina a contagem.

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I  O Programa de Hoje

Um revólver no bolso de Vinz

A resposta de ontem

De qual conto saiu a história de Janela Indiscreta?

Do conto It Had to Be Murder (em português, tinha que ser assassinato), de Cornell Woolrich, publicado na revista Dime Detective em fevereiro de 1942. No texto original, o vizinho que espia não tem namorada nem enfermeira: as duas personagens foram criadas pelo roteirista John Michael Hayes para o filme.

Na tela de hoje entra O Ódio, de Mathieu Kassovitz, de 1995, em preto e branco, com 98 minutos. Começa às 20h30 e os créditos sobem às 22h08.

Vincent Cassel faz Vinz, o mais raivoso dos três, que treina diante do espelho a fala de Robert De Niro em Taxi Driver (1976). Hubert Koundé é Hubert, o mais calado, que quer sair do bairro. Saïd Taghmaoui é Saïd, o que tenta manter todo mundo rindo.

Na confusão da madrugada, um policial deixou cair o revólver, um Smith & Wesson calibre 44. Vinz achou a arma no chão e escondeu na calça. Ele mostra a Saïd e jura: se Abdel morrer no hospital, mata um policial para empatar o placar.

Hubert não quer saber da arma. Para ele, a raiva de Vinz só serve para dar aos policiais o motivo que eles procuram.

O dia contado no relógio

O roteiro segue o grupo de manhã até a madrugada seguinte. No bairro, eles tentam visitar Abdel no hospital e são barrados, discutem com a polícia no telhado e ouvem um DJ do conjunto mixar rap francês com Édith Piaf numa janela aberta.

Essa cena do DJ virou a imagem mais citada do filme. A câmera sai pela janela, sobe e sobrevoa os prédios enquanto a música enche o pátio vazio.

À tarde, os três pegam o trem para Paris atrás de um traficante chamado Astérix, que deve dinheiro a Saïd. Na capital, Hubert e Saïd são presos, e dois policiais humilham os rapazes na delegacia para ensinar um novato a interrogar. Vinz escapa.

Quando saem, já perderam o último trem. A noite inteira passa em Paris, sem dinheiro e sem lugar para dormir.

Numa rua do centro, Vinz encosta o revólver na cabeça de um skinhead caído, e Hubert manda que ele atire, para provar a si mesmo que não é capaz.

Vinz não atira. O skinhead é vivido pelo próprio Kassovitz, numa ponta rápida.

“É a história de uma sociedade que cai e que, enquanto cai, repete para se acalmar: até aqui, tudo bem” (Hubert, narração final de O Ódio, de Mathieu Kassovitz, 1995).

De volta ao conjunto, perto das seis da manhã, eles sabem pela televisão que Abdel morreu. Vinz entrega o revólver a Hubert. Minutos depois, um policial à paisana agarra Vinz, a arma do policial dispara por acidente e Vinz cai morto na calçada.

Hubert aponta o revólver para o policial, o policial aponta a arma para Hubert, Saïd fecha os olhos e a tela escurece com o som de um tiro. O filme não mostra quem atirou, e Kassovitz nunca respondeu.

 
 

II  Se a Noite Pedir Outra Coisa

Dois bairros depois de Chanteloup

Se a noite pedir outro caminho, dois filmes franceses voltam aos conjuntos da periferia de Paris anos depois de O Ódio, com câmera e tempo diferentes.

O primeiro é Os Miseráveis, de Ladj Ly, de 2019, com 104 minutos. Começa às 20h30 e termina às 22h14.

Ladj Ly cresceu em Montfermeil, a mesma cidade onde Victor Hugo situou parte do romance de 1862. Damien Bonnard vive Stéphane, policial recém-chegado à brigada anticrime do bairro, que passa o primeiro dia de serviço com Chris (Alexis Manenti) e Gwada (Djebril Zonga).

O dia desanda quando um menino, Issa, rouba um filhote de leão de um circo. Na perseguição, Gwada dispara uma bala de borracha no rosto de Issa, e um drone pilotado por outro garoto, Buzz, grava a cena.

Os Miseráveis ganhou o Prêmio do Júri em Cannes em 2019 e o César de melhor filme em 2020, e disputou o Oscar de filme internacional.

O final deixa Issa com uma garrafa incendiária na mão e Stéphane com a arma apontada, no corredor de um prédio. Ly corta antes de qualquer um agir. O filme fecha com uma frase do romance:

“Meus amigos, guardem isto: não há ervas daninhas nem homens maus. Há apenas maus cultivadores” (Victor Hugo, Os Miseráveis, 1862).

O segundo é Atenas, de Romain Gavras, de 2022, com 97 minutos, produção da Netflix. Começa às 20h30 e termina às 22h07.

Idir, um menino de 13 anos, morre espancado, e um vídeo aponta homens com uniforme da polícia. O irmão Karim (Sami Slimane) lidera a revolta no conjunto Atenas, e o irmão mais velho Abdel (Dali Benssalah), soldado do Exército, tenta acalmar o bairro.

O roteiro é de Gavras com Ladj Ly e Elias Belkeddar. Os primeiros 11 minutos foram filmados num plano contínuo (sem corte), da delegacia invadida até o conjunto em chamas.

No fim, Atenas revela quem matou Idir: um grupo de extrema direita fantasiado de policiais, para provocar o confronto.

Para escolher: quem quer o ponto de vista do policial novato vai de Os Miseráveis; quem prefere a revolta vista de dentro do bairro, em escala de guerra, vai de Atenas.

 

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III  Sai do Catálogo

O filme exibido aos ministros

Na data desta edição, O Ódio entra e sai dos catálogos de streaming no Brasil de um mês para outro. Busque por O Ódio ou por La Haine num buscador de streaming, como o JustWatch, e confira se a cópia é a de 98 minutos em preto e branco.

O filme foi rodado em película colorida e convertido para preto e branco na finalização. Kassovitz queria tirar o bairro da cor das reportagens de televisão sobre a periferia.

Em Cannes, em maio de 1995, Kassovitz ganhou o prêmio de melhor direção. Em 1996, O Ódio levou o César de melhor filme, melhor montagem e melhor produtor, para Christophe Rossignon.

A sessão no governo

O primeiro-ministro Alain Juppé mandou organizar uma sessão do filme para os ministros do governo, depois da repercussão em Cannes. Parte da polícia reagiu mal: no festival, os agentes da escolta da equipe viraram as costas para o elenco no tapete vermelho.

Vincent Cassel tinha 28 anos e quase nenhum papel de destaque antes de O Ódio, e virou um dos atores mais chamados do cinema francês depois de Vinz.

Hubert Koundé seguiu no teatro e no cinema francês. Saïd Taghmaoui trabalhou em Hollywood, em Três Reis (1999) e Mulher-Maravilha (2017).

Kassovitz passou a dirigir também fora da França. Em 2000 fez Rios Vermelhos, com Jean Reno e o próprio Cassel, e em 2008 dirigiu Babylon A.D. em Hollywood, com Vin Diesel no papel principal.

Em 2024, Kassovitz levou a história ao palco em Paris, como musical, La Haine: Jusqu'ici rien n'a changé (em português, até aqui nada mudou).

1. No começo, repare no relógio na tela a cada troca de cena e anote as horas: o dia inteiro cabe nos 98 minutos.

2. No meio, fique na cena do DJ e acompanhe a câmera saindo pela janela até cobrir o conjunto inteiro.

3. Na volta a Paris, olhe o fundo do terraço quando os três conversam: a cidade parece se aproximar e se afastar ao mesmo tempo, num efeito de zoom com a câmera recuando.

Na última imagem, o relógio já não aparece: a tela fica preta, Hubert repete a história do homem que cai do prédio e o som de um tiro fecha o filme.

 
 
Quiz da edição

No caso real que inspirou O Ódio, quem levou um tiro na cabeça dentro de uma delegacia de Paris em 1993?

AAbdel Ichaha
BMakomé M'Bowolé
CIssa
DIdir

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Dia 5 de 7 · a temporada de outubro fecha 31/10

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